HOMENAGEM

Trajetória do brasileiro Sérgio Vieira de Mello vira livro e filme

O livro e um filme documentário serão lançados na próxima terça-feira (7), no Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo

Fábio Lucas
Fábio Lucas
Publicado em 06/08/2018 às 12:05
André Zavarize/ZAZ Produções
FOTO: André Zavarize/ZAZ Produções
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De um curso de jornalismo em áreas de conflito surgiu a ideia da homenagem. Um projeto para resgatar a ação de uma personalidade marcante, que se tornou mais conhecido e reconhecido fora do Brasil do que aqui dentro. André Zavarize e Wagner Sarmento querem mudar essa percepção. Para tanto, percorreram os principais países por onde passou o diplomata da Organização das Nações Unidas morto no atentado à sede da instituição em Bagdá, no Iraque, em 19 de agosto de 2003.

Mais de 100 entrevistas foram feitas, entre as quais, com o secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez, e o bispo Carlos Ximenes, Prêmio Nobel da Paz. O respeito ao trabalho de Vieira de Mello como pacificador e defensor dos refugiados, corroborado nos depoimentos, realça o perfil de uma das maiores referências das Nações Unidas no trabalho de campo em zonas de conflito. O resultado está no livro Sérgio Vieira de Mello – O Legado de um Herói Brasileiro, com texto de Wagner Sarmento, ex-repórter do JC, e prefácio de José Ramos-Horta, outro agraciado com o Nobel da Paz, ex-presidente do Timor-Leste.

O livro e um filme documentário, em fase final de edição, serão lançados na próxima terça-feira (7), no Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo. O projeto conta com a parceria da ZAZ Produções, de André Zavarize. “Num mundo com mais refugiados do que nunca, assolado por guerras, a lacuna do Sérgio é enorme”, avalia Sarmento.

Com pinceladas biográficas, o livro não é uma biografia. Trata do passado e do presente, ao revisitar vários dos maiores conflitos no planeta nos últimos 50 anos. E do futuro, ao ver como estão hoje os lugares onde Sérgio atuou. “Onde ele de fato fez a diferença. O que mudou através da ação e do trabalho dele”, relata o autor do livro-reportagem.

No itinerário do herói humanitário, passaram por países como Timor-Leste, Camboja, Laos e Vietnã. Também estiveram na fronteira norte do Brasil, para conversar com imigrantes vindos da Venezuela. Apesar de não ter sido um lugar por onde passou Vieira de Mello, era importante sentir o drama de uma situação atual, em território brasileiro. E observar o quanto o eco da memória de Sérgio está próximo de nós. “O nosso principal objetivo é fazer com que o brasileiro entenda, conheça e tenha a dimensão que houve um brasileiro que foi fundamental na costura diplomática, na negociação política, na ajuda humanitária, nos principais conflitos que o mundo teve na segunda metade do século 20”, aponta Sarmento.

Para ele, como o Brasil não possui tradição de conflito, a população acaba um pouco alheia a coisas que acontecem na geopolítica internacional. “Se hoje ainda é um pouco assim, imagina 15, 20, 30 anos atrás, época de atuação do Sérgio”. Sem jamais ter sido funcionário público brasileiro, ou mesmo ter atuado aqui, Sérgio Vieira de Mello passou a vida em terras estrangeiras.

Filho de pai diplomata, estudou filosofia na Sorbonne, em Paris. “Mas amava o Brasil, o Rio de Janeiro. Sempre que podia estava aqui. A gente quer mostrar que é um brasileiro que deu muito orgulho, uma figura protagonista das relações internacionais”.
Por onde passou, Sérgio deixou a marca do indivíduo que se importava com o destino coletivo, e fazia dessa disposição uma missão. Característica essencialmente política, que requer capacidade de liderança. Exerceu o papel com desenvoltura e naturalidade. Algo que hoje dá saudade, olhando para chefes de Estado e de governo que carecem até de respeitabilidade.

