CENA

Clássico sobre a música pernambucana reeditado

Do frevo ao manguebeat, história da música pernambuca cunhada por José Teles, ganha tiragem como novo capítulo

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 04/10/2012 às 7:04
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A música de Pernambuco é frevo e manguebeat, mas é também mais do que isso. A afirmação parece óbvia hoje, mas, no final dos anos 1990, não era. Haviam poucos trabalhos sobre os ritmos do Estado, e eles costumavam a se restringir a fazer uma historiografia do frevo. Ao mesmo tempo, Recife e Olinda viviam o auge do reconhecimento da cena mangue no cenário nacional, que continuou forte mesmo depois do baque da morte de Chico Science.

Foi preciso que alguém olhasse com cuidado não só para esses dois momentos, mas também para os artistas (e períodos) da produção pernambucana que escapavam a esses dois momentos. Em 2000, o repórter e crítico musical deste JC José Teles decidiu aceitar a difícil tarefa de sintetizar em um livro a história musical recente do Estado. O resultado foi Do frevo ao manguebeat (Editora 34, 360 páginas, R$ 54), já um clássico da nossa história cultural, que virou sucesso editorial e raridade mesmo em sebos. Agora, a obra ganha finalmente uma nova tiragem, atualizada com um capítulo sobre os anos recentes.

O volume é parte da indispensável Coleção Todos os Cantos, com títulos sobre as diversas bandas e movimentos musicais nacionais – do punk a Dorival Caymmi e Jackson do Pandeiro, com autores ilustres como Tárik de Souza (que assina a orelha do livro de Teles). O autor escreveu a obra em seis meses, a partir de pesquisas documentais e entrevistas.

Na obra, o autor começa com um panorama do frevo, com destaque para três nomes fundamentais do ritmo: Capiba, Nelson Ferreira e Claudionor Germano. Mas Do frevo ao manguebeat tornou-se uma obra fundamental justamente por seus capítulos seguintes, que serviram para Teles apresentar para o Brasil (e para os próprios pernambucanos, em alguns casos) a relação pioneira do Recife com o tropicalismo e o cenário local udigrúi dos anos 1970 e 1980. “É daqui o primeiro manifesto do tropicalismo, assinado inclusive por Caetano e Gil”, explica o crítico.

Para ele, o rock pernambucano da Ave Sangria, de Lula Côrtes e da Tamarineira Village, entre outros, enfrentou durante esse período a desconfiança de imprensa do Sudeste, que se voltava para a produção do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Tivemos aqui a produção mais forte de rock dos anos 1970”, define Teles. Tanto que, após a publicação de Do frevo ao manguebeat, os grupos desse período voltaram a influenciar uma nova geração de ouvintes e mesmo artistas (é só ver bandas como Dunas do Barato, Semente de Vulcão ou Tagore).

O manguebeat ganha destaque na parte final da obra, desde os seus antecedentes até o auge do movimento, com a turnê internacional de Chico Science e a Nação Zumbi. Se na primeira edição de 2000 Teles já mostrava a diversidade do cenário pós-mangue, no novo capítulo, que contempla a primeira década deste século, mostra a consolidação de artistas como Otto, Siba, Lirinha e Mombojó e também aborda a cena do metal e do indie. “Foi muito difícil reunir tudo isso em um capítulo curto, de poucas páginas”, lamenta o repórter.

O próximo projeto de Teles também trata da música pernambucana. Ele quer agora ampliar a pesquisa sobre a Tropicália e o udigrúdi recifense. A obra ainda está em fase de pesquisa, mas já ganhou até título: Debaixo das bananeiras, longe dos laranjais.

Leia mais no Jornal do Commercio desta quinta (4/10).

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