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Poeta Lubi Prates é um dos destaques de sexta (11) da Bienal

A autora do livro 'Um Corpo Negro' promove um minicurso na feira de livros

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 11/10/2019 às 11:33
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Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
A autora do livro 'Um Corpo Negro' promove um minicurso na feira de livros - FOTO: Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
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“Tudo aqui é/ um exílio”, escreve a poeta paulista Lubi Prates no livro Um Corpo Negro (Nosotros). A impressão de ser estrangeira no país em que nasceu acompanhava a autora desde a sua infância. Era mais do que um não pertencimento a uma pátria (ou mesmo “mátria”, como ela diz em um dos versos): tratava-se dos efeitos do racismo, histórico e ainda presente, no cotidiano brasileiro. O exílio, como o título da obra sugere, é sentido no próprio corpo.

Lubi é uma das convidadas desta sexta (11) da Bienal do Livro de Pernambuco, que entra na reta final da sua programação, que se estende até o domingo. Ela participa com um minicurso intitulado A Poesia Contemporânea de Autoria Negra, às 13h, na Sala de Oficinas. O evento acontece das 10h às 22h, no Centro de Convenções, com entradas que custam R$ 10, R$7 (com 1kg de alimento ou um livro não didático usado) e R$ 5 (meia) – crianças até 12 anos, estudantes da rede pública fardados, policiais e bombeiros tem acesso gratuito.

Um Corpo Negro, publicado no ano passado, é finalista de dois prêmios literários: o Jabuti e o Rio de Literatura. A trajetória pessoal e coletiva parecem se misturar no volume: mesmo que o sentimento de Lubi seja particular, íntimo, o racismo de que ela fala atinge os muitos (e singulares) corpos negros que habitam esse país que “rosna”.

De certa forma, o livro surgiu dessa vivência particular de Lubi. “Para escrever este livro, eu parti da minha experiência com o nosso país. Por mais que eu tenha nascido aqui, sempre me senti estrangeira. Só quando adentrei a vida adulta, percebi que esse sentimento tinha raiz no racismo e o racismo eu sinto no corpo: onde experimento quem sou. A experiência com o mundo exterior que fez com que eu me identificasse como negra, explicando esse processo através da poesia, possibilitou me transformar em sujeita: que fala por si”, aponta.

Ao mesmo tempo, ela explica que não quis falar por todos. “Infelizmente, a identificação coletiva de negros com o ‘um corpo negro’ acontece porque vivemos situação semelhantes de desterro, racismo, etc, e estamos constantemente buscando transmutar essas experiências. Eu não posso ver essa identificação como positiva, ela não me deslumbra, embora veja como necessária – já que a representatividade é uma questão importante e nos mostra espaços onde podemos estar: a literatura é um destes”, continua. Pensar em como a escravidão que funda o Brasil o continua com marcas no presente só aumenta a importância de se falar no assunto. “Quando você fala sobre uma escrita do passado e do presente, fica nítido como avançamos pouquíssimo na igualdade racial. Como as experiências de negros no século XXI pode se assemelhar com as experiências de negros durante a escravização e o pós-abolição?”, questiona a poeta.

Ao pensar a poesia de autores negros hoje, tema do encontro na Bienal, Lubi vê alguns avanços, mas não uma consolidação. “Não posso afirmar que estamos nos consolidando. Pode, realmente, ser o começo de uma mudança, mas precisamos de mais tempo para avaliar isso, avaliar como essa ‘consolidação’ está acontecendo – se para o coletivo ou para alguns escritores. Sendo a maioria da população brasileira, considero inaceitável sempre ter duas/dois ou três escritoras/escritores negras/negros em eventos literários ou em publicações”, comenta.

Perguntada sobre os campos que ainda precisam ser conquistados na literatura, Lubi aponta a questão para a dignidade mais geral. “Peço licença para citar o rapper mineiro Djonga para responder essa pergunta: ‘E esse trono de rei do rap não vale nada enquanto morrer o menor pra ser rei na quebrada. Tipo, enquanto alguém for escravo, nenhum de nós é livre’”, explica. “Não separo a minha produção poética da minha militância, o que me faz acreditar que, primeiro, precisamos viver com dignidade (não sobreviver), o que é negado a muitas/muitos de nós. Ter uma casa onde morar, ter comida no prato 3x por dia, acesso à saúde e educação, um emprego do qual se gosta... Essas são as nossas preocupações primárias. Depois disso, podemos pensar no que falta dentro do meio literário”.

PROGRAMAÇÃO

A Bienal ainda conta com outras atividades hoje no auditório principal. Entre os destaques, estão a mesa, às 13h, sobre as memórias da ditadura com o escritor Urariano Mota, e uma boa conversa, às 14, sobre a literatura fantástica, com Roberto Beltrão, André de Sena, Frederico Toscano e João Paulo Parísio.

No fim da tarde, às 17h, o jornalista Artur Xexéo fala sobre a cobertura de cultura e celebridades. No mesmo horário, na plataforma de lançamentos, Clarice Freire fala sobre o livro Pó de Lua. Na sequência, na homenagem a Sidney Rocha, o crítico literário João Cezar de Castro Rocha aborda os contos do livro Guerra de Ninguém.

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