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Mordillo, um cartunista de humor silencioso e poético

Um dos principais nomes das artes gráficas do mundo, Mordillo faleceu aos 86 anos na último final de semana

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 02/07/2019 às 9:18
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Foto: Christof Stache/AFP
Um dos principais nomes das artes gráficas do mundo, Mordillo faleceu aos 86 anos na último final de semana - FOTO: Foto: Christof Stache/AFP
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A maioria dos artistas e ilustradores se deparam ao longo da vida várias vezes com uma pergunta tão fundamental quanto indefinida em entrevista, sobre quando aprenderam a desenhar. É difícil precisar o momento, porque, na verdade, todas crianças gostam de rabiscar no papel – algumas simplesmente continuam a fazê-lo mesmo mais velhas. O cartunista e ilustrador argentino Guillermo Mordillo, falecido na última sexta, aos 86 anos, por exemplo, dizia não saber como começou a atividade: em todas as suas memórias de infância, ele se vê com um lápis na mão.

Um dos principais nomes das artes gráficas do mundo, Mordillo se tornou referência nos cartuns por conta de suas obras com um colorido único e um humor delicado e silencioso. Sem depender das palavras, seus trabalhos circularam o mundo transpondo barreiras linguísticas: suas charges entravam em temáticas políticas, mas eram ainda mais poderosas quando falavam de algumas das suas paixões, como o amor e o futebol.

Nascido no mesmo ano que Quino na Argentina, Mordillo só morou no país até 1955, quando partiu para o Peru e, depois, para os Estados Unidos. Já como ilustrador, trabalhou na versão cinematográfica de personagens como Popeye e Luluzinha, ainda nos anos 1960. Pouco depois se mudaria para Europa, radicando-se em Paris e, mais tarde, na Espanha – atualmente, se dividia entre Buenos Aires, onde passava alguns meses, e a ilha de Maiorca, na Espanha, sua morada.

Um marco na sua vida foi a animação Branca de Neve – dos anões da obra ele tirou a ideia para os seus personagens arredondados e os narizes grandes que sempre utilizava. No Brasil, Mordillo ficou conhecido pelas animações que passavam nos ano 1980, muitas vezes com animais como girafas e elefantes. Um dos seus livros recentes editados por aqui foi Futebol & Cartuns, de 2015. “O futebol sempre me encantou pela sua imprevisibilidade. No cinema, normalmente você sabe como vai terminar a história, por mais surpresas que tenha a trama. No futebol, é diferente: até o último minuto de jogo, tudo pode acontecer. Isso é sensacional”, disse em entrevista ao Estadão em 2012.

REFERÊNCIA

Nas andanças por festivais, exposições e premiações internacionais, o cartunista pernambucano Lailson de Holanda conheceu Mordillo, uma referência em sua trajetória. “Eu sempre achei o seu desenho fantástico. Ele domina as cores de uma forma brilhante, foi minha referência no colorir”, aponta.

Ao levar uma mostra sua para a Universidade de Alcalá de Henares, na Espanha, Lailson foi inesperadamente apresentado ao colega argentino e convidado pela organização do evento a fazer uma saudação a Mordillo, que ganhara o título de doutor honorário pela instituição. “Fiz a saudação, a gente começou uma conversa e, no dia seguinte, ele foi para a abertura da minha exposição. Fiquei muito feliz, e fizemos uma boa amizade”, conta Lailson. “Ele era alguém sem frescura, aberto para os mais novos. Tive o prazer de conhecê-lo.”

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