Homenageado

Naná Vasconcelos, o rei do Carnaval do Recife

Aos 68 anos, percussionista pernambucano se diz tão pouco conhecido pelos brasileiros

Mateus Araújo
Mateus Araújo
Publicado em 03/02/2013 às 6:10
Michele Souza/JC Imagem
FOTO: Michele Souza/JC Imagem
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Brasil, este é Naná Vasconcelos. Um Naná que, aos 68 anos, se diz tão pouco conhecido pelos brasileiros. Um homem que tem pele negra, voz calma e uma energia contagiante, daquelas que prendem o interlocutor a cada frase de efeito e onomatopeias compassadamente faladas, cantadas ou tocadas. Que fique claro: o Naná que o Brasil ainda teima em desconhecer não é só aquele maestro dos tambores vibrantes da abertura do Carnaval do Recife. É o Naná homenageado da folia deste ano e que um dia Maria Bethânia, em entrevista, usou como exemplo do mais completo significado de cultura popular brasileira: aquele que não é estático, que renova a tradição. “Eu amo o Recife”, diz o músico que tem uma África dentro de si. 

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"Hoje, os instrumentos que sei tocar aprendi graças ao berimbau", Naná Vasconcelos. - Michele Souza/JC Imagem
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Naná Vasconcelos é o homenageado do Carnaval do Recife em 2013 - Michele Souza/JC Imagem
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Naná é sincrético, como o Brasil, que tem, em maioria, o sangue e a fé negra. - Michele Souza/JC Imagem
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"A minha África é muito África" - Michele Souza/JC Imagem

 

O seu pedaço do Recife, sua casa, é um refúgio para quem pouco sai de lá, salvo para alguns passeios, a ida ao cinema, ao teatro, aos shows e workshops que dá, mas muito pouco. Naná é tímido, introspectivo. O verbo gostar ele conjuga facilmente e repetidamente como complemento da palavra Recife. Nascido aqui, mas criado no mundo (morou 27 anos nos Estados Unidos e outros cinco em Paris, onde trabalhou e gravou discos), Juvenal de Holanda Vasconcelos – cujo apelido dissílabo é um referência constante quando o assunto é percussão pernambucana – ao mesmo tempo em que divide palcos mundo afora com grandes nomes da música ainda é um artista pouco desbravado no seu próprio País. “Minha música não toca nas rádios. E por isso, cada apresentação minha é uma descoberta para os brasileiros”.

Ele começou a carreira cedo. Aos 12 anos, Naná já tocava bongô e maracás nos bailes de Carnaval. Nos anos 1960, enquanto muitos bateristas brasileiros estavam imersos no contexto bossa nova, o pernambucano descobriu no berimbau os ritmos da sua música. Em 1967, no Teatro Popular do Nordeste, Naná Vasconcelos, Geraldo Azevedo, Teca Calazans e Edivaldo Souza enveredavam pelo teatro musicado, febre lançada por Augusto Boal e seu grupo Opinião, no Rio de Janeiro. 

“Minha relação com a música é espiritual. Foi uma missão. Eu peguei esse instrumento numa peça de teatro,Memória de dois cantadores, que falava da história cultural de cada Estado do Nordeste. Quando chegava na Bahia, tinha que mostrar a capoeira, e eu aprendi a tocar berimbau para isso. Terminou a peça e eu fiquei com esse instrumento em casa. E sabia que tinha uma coisa ali. Como eu morava numa quitