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'Grande Sertão: Veredas' através do olhar de Mia Couto

O escritor moçambicano vem a Pernambuco no dia 16 para apresentar uma obra que define como 'um milagre'

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 14/04/2019 às 8:00
Renato Parada/Divulgação
O escritor moçambicano vem a Pernambuco no dia 16 para apresentar uma obra que define como 'um milagre' - FOTO: Renato Parada/Divulgação
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Em certa medida, o escritor moçambicano Mia Couto tem participado dos lançamentos de livros mais incomuns de sua trajetória na sua passagem atual pelo Brasil. Não tem falado sobre um livro seu, nem mesmo apresentado a obra criada a quatro mãos que fez ano passado com o autor e amigo angolano José Eduardo Agualusa. Mia Couto tem se disposto a lançar o livro de um outro autor, uma figura que nunca conheceu senão através da literatura.

A obra, no entanto, não poderia ser menos monumental: é Grande Sertão: Veredas, o clássico do escritor mineiro João Guimarães Rosa, que ganhou neste ano uma nova edição pela Companhia das Letras. A passagem de Mia Couto pelo Recife acontece na próxima terça, a partir das 19h, quando ele conversa sobre a obra com o crítico literário Schneider Carpeggiani no auditório G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). As entradas para participar do evento são gratuitas, mas se esgotaram menos de uma hora depois da abertura das inscrições online.

Vencedor do Prêmio Camões e um dos mais celebrados autores da língua portuguesa na atualidade, Mia Couto admite que é um fato singular “lançar” a obra de um outro autor. É uma missão um pouco incômoda e, ao mesmo tempo, libertadora. “Por um lado, sim, é um pouco desconfortável. Guimarães Rosa é alguém com um grande impacto não só em mim como também em outros autores moçambicanos. Mas tem ainda algum alívio de não ter que falar sobre a sua própria obra, o que é sempre difícil”, comenta o escritor, em entrevista por telefone.

O primeiro contato de Mia Couto com a obra do autor mineiro não foi através de Grande Sertão: Veredas. Foi o escritor angolano Luandino Vieira, referência para o colega moçambicano, que o indicou o conto A Terceira Margem do Rio, que ele leu através de uma fotocópia. E, se antes disso o autor moçambicano já buscava fazer da linguagem uma protagonismo da sua obra, trazendo o falar do campo para a escrita, a leitura o aprofundou nesse movimento. “Ele me marcou muito, criou um antes e depois. Grande Sertão chegou muito mais tarde e, mesmo já conhecendo a escrita de Rosa, foi uma leitura difícil. Ainda hoje volto a ela, pois sinto um livro só existe quando o lemos mais de uma vez”, indica.

Mia Couto já tinha escrito um livro de contos. “Eu percebia alguns estímulos de Guimarães Rosa na minha escrita. Eu queria que a linguagem rural entrasse na minha escrita, e entrasse por via da poesia. Soube isso por via direta, porque tive contato com a literatura de Luandino Vieira. O que Guimarães Rosa fez foi ampliar isso, dar um sinal verde para que eu deixasse de ver que havia um limite entre prosa e poesia”, confessa o autor ao JC. No lançamento do livro em São Paulo, sintetizou: “Como o sertão de Rosa, a minha cidade é mais da palavra do que da terra, e os nossos lugares de afeto são sempre mais da linguagem do que da geografia”.

O reencontro com o romance de Guimarães Rosa recentemente “devolveu o chão” para a sua escrita. Grande Sertão: Veredas é, para Mia Couto, como “um milagre”. “Ele caminhou por várias veredas que são difíceis de sustentar, como Deus, o amor, a verdade, esses grandes assuntos”, ressalta. Da literatura brasileira, além de Guimarães Rosa, destaca outro reinventor da linguagem, o poeta Manoel de Barros, e um contemporâneo, Julián Fuks, do livro A Resistência.

A EDIÇÃO

Talvez milagre seja um termo justo para a dimensão de Grande Sertão: Veredas. Afinal, quem se permite se descobrir na linguagem rosiana dificilmente sai o mesmo de lá.

A nova edição da Companhia das Letras traz um excelente material crítico sobre o livro. Se não pode mostrar o texto clássico de Antonio Candido sobre a obra, reúne uma lista mais do que consistente de comentaristas: Roberto Schwaz, Walnice Nogueira Galvão, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Jr e Silviano Santigo. Além disso, traz trechos de cartas de Fernando Sabino e Clarice Lispector, que compartilham o espanto com a revolução que o livro foi na literatura brasileira.

A capa traz uma adaptação do Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário, com o nome dos personagens do romance, e o livro ainda conta com uma linha do tempo, fotos e desenhos originais de Poty.

MOÇAMBIQUE

No evento em São Paulo, o escritor moçambicano revelou que, antes de embarcar para o Brasil, pensou em cancelar a viagem ao ver a destruição da cidade da sua infância, Beira, pelos efeitos do ciclone que devastou seu país. Veio porque queria trazer um abraço para o Brasil, também acometido por suas tragédias, como as de Mariana, de Brumadinho e do Rio de Janeiro.

Em um texto assinado com o autor e amigo angolano Agualusa, ele lamentou que o Brasil acolhedor e criativo que conheceu: “É com grande temor que vemos que esse Brasil pode estar em risco de desaparecer. A tolerância está sendo substituída pelo ódio, o gosto de escutar o outro e o desejo de integrar a diferença parecem viver os seus últimos dias”. Apesar disso, Mia Couto destacou a solidariedade das pessoas e organizações não governamentais na ajuda a Moçambique, devastada e com uma estimativa de mais de 100 mil desabrigados e mais de 500 mortos.

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