FICÇÃO

Livro 'Meu Ano de Descanso e Relaxamento' traz o sono como uma obsessão

Com uma protagonista que decide 'hibernar' ao longo de um ano, Ottessa Moshefegh cria uma narrativa ácida e surreal sobre o próprio sentido de seguir em frente

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 12/08/2019 às 11:08
Foto: Krystal Griffiths/Divulgação
Com uma protagonista que decide 'hibernar' ao longo de um ano, Ottessa Moshefegh cria uma narrativa ácida e surreal sobre o próprio sentido de seguir em frente - Foto: Krystal Griffiths/Divulgação
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Na metade do ano de 2000, uma mulher de 26 anos decide que o seu plano para os próximos 12 meses é o de dormir o máximo de tempo possível. Não se trata de diminuir o ritmo, se resguardar um pouco da vida social ou meditar: é uma espécie de hibernação voluntária, uma transformação do sono em um método para alcançar alguma coisa. Pode parecer uma premissa absurda, mas é esse o saboroso ponto inicial de um denso e bem-humorado romance.

Meu Ano de Descanso e Relaxamento (Todavia, traduzido por Juliana Cunha), livro da escritora americana Ottessa Moshfegh, foi publicado ano passado nos Estados Unidos, recolhendo elogios da crítica. Sua narrativa, que se alterna entre incômodos, angústias e sátiras, parece continuar uma tradição particular da literatura: a dos personagens da recusa (ainda que quase delicada), que se afastam friamente das convenções e obrigações. O caso mais famoso é o da breve obra-prima Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, sobre um homem que constrange e desarma o seu chefe ao se recusar a seguir qualquer ordem ou pedido dizendo, com naturalidade, que “preferia não fazê-lo”.

O romance de Ottessa também é marcado por uma recusa implícita: a da lucidez e da consciência. Meu Ano de Descanso e Relaxamento já começa em pleno processo de mergulho na hibernação, franqueada principalmente através do abuso de medicamentos. Assim, o leitor sabe o objetivo da personagem-narradora, mas ainda está tateando pelas motivações dela para buscar o sono com tanta radicalidade.

“Não consigo reconhecer nada que justifique minha decisão de hibernar. No começo, eu só queria uns tranquilizantes para abafar meus pensamentos e juízos, já que o bombardeio constante tornava difícil a tarefa de não odiar a tudo e a todos. Achava que a vida seria mais tolerável se meu cérebro demorasse um pouco mais para condenar o mundo ao meu redor”, conta. Diante de um sociedade e de uma intimidade que não descansam, a pausa é uma tentativa de distanciamento e, posteriormente, de reinvenção.

WHOOPI GOLDBERG

A narradora é uma mulher bonita, financeiramente estável e com uma potencial carreira em uma galeria de arte. Esses dados – e ela mesmo reconhece os seus privilégios sem muitas cerimônias – só tornam mais estranho a busca pelo sono absoluto. Com o andar do livro, ela revela as nuances de um relacionamento humilhante com o ex-namorado Trevor, o seu desprezo e afeto por Reva, previsível como uma “personagem de filme”, e até a morte recente dos pais, um por câncer e o outro por suicídio (“Meu pai estava ocupado morrendo (...), e minha mãe estava ocupada sendo ela mesma, o que no final parecia pior do que ter câncer”, escreve entre a crueldade e o humor). Um dos seus escapes é uma obsessão pela filmografia de Whoopi Goldberg: “Aonde quer que ela fosse, tudo ao ser redor se tornava uma paródia, desajeitada e ridícula. Era um conforto ver aquilo. Obrigada, Deus, por ter nos presenteado com a Whoopi. Nada era sagrado. Whoopi era a prova”.

Para conseguir os remédios de que precisa para dormir o máximo de tempo possível, a jovem encontra a irresponsável psiquiatra Dra. Tuttle. Fingindo uma insônia inexistente, ela vai mergulhando em drogas cada vez mais pesadas, até chegar no infermiterol, que a permite dormir por quase três dias.

Em dado momento, a personagem começa também a agir dormindo, em uma “rebelião subliminar”. “Parecia uma fraude ética ao meu projeto de hibernação”, relata. Em outro momento, avalia: “Eu não conversava mentalmente comigo mesma. Não tinha muito o que dizer. Foi assim que soube que o sono estava fazendo efeito: estava ficando cada vez menos apegada à vida. Se continuasse, pensei, desapareceria por completo, depois reapareceria sob alguma outra forma”.

Meu Ano de Descanso e Relaxamento é um livro entre o humor, o absurdo e o questionamento do próprio sentido da vida. Ainda assim, mesmo quando parece que vai se descolar do tecido da vida real, das dores íntimas e do sofrido processo de lidar com o passado (e até esquecê-lo), Ottessa continua com uma prosa densa, que nos faz perceber que continuar sonâmbulo, passeando pela vida com os sentidos embaçados e enevoados, também é uma forma de hibernar.

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