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Livro de Ailton Krenak defende que é preciso adiar o fim do mundo

Na obra, o líder indígena aponta a necessidade de entender que homem e natureza são um só e também propõe a reinvenção do mundo e da vida

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 20/08/2019 às 9:11
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Foto: Adriana Moura/Divulgação
Na obra, o líder indígena aponta a necessidade de entender que homem e natureza são um só e também propõe a reinvenção do mundo e da vida - FOTO: Foto: Adriana Moura/Divulgação
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O último mês de julho foi o mais quente da história no mundo. Sem indícios de uma mudança brusca, a tendência é que novos recordes sejam batidos, e que as mudanças climáticas se agravem até o ponto do catastrófico. Esse cenário – provável, salvo um maior cuidado com a emissão de CO2 em escala global – deve levar a uma espécie de fim de mundo ou, ao menos, do mundo como o conhecemos. E é sobre adiar o término que o líder indígena Ailton Krenak fala no breve livro que lançou neste ano.

Ideias para Adiar o Fim do Mundo (Companhia das Letras, 88 páginas, R$ 24,90) não é um repositório de diretrizes simples, de metas desejadas para os humanos salvarem a sua pele. A obra, fruto de três conferências do autor, é um chamado para se repensar as premissas das nossas sociedades, em que a humanidade se confunde com o tecnicismo e a busca exponencial pelo progresso.

Em vários momentos do livro, citando o xamã yanomami Davi Kopenawa ou o antropólogo Eduardo Viveros de Castro, Ailton lembra de um dado: se o assunto é o fim do mundo, os povos marginalizados, invadidos e atacados há séculos são, de certa forma, os grandes especialistas. A Terra como os povos indígenas a conheciam no século 16 acabou com a chegada de colonizadores europeus – quando não foram dizimados pelo mero contato ou por guerras, eles foram relegados a territórios limitados e estrangeiros a suas tradições. “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa”, diz.

Um dos pontos reiterados por Ailton é o conceito limitador de humanidade para as civilizações de hoje – em que homens se veem como algo separado da natureza. “Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza”, explica o líder do povo Krenak.

REINVENTAR O MUNDO

Ideias para Adiar o Fim do Mundo ainda fala do fetiche por manter apenas “amostras grátis da Terra”, do falso desenvolvimento sustentável e de um mundo centrado mais em consumidores do que pessoas. “Nosso tempo é especialista em criar ausência: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar”, diz.

Se o mundo está em queda, em um abismo, para ele é preciso voltar a reconhecer a vida como um campo do gozo, e não da busca por riqueza e acumulação. É necessário inventar os próprios paraquedas. Para adiar o fim do mundo, parece concluir, é obrigatório começar com a urgente (e libertadora) tarefa de tentar reinventá-lo.

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