TRILOGIA

Em 'Pontos de Fuga', Milton Hatoum retrata dilemas universais no Brasil dos anos 70

Livro "Pontos de Fuga" é o segundo volume da trilogia intitulada "O Lugar Mais Sombrio"

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 02/02/2020 às 8:00
Foto: Renato Parada/ Divulgação
Livro "Pontos de Fuga" é o segundo volume da trilogia intitulada "O Lugar Mais Sombrio" - FOTO: Foto: Renato Parada/ Divulgação
Leitura:

Existem livros que revelam muito de seus autores antes mesmo do primeiro capítulo. A capa e o título, claro, são importantes, mas em alguns casos é a partir das epígrafes que um leitor atento consegue captar um pouco do enredo que está prestes a começar. É o caso de Pontos de Fuga (Companhia das Letras, 312 pgs., R$ 49,90), novo livro de Milton Hatoum, que faz parte do romance de formação divido em três partes O Lugar Mais Sombrio e sucede o excelente primeiro volume A Noite da Espera, lançado em 2017.

"A arquitetura como construir portas,/ de abrir; ou como construir o aberto;/ construir, não como ilhar e prender,/ nem construir como fechar secretos" são versos do pernambucano João Cabral de Melo Neto escolhidos por Milton, arquiteto de profissão, para abrir o livro. Ao substituir "arquitetura" por "escrita" ou "leitura" é possível compartilhar um pouco da visão de mundo do escritor e a experiência de acompanhar o protagonista Martim em uma nova fase de sua vida, que ganha novos sentidos.

Se no primeiro livro da trilogia a história estava sendo contada apenas em primeira pessoa pelo jovem estudante de arquitetura - esta semelhança não é a única com a vida do próprio Milton Hatoum -, uma das melhores surpresas de Pontos de Fuga são os deslocamentos da narrativa. Além da mudança geográfica de Brasília para São Paulo, a história é contada de maneira plural pela vivência de outros personagens. Através de trechos de cartas e diários roubados, é possível acompanhar a rotina dos moradores da república Casa da Fidalga e dos amigos que ousaram desafiar os anos mais duros da Ditadura Militar.

Entre as idas à universidade, as participações em protestos e as conversas no tatame da sala de casa, Sérgio San, Ox, Mariela, Laísa, Marcela, Anita e Julião partilham da dor do amigo em sua incessante busca por Lina e procuram também afastar os fantasmas familiares que os assombram.

O livro começa em 1972, com a chegada de Martim em São Paulo após ter fugido do pai e, assim como em A Noite da Espera, acontece em dois tempos: no Brasil e em Paris, durante o ano de 1979, onde o protagonista e outras figuras do seu entorno estão exilados. Na França, sua rotina é dividida entre a atividade de professor de português, as reuniões do Círculo Latino-Americano da Resistência e encontros amorosos. A angústia por ainda não ter descoberto o que aconteceu com sua mãe o confronta com o pior de si. O refúgio na bebida e a raiva contida parecem ser a única solução para o rapaz que não quer enxergar a possibilidade da perda de sentido de todos esses anos vividos para o tão sonhado reencontro materno. “A memória só faz sentido depois do esquecimento?”, questiona.

Neste vai e vem de capítulos alternados, o leitor vai também reencontrar antigos personagens, que voltam a fazer parte da vida de Martim, e se despedir definitivamente de outros, que representam o passado vivido em Brasília. Ao fixar o cenário socio-político dos anos 70 como pano de fundo do livro, focando nos enredos individuais de cada personagem sem perder de vista o aspecto coletivo, Milton Hatoum tece uma obra de importância local como registro histórico mas de caráter universal em seus conflitos demasiadamente humanos.

Leia um trecho do livro "Pontos de Fuga":

"Um barulho lá embaixo interrompeu a projeção: os policiais tentavam arrombar a porta do térreo. Os dois frangotes trotskistas se prepararam para a batalha, mas não havia armas na sala do palácio, só papel, canetas, livros e baratas. Fabius queria pular da marquise da Super Comfort. Desistiu. (...)

É justo fugir? Por que não fiquei na saleta? Fui corajoso ou egoísta? Fui covarde? Se Fabius tivesse escapado, teria feito essas perguntas? Cego pelo aguaceiro, recordei as brincadeiras na chuva com amigos de infância no Igarapé de Manais e na praça São Sebastião, o bate-bola nos balneários, os bailes carnavalescos no Rio Negro Clube e no Fast, os desenhos coloridos - caveiras, espinhos, formas geométricas - dos papagaios que meu pai fazia (...) Por que eu não tinha ido com os outros? A coragem pode nos livrar de um impasse, mas também pode ser fatal.

A caminhonete correu por uns dez ou quinze minutos, e quando entrei numa cela, tiraram do meu rosto a faixa de pano preto. Não sei onde fiquei preso; fui proibido de telefonar, escutava barulho de motor de avião, e com o zíper da calça marcava a parede cada dia que passava, até desistir. Não quero falar dos interrogatórios. Melhor calar sobre o que se quer esquecer? Mas é impossível esquecer."

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