Sérgio Vieira de Mello entrou na ONU como editor de textos. Mas logo ingressou na ajuda humanitária. Sua primeira missão de campo foi em 1971, em Bangladesh, levando mantimentos para os refugiados. “Ele sobe muito rápido dentro da hierarquia da ONU. Se transforma num negociador político. No começo dos anos 1980, foi enviado ao Líbano, por exemplo, em contenda com Israel, como consultor político. Num espaço de 10 anos, ele já era responsável por uma negociação política”, conta Wagner Sarmento.

O destaque veloz se deu por via de um dom natural. “Tinha um carisma fora do comum. Era bonito, chegou a ser por duas vezes eleito o homem mais charmoso do mundo. Uma figura hollywoodiana, extremamente vaidoso, gostava do protagonismo”.
Seu poder de persuasão e capacidade de diálogo o fizeram despontar muito rapidamente. “Isso foi crucial pra que ele se tornasse quem se tornou. Era cotado para ser secretário-geral na época em que foi morto. O que diz um pouco do tamanho dele”, indica Sarmento.

Filósofo por formação, Sérgio Vieira de Mello tornou-se um emblema de pragmatismo. Chegou a desafiar os mecanismos formais da ONU, instituição em que a burocracia é muito grande. “No Camboja, ele teve o disparate, talvez tenha sido a maior ousadia, de travar negociação com o pessoal do Khmer Vermelho, que nunca tinha negociado com nenhum líder internacional”, destaca o autor.

Os integrantes do Khmer Vermelho eram considerados terroristas e genocidas, e a ONU não queria negociar com eles. “Numa ação cinematográfica, Sérgio atravessa o rio nadando, e consegue negociar com lideranças do Khmer Vermelho em mais de uma ocasião. As negociações foram bem-sucedidas”.

O exemplo sugere que o negociador famoso é fruto da ONU, mas em muitas oportunidades tenta transcender a instituição. “Porque ele era muito personalista também. Sempre defendia os valores da ONU, mas, por vaidade, sua filosofia de ação era personalista”.

André Zavarize/ZAZ Produções
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- André Zavarize/ZAZ Produções
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André Zavarize/ZAZ Produções
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TIMORENSES E VENEZUELANOS

Foi na ex-colônia de Portugal na Ásia que o brasileiro teve um ponto de inflexão. “O Timor-Leste foi, sem dúvida, o ponto alto da carreira do Sérgio. E até hoje é o maior case de sucesso da ONU. Ninguém teve um mandato tão amplo, com tantos poderes e tantas responsabilidades, como Sérgio teve em Timor-Leste”, diz Sarmento.

Depois da devastação deixada pela saída da dominação indonésia, 90% da estrutura do país estava destroçada. Vieira de Mello foi designado para administrar o país, em nome das Nações Unidas, em um período de transição para a democracia. Permaneceu no posto por três anos, alcançando destaque global e definindo um modelo de intervenção humanitária para a ONU.

O projeto de Sarmento e Zavarize buscou o rastro de Vieira de Mello em outras trilhas. No Vietnã, era diretor da ONU na Ásia, tendo sido o principal artífice do chamado Plano de Ação Abrangente, que a ONU, em conjunto com vários países, formulou para coordenar a fuga de refugiados da Indochina. No Camboja, o presente encontrado é menos promissor. O país superou a situação de guerra, das matanças, da disputa de facções. “Mas a pessoa que está no comando hoje era líder de uma das facções que disputavam o poder quando Sérgio esteve lá em 1993”, avalia Sarmento.

A compreensão do legado de Sérgio Vieira de Mello dissolve, por um instante, as fronteiras dos conflitos que dividem os povos, provando o quanto é difícil e necessário acreditar na força do diálogo para a construção da paz – e inventar o futuro, como ele dizia, em que todos conheçam um mundo melhor.

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