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Segundo volume da HQ 'Bone' se aprofunda no universo de Jeff Smith

A história em quadrinhos já vendeu milhões de exemplares e foi publicada em 25 países

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 10/05/2019 às 11:01
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A história em quadrinhos já vendeu milhões de exemplares e foi publicada em 25 países - FOTO: Divulgação
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As peripécias são elementos indispensáveis das grandes aventuras – o arquétipo do herói, Ulisses, não por acaso ultrapassa vários conflitos através de artimanhas. Como uma boa trama épica e divertida, a história em quadrinhos Bone segue esse receituário, feito de momentos que parecem sem saída só para que todos (ou quase todos) escapem mesmo assim. A HQ, escrita e desenhada pelo autor americano Jeff Smith, tem agora o seu segundo volume lançado no Brasil, com edição da Todavia e tradução de Érico de Assis.

O quadrinho já começou a ser publicado no Brasil em outra época, mas não foi concluído. A edição atual traz as páginas coloridas – um bom luxo em comparação às originais – de uma narrativa criada quase que como um folhetim, com pequenas revistas lançadas periodicamente.

No primeiro livro, lançado neste ano, Jeff Smith apresentava o seu universo cartunesco, entre os ares de desenhos infantis e as complexidades de sagas de fantasia. Os bones são criaturas brancas e narigudas que, após uma confusão, são expulsos da sua cidade. Terminam em um vale desconhecido, habitado por ratazanas, dragões, humanos e outros bichos que falam.

O protagonista é Fone Bone, o mais responsável do trio. Smiley Bone é um bonachão parcialmente estúpido. Phoney é uma figura avarenta, que sempre pensa em si antes de tudo – não por acaso são suas ações que expulsam os três da cidade natal. Quem se junta ao núcleo principal é Espinho, uma garota humana criada por sua avó no meio da floresta e peça-chave para o destino do reino dos homens e dos dragões, com um passado que ela mesmo não conhece.

No primeiro livro, esses personagens e o universo amplo de Bone são apresentados. A trama também revela o seu verdadeiro perigo, muito maior do que estar perdido longe de casa ou de se desentender com os amigos: as ratazanas, que se alimentam do que passar por sua frente, e o senhor dos gafanhotos, que havia sido derrotado há muito tempo por uma aliança e que agora ameaça um retorno.

CONTRA-ATAQUE

O segundo volume tem um subtítulo inspirado em Star Wars: Phoney Contra-Ataca ou Solstício. Se as primeiras histórias já traziam um universo bem maior do que se possa imaginar, Jeff Smith amplia horizontes: os leitores conhecem novos territórios, novas ameaças e se aprofundam nas tramas ocultas do começo da saga. Os heróis começam separados: Phoney e Smiley estão na vila, tentando pagar sua dívida após enganar todo mundo, e Fone, Espinho e a Vovó estão no meio da floresta.

Phoney, um manipulador inveterado, engana todo mundo para conseguir mais poder e comida: não só declara que a ameaça dos dragões é real – uma verdade que alguns humanos tentavam esconder, até porque os seres estão do mesmo lado deles – como se proclama um matador do bichos. É o suficiente para a população trocar a liderança de Lucius por seu carisma interesseiro. Nesses momentos mais prosaicos, com um herói que não abre mão de obter vantagens pessoais, Bone tem suas grandes cenas e narrativas. Phoney, afinal, se torna um líder pelo medo da população dos dragões e se sustenta pela promessa de atacar problemas inexistentes – e é possível tirar daí semelhanças com a realidade brasileira.

Outros momentos divertidos são quando Fone, o mais sério do trio, mostra sua idolatria pelo livro Moby Dick. A obra, na verdade, se transforma até em uma arma, capaz de fazer dormir qualquer um. Pode parecer uma ironia de Jeff Smith, mas o autor é um verdadeiro fã do escritor americano Herman Melville, tanto que um bicho de estimação termina sendo batizado como Bartleby, icônico personagem de sua literatura.

A segunda parte da série de HQs que venceu dez Prêmios Eisner, maior honraria das HQs americanas, também adentra o mundo dos sonhos, conectado com a realidade. Temos um universo de fantasia ainda mais denso, que demanda alguns momentos de explicação (que nunca solucionam todas as dúvidas, claro, porque o mistério da história reside neles). As constantes inserções de novos elementos em Bone, no entanto, às vezes tornam a aventura mais caótica do que envolvente – felizmente, Jeff Smith sabe retornar ao prumo com os bons personagens que constrói.

Novamente, é incrível como a saga Bone consegue, com capítulos tão curtos, continuar como uma narrativa fluída. É um folhetim no melhor sentido do termo: Jeff Smith doma o formato, não se deixar domar por ele. Não é por acaso que Bone acumulou uma aclamação crítica e milhões de exemplares vendidos em 25 países do mundo. É um daqueles clássicos despretensiosos, que sequestram o afeto do leitor sem ele sequer perceber. 

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