ficção

Em novo livro, Julian Barnes cria seus 'fragmentos de um discurso amoroso'

O escritor inglês conta a história de um homem que relembra, com idealizações e realismo, o seu relacionamento com uma mulher 30 anos mais velha

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 19/08/2018 às 8:48
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O escritor inglês conta a história de um homem que relembra, com idealizações e realismo, o seu relacionamento com uma mulher 30 anos mais velha - FOTO: Divulgação
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Pode ser radicalmente diferente olhar um relacionamento como observador externo e a como participante. O distanciamento – afetivo ou temporal – traz retratos menos idealizados, empresta a complexidade algo que parecia simples e óbvio. Nada é tão oposto quanto a visão de um jovem amante na sua primeira relação e a memória desta mesma pessoa, décadas depois, sobre os mesmos fatos. Ao mesmo tempo, qual dos dois retratos é o mais verdadeiro?

O novo romance do escritor inglês Julian Barnes, autor premiado e prestigiado, é um daqueles livros que, sem se esconder com o tom cauteloso de um ensaio, sabe com raridade colocar um assunto em exame. Intitulado A Única História (Record), o volume conta a história de Paul, um homem já envelhecido que recorda a sua relação, quando tinha 19 anos e era apenas um universitário cansado da vida insossa e conveniente das pequenas cidades inglesas, com uma mulher quase 30 anos mais velha.

Explicada assim, a obra soa como um relato passional sobre tabus, a urgência de amor, o enfrentamento do moralismo – e é isso também, na medida elegante da prosa de Barnes, um dos grande autores vivos da Inglaterra O vencedor do Man Booker Prize de 2011, com o elogiado O Sentido de um Fim, já havia explorado o território do amor de uma forma comovente em Altos Voos e Queda Livre, misto de autoficção, romance e ensaio sobre o luto, publicado após a perda da sua esposa. A ficção de A Única História toca em um terreno tão sentimental quanto o livro anterior, sem nunca tratar o amor, a idade e o amadurecimento como assuntos dados.

O motivo do título da obra aparece logo no começo. Paul ressalta que “a maioria de nós só tem uma história para contar”. “Só uma importa, só uma vale a pena ser contada. Esta é a minha”, explica o personagem. Subitamente, o leitor já pega questionando tanto sobre qual será o relato de Paul como sobre qual é a sua própria história, a que permanece como tensão e memória mesmo depois de muito tempo passado.

De férias da faculdade e entediado, Paul aceita a recomendação dos pais de entrar em um clube de tênis (“uma filial ao ar livre da ala jovem do Partido Conservador”) mais pela ironia do que por vontade genuína. Lá, por acaso, termina como parceiro do jogo de duplas de Susan, uma mulher casada de 48 anos, igualmente entediada em uma vida de dona de casa e mãe de filhas já jovens em uma cidade pequena.

O romance dos dois é intenso e natural, como narra Barnes. Paul ressalta que não se trata do clichê de uma mulher experiente ensinando os caminhos do sexo a um jovem: Susan basicamente só teve um relacionamento e não traz em si nada de uma quarentona sedutora. Existe, sim, um prazer do garoto pela transgressão, por chocar o pai e a sociedade, mas existe antes o amor de fato, que inventa um idioma para os casais, que foge a todas as definições – afinal, fugir a definições é uma das naturezas principais do amor.

O Paul que narra é um Paul já velho, que relembra suas emoções dando crédito e desconfiando delas. É possível entender o amor de forma diferente anos depois; no entanto, ele em nenhum momento nega a sinceridade e a ingenuidade do encontro dos dois. “Acho que existe uma autenticidade diferente na memória, e não uma inferior”, relata, em dado momento. Barnes aproveita o tema para fazer os seus próprios fragmentos de um discurso amoroso: “No amor tudo é ao mesmo tempo falso e verdadeiro; o amor é o único assunto sobre o qual é impossível dizer algo absurdo”.

LIMITES

Barnes parece convencer o leitor de que se trata de uma trama sobre o caminhar, com percalços, de um relacionamento com as dificuldades da idade. A Única História, porém, vai bem mais longe que isso. Paul e Susan continuam juntos com o passar do tempo. O amor, que para um jovem parece uma resposta simples diante de qualquer pergunta, existe para Susan dentro de um passado. Os dois são espíritos livres, mas logo ele descobre que sua companheira é um “espírito livre danificado”. Não é só com a maturidade do amor, do corpo e da vida cotidiana adulta que Paul passa a conviver: é também com o que há de cicatriz permanente nela e com os limites do poder do próprio amor.

A grande tensão de A Única História é que, mesmo Paul nunca tenha sido totalmente ingênuo, ele convive com ilusão clássica do discurso afetivo: “que os amantes, de certa forma, se situam fora do tempo”. De um amor pouco convencional (e qual não é, na economia única dos amantes?), Barnes constrói uma tentativa, como as fotografias de um elétron, de registrar como se dá o afeto. E faz isso não com frases sucintas, mas com literatura. “Talvez o amor não pudesse ser nunca capturado em uma definição; ele só podia ser capturado em uma história”, se justifica, no fim.

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