prosa

Frederico Toscano cria contos de terror pernambucanos em livro

A obra Carapaça Escura traz narrativas em que o horror é mais cotidiano do que sobrenatural

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 11/06/2019 às 11:35
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A obra Carapaça Escura traz narrativas em que o horror é mais cotidiano do que sobrenatural - FOTO: Divulgação
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Para o historiador Frederico Toscano, a nossa vida cotidiana está repleta de horrores. Mais do que o mero sobrenatural, os contos de terror do seu livro Carapaça Escura (Patuá, R$ 40), lançado no último sábado (8), estão ocupados por ambientes aparentemente corriqueiros: o homem que pesca, a mulher que prepara galinha cabidela, uma criança que brinca chutando uma bola na parede. É no que irrompe desses ambientes que sai o mais perturbador das suas narrativas.

Primeira obra de ficção do autor, que foi terceiro lugar no Prêmio Jabuti com o livro À Francesa: a Belle Èpoque do Comer e do Beber no Recife, Carapaça Escura se passa todo em cenários pernambucanos. Historiador e gastrônomo, Frederico conta que a palavra sempre foi a sua ferramenta principal. “Eu sempre gostei de escrever de maneira geral, e de ler muito também. Esse livro é de terror, mas eu não escrevo só sobre o terror, eu escrevo o fantástico em suas diferentes vertentes: a fantasia, a ficção científica e o horror. Escrever o fantástico, para mim, é continuar a fazer o que eu gosto, mas de uma maneira diametralmente oposta ao que faço com a história, que é uma escrita controlada. Eu vou para um outro lado, para uma escrita totalmente aberta”, conta o autor.

Além disso, Frederico toma rumos próprios dentro da tradição da literatura de terror de Pernambuco. Como ele mesmo lembra, a Academia Pernambucana de Letras foi fundada por Carneiro Vilela, autor de A Emparedada da Rua Nova, história da morte de uma garota que virou lenda na capital pernambucana. Gilberto Freyre também se fascinou pelas assombrações. “Você tem também alguns poemas de Mauro Mota. Ele escreveu versos sobre assombrações cotidianas, discretas, não são muito chamativas. São aquelas que se confundem com o vento, fazem a cadeira de balanço se mexer, batem portas, fecham janelas, que assoviam pelas frestas”, explica.

Essa rotina é também o que interessa para a sua ficção. “O cotidiano é a minha fonte. Eu não tiro a assombração da assombração, eu não tiro o fantástico do fantástico. Essas história vêm do que está ao meu redor, do que é diário. Vêm de caminhadas, de pegar um ônibus, de ir a um restaurante, de esperar em uma fila de banco, de uma viagem. Isso que faz para mim o horror, e nós temos um cotidiano muito cheio dele. Somos permeados de horrores diários. Só porque eles não chegam a ser sobrenaturais – geralmente – não que dizer que não existam”, aponta Frederico.

PESQUISA HISTÓRICA

Os contos de Carapaça Escura são depurados, e dois se destacam em especial: Cabidela, a história de uma cozinheira e o seu marido, e o que dá título ao livro, que se passa nos anos 1960 e traz um escafandrista como foco central. O personagem foi descoberto por Frederico quando ele, durante uma pesquisa, encontrou um recorte de jornal sobre os trabalhadores do Porto do Recife.

“O entrevistado deixava claro que era um trabalho muito difícil e insalubre, e pelo qual ele ganhava muito mal. Mas ele, ao mesmo tempo, não sabia fazer outra coisa. Isso para mim deixou o personagem pronto. Ele é alguém pego num ciclo: ele sabe que o que ele faz vai acabar o matando, mas não sabe fazer outra coisa. O horror já está aí. Eu só acrescentei outros elementos extraordinários”, aponta.

Frederico também explica a preferência por Pernambuco como cenário. “Eu não sei escrever – terror, pelo menos – sem ser regional, sem ser em Pernambuco. Nenhuma história minha de terror se passa fora daqui. Eu imagino o falar das pessoas como sendo o daqui, com os sotaques diferentes”, conclui.

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