entrevista

Editor Gustavo Henrique Tuna fala sobre Gilberto Freyre

Responsável pela obra do sociólogo na Editora Global, o editor fala das crônicas e dos preparativos para os 120 anos

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 25/03/2019 às 11:38
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Responsável pela obra do sociólogo na Editora Global, o editor fala das crônicas e dos preparativos para os 120 anos - Reprodução
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Pouco depois de concluir seu mestrado sobre a obra de Gilberto Freyre, em 2003, o historiador paulista Gustavo Henrique Tuna recebeu um convite inesperado: fazer o índice remissivo dos livros do sociólogo pernambucano, que passavam a fazer parte do catálogo da Global Editora. A partir daí, Gustavo não deixou mais a relação com Freyre e, a partir de 2009, passou a cuidar da obra do autor de Casa-Grande & Senzala na editora. Nesta entrevista, ele fala sobre os preparativos para os 120 anos de Freyre, em 2020, e comenta o lançamento de Gilberto Freyre: Crônicas para Jovens, organizado por ele.

ENTREVISTA

JORNAL DO COMMERCIO – Você organizou uma coletânea de crônicas de Gilberto Freyre. O que chama mais a sua atenção nas crônicas de um autor que escrevia, mesmo em textos mais sociológicos, como um cronista?
GUSTAVO HENRIQUE TUNA – De fato, ao nos depararmos com seus textos ensaísticos, é possível notar a fluidez da prosa de Freyre ao explicar e reconstituir realidades passadas. Creio que tamanha capacidade para expor suas reflexões foi desenvolvida por ele, em grande medida, graças à intensa leitura que ele realizou de textos de cronistas e viajantes estrangeiros que passaram pelo Brasil. Com isso, quero dizer que o olhar atento dele sobre as populações que estudou foi desenvolvido não só graças ao seu background de sociólogo e de antropólogo, como também estruturou-se a partir de seu contato com os relatos de homens e mulheres que passaram pela América portuguesa entre os séculos 16 e 19. A meu ver, a habilidade adquirida por Freyre para narrar contextos históricos de grande complexidade possui fortes raízes nestes textos. As crônicas de Gilberto acabam sendo momentos em que ele sintetiza de maneira rápida e ao mesmo tempo precisa toda a complexidade do mundo que ele observa ao seu redor.

JC – A crônica pode ser um caminho para aproximar aqueles que acham Freyre um autor distante ou antigo do seu pensamento?
GUSTAVO – Sem dúvida. A crônica tem aquele à vontade, aquela tendência a ser um texto leve, que acaba informando de maneira agradável e expressa. Creio que para quem ainda não se dedicou a ler Casa-Grande & Senzala e outros livros do autor, esta antologia de crônicas é um excelente passaporte de entrada. Por meio de sua leitura, é possível adentrar no universo das ideias do autor para que, mais tarde, mergulhe em seus textos ensaísticos sobre aspectos da história e da sociedade brasileiras.

JC – Você selecionou textos sobre a conservação, a infância, a culinária, a ecologia e as cidades. Há outros assuntos que você gostaria de ter colocado se o público-alvo fosse outro?
GUSTAVO – Sim. A produção jornalística de Freyre é bem vasta. É possível montar vários livros dele voltados a um público mais adulto utilizando segmentos desta produção. Há crônicas de Freyre sobre música, pintura, vestuário, medicina, religião, questões relacionadas a habitação, dentre outros assuntos.

JC – O lançamento de Gilberto Freyre: Crônicas para Jovens é o começo dos preparativos para os 120 anos do autor. A Global planeja reeditar livros do autor? Vocês devem publicar obras inéditas, baseadas em cartas ou documentos?
GUSTAVO – A Global está muito entusiasmada de poder fazer parte destas comemorações. E estamos ansiosos pelos resultados que o processo de catalogação da biblioteca e do acervo de documentos pode gerar, ou seja, a possibilidade de surgirem textos inéditos. Em 2017, a editora publicou o livro das cartas trocadas entre Freyre e Manuel Bandeira. Seria fabuloso que a editora pudesse aumentar sua coleção de livros de correspondência, publicando mais títulos que reunissem cartas de outros intelectuais a ele enviadas e suas respectivas respostas.

JC – Casa-Grande & Senzala continua sendo um fenômeno editorial ainda hoje, com uma vendagem incomum para as ciências humanas. Por que o livro continua fascinando leitores e pesquisadores tantos anos após seu lançamento?
GUSTAVO – Quem se dedica a ler Casa-Grande & Senzala acaba se envolvendo facilmente com a escrita do sociólogo que, apesar de ser alguém treinado dentro do ambiente acadêmico, desenvolveu um estilo de abordar assuntos complexos de uma maneira que aproxima o leitor. Ao lado disso, a força das ideias concebidas por Freyre neste livro é enorme. Suas análises sobre as heranças indígenas e sobre as marcas que a escravidão africana deixaram na gênese da sociedade que se formou no Brasil são muito poderosas.

JC – Quais avanços do livro e do pensamento de Freyre continuam presentes nas ciências humanas?
GUSTAVO – A valorização da diversidade cultural brasileira permanece como um dos mais significativos legados da obra-mestra de Freyre e, sem sombra de dúvidas, muito atual. Num cenário internacional como o de hoje, repleto de divisões e conflitos, boa parte deles derivada de questões relacionadas ao contato entre povos de diferentes origens, o recado presente em Casa-Grande & Senzala de valorização da mestiçagem é muito bem-vindo.

JC – O pensamento de Freyre já passou por várias fases interpretativas – foi exaltado, rechaçado e revalorizado. Como avalia o olhar sobre ele nos dias atuais?
GUSTAVO – Atualmente, percebo que os que pesquisam a obra freyriana superaram o debate acerca de se o autor acertou ou errou em suas conclusões e estão tratando de tentar decifrar suas metodologias. A fase atual de estudos sobre ele é muito saudável e fértil, pois estão procurando compreender o autor em seu tempo e estão se surpreendendo ao se darem conta de como Freyre abriu caminhos, apontando novos objetos de estudo e novas metodologias de pesquisa para as ciências humanas.

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