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Julya Vasconcelos lança seu primeiro livro de poemas

'A Súbita Insistência das Coisas' vai ser apresentado em um evento no no Sebo Casa Azul

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 02/08/2019 às 11:04
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Foto: Divulgação
'A Súbita Insistência das Coisas' vai ser apresentado em um evento no no Sebo Casa Azul - Foto: Divulgação
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"Cada palavra que você diz eu cascavilho/ até sentir teu pulso", diz um dos poemas de A Súbita Insistência das Coisas (Uratau), livro de estreia da escritora e curadora recifense Julya Vasconcelos. Nesta entrevista, ela fala sobre a criação da obra, que será lançada nesta sexta (2/8), a partir das 19h37, no Sebo Casa Azul (R. 13 de Maio, 122, Olinda)

JORNAL DO COMMERCIO – Julya, apesar de você ter poemas publicados, esse é o seu primeiro livro. São versos todos recentes ou de vários momentos? Como foi dar esse corpo a A Súbita Insistência das Coisas?
JULYA VASCONCELOS – Então, já houve outros momentos em que eu reuni um grupo de poemas que vinha escrevendo ao longo do tempo com a ideia de ter um volume, um livro. Sempre me dava a sensação de estar fazendo uma antologia, uma reunião de tudo o que eu vinha escrevendo, com textos e poemas que não necessariamente travavam um diálogo. Não que isso seja um problema em si, mas não era o que eu queria agora. A Súbita Insistência das Coisas é um projeto no qual eu me debrucei desejando ter mais que uma antologia, no sentido de ter uma unidade. E essa unidade veio quando eu percebi que havia uma chave comum entre todas as coisas que eu estava escrevendo mais recentemente. Mesmo os poemas mais antigos (há alguns) foram selecionados quando eu percebi que eles dialogam intimamente com o resto do conjunto. Eu sinceramente não sei se consegui esse conjunto redondo que eu queria, mas esse foi o desejo por trás do poemário.

JC – Os poemas parecem ser feitos de fragmentos de vida, anotações, esquecimentos, quedas. Existe uma trajetória pessoal (ou coletiva) nos poemas do livro? E uma trajetória literária sua, considera que exista na obra?
JULYA – Pra mim a escrita, sobretudo o poema, é uma forma de dar matéria aos acontecimentos, escapar do caos emocional e do caos do mundo. Se não passo minha vida e o mundo pelo filtro da escrita sinto que me perco, que perco os contornos. A poesia é o lugar onde aterro, olho e confiro as coisas. Não que todos os poemas sejam de alguma forma uma costura autobiográfica, mas me interessa o movimento que parte desse mínimo banal que é meu caminho no mundo. Sinto que sempre corro o risco de tangenciar um sentimento mais “universal” (muitas aspas aqui!). Então acho que essa sensação de que os poemas surgem de anotações, fragmentos, quedas, faz sentido. Não parto de grandes questões, muito raramente faço este caminho. No entanto, também sinto que quanto mais me volto pro mínimo, mais perto chego de falar sobre algo que me extrapola.

JC – Pássaros são aparições recorrentes nos poema. É uma imagem que te atrai, que conscientemente foi se mostrando na escrita, ou uma coincidência?
JULYA – O pássaro é uma imagem que me atrai, mas foi um acidente. Quando vi, tinha nas mãos um grupo de poemas que orbitavam em torno dessa imagem. Ela me puxou, e não eu a ela. Acho que o pássaro pra mim é um ser meio dúbio. Admiro e tenho pena da sua leveza extrema, ao mesmo tempo. Acho que ele chega muitas vezes nesse lugar do que é facilmente transmutável, ou suscetível à queda ou à loucura.

JC – A Súbita Insistência das Coisas traz referências a João Cabral, Tarso de Castro e Alina Reyes, entre outros. É uma espécie de diálogo, de aproximação que você estabelece com esses autores (e outros não citados)?
JULYA – Estabeleço alguns diálogos com outros autores no livro. Às vezes tenho a necessidade de citá-los como que pedindo uma interlocução, mas às vezes eles são apenas uma espécie de personagem do qual me aproprio. Depende do poema. Quando eu falo de João Cabral, ou quando cito o Rosa, é a escrita deles que me interessa mesmo, é como essa escrita me atinge e atinge o poema. Quando eu falo do Tarso de Castro, por exemplo, o admiro como o jornalista que foi, mas confesso que queria só falar dos seus maxilares mesmo (risos). Mas assim, de um modo geral, a própria literatura é algo que me inspira a escrever, então de uma leitura às vezes me cai um poema no colo, que foi o que aconteceu com o poema em que falo da Alice Notley... mas enfim, eu gosto de trazê-los pra dentro do meu texto. Nesse sentido, os músicos também estão me orbitando.

O LIVRO

Em um dos poemas do livro A Súbita Insistência das Coisas (Urutau), intitulado Ondas Curtas, a poeta Julya Vasconcelos escreve: “Encosto, como se encostasse,/ o ouvido./ Como se de repente eu fosse/ não mais uma mulher,/ mas um satélite”. A imagem poderia parecer estranha para um livro que se debruça na recorrência de lembranças, da água e dos pássaros, mas não é. Não há nada de metálico na referência a um satélite: é a escuta, a transmissão, a conexão com as ondas curtas o gesto mais importante aqui.

No seu primeiro livro publicado, Julya apresenta uma voz poética íntima e, ao mesmo tempo, atenta – aos detalhes do mundo, dos relacionamentos ou mesmo dos abismos coletivos. Se antes já havia apresentado versos em coletâneas e revistas, na obra é possível ter uma noção mais coletiva da sua escrita.

Alguns poemas surgem de anotações, outro as incluem no meio de um assunto. A menção aos pássaros, por exemplo, não é porque A Súbita Insistência das Coisas se coloque como um olhar idílico para a natureza. Julya traz com a mesma fluência pardais, satélites, carnavais, João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Como o título sugere, os poemas parecem se equilibrar entre o que é inesperado e repentino e o que é recorrente e latente. E não é um caminho simples o de tentar revelar o que pertence a esses dois territórios.

No belo poema Infância, a autora fala de uma Dulce que conheceu quando criança: “(...) o nome/ mais assombrosamente/ belo do mundo/ antes de conhecer/ as palavras/ penumbra, jaguar e fulgor”. Se a linguagem é o espaço do fascínio, também é o do estrangeiro. “Só posso andar fora da língua ou na língua dos outros./ Na minha,/ não”, aponta em outro poema.

O Golpe, por exemplo, aborda o impeachment de Dilma Rousseff, mas principalmente o seu efeito sobre as pessoas: “corpo humano mulher brasileira vinte dedos/ onde não há parâmetros/ mas o universalíssimo medo”. Ainda que note o abismo do Brasil, A Súbita Insistência das Coisas não é um livro simplesmente taciturno. A atenção, parece dizer, também é uma esperança: “Confio na ternura/ de maneira geral/ como esta de te observar/ com os pés pra fora da rede/ nessa noite quente e pequena.”

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