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Adrian Tomine reúne seis histórias sobre a vida contemporânea em nova HQ

'Intrusos', editado pela Nemo, mostra porque Tomine é um dos principais expoentes da sua geração

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 02/04/2019 às 11:54
Adrian Tomine/Divulgação
'Intrusos', editado pela Nemo, mostra porque Tomine é um dos principais expoentes da sua geração - FOTO: Adrian Tomine/Divulgação
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O universo do cinema, com a narrativa criada através da sucessão de imagens e a direção de fotografia, é sempre uma referência quando se pensa em uma obra em quadrinhos, com recursos similares. Ainda que, como linguagem, os filmes tenham mais semelhanças com as HQs, a literatura é sempre o parâmetro comparativo mais usado, muitas vezes de forma completamente aleatória. Afinal, um livro de narrativas gráficas ainda é um livro, e, para muitos, tudo o que uma publicação pode aspirar a ser é uma grande obra literária.

Para falar de Intrusos (Nemo 128 páginas), HQ do autor americano Adrian Tomine, é preciso pegar pelo menos um elemento do universo da escrita, pois se trata de uma coletânea que forma uma espécie de livro de contos em quadrinhos, com seis narrativas independentes. Reuniões de quadrinhos publicados separadamente não são incomuns, mas poucas vezes elas são tão habilmente costuradas como fez o autor.

Adrian Tomine é um do mais aclamados nomes dos quadrinhos independentes americanos. Começou publicando por conta própria a série Optic Nerve, logo parou no radar de publicações literárias alternativas e hoje é mais conhecido por criar algumas das mais belas capas da prestigiada New Yorker. Em uma delas, ele captura com perfeição a súbita curiosidade de uma mulher ao ver alguém, no vagão oposto do metrô, lendo o mesmo livro que ela – a coincidência prazerosa de encontrar uma espécie de irmão no meio da multidão.

Intrusos é cheio de delicadezas como essa, mas também é muito mais. Recheado de humor e da dura melancolia da vida adulta, mostra a versatilidade, a criatividade e a maturidade do quadrinista. A cada narrativa, Tomine varia um pouco o seu traço apurado – algumas vezes, em preto e branco, em outras, com cores, criando também paletas sóbrias para parte das histórias. Se é um grande ilustrador de cenas complexas, com o excesso de informação das paisagens urbanas do século 21, o autor americano aqui se foca mais nos personagens e ambientes internos, tão caóticos quando o mundo exterior.

AS HISTÓRIAS

O primeiro conto do livro, Breve Histórico da Arte Conhecida como Hortescultura, é narrado através de uma série de tirinhas de quatro quadros, com eventuais histórias em uma página cheia. É o que mais traz o humor: mostra um jardineiro que cria a hortescultura, objetos artísticos que contém plantas dentro de si. É sua ousadia dentro de uma vida pacata e, com ela, Tomine constrói a dureza do mundo real, em que sonho se transforma em decepção e ressentimento, e também a leveza dele, quando a mágoa vira finalmente a capacidade de se levar menos a sério.

Amber Sweet, história seguinte, mostra uma jovem universitária que descobre que é sósia de alguém famoso – e passa a lidar com as consequências angustiantes de uma vida que ela nem mesma vive. Nessa narrativa, Tomine também mostra a crueldade da sexualização feminina e das obsessões eróticas dos homens.

Vamos Owls, que começa em um encontro para viciados em substâncias, aponta para um casal inusitado: um homem que vende maconha no seu bairro e uma mulher desajustada, tentando reconstruir a sua vida. O final é algo surpreendente, mas é justamente na relação cheias de defeitos – e de um machismo incômodo – que está o cerne da história. Em certa medida, Vamos Owls é o oposto de Tradução do Japonês, HQ seguinte em que os personagens principais, uma mãe e um filho fazendo uma viagem para reencontrarem o pai da criança, nunca aparecem.

Triunfo e Tragédia, sobre um pai que observa a sua filha adolescente tentar entrar no mundo da comédia stand-up. A decisão o surpreende: sua filha é tímida e nunca demonstrou apreço pelo humor. Enquanto essa história de conflito e apoio se desenvolve, Tomine mostra sua destreza no campo das sutilezas – é capaz de narrar a doença de um personagem sem nunca citá-la, só através das mudanças no seu corpo.

Por fim, Intrusos fecha o volume. Um homem recupera, casualmente, a chave de sua antiga casa. Depois de vigiá-la e aprender o cotidiano do morador, decide entrar lá para rememorar os tempos antigos. Por fim, como o título sugere, ele não é o único intruso.

São seis retratos singulares das vidas adultas. Neles, Adrian Tomine não só mostra um retrato agudo e criativo da vida adulta no saturado século 21, como também se prova, mais uma vez, um mestre das narrativas curtas – e não importa qual seja o parâmetro comparativo.

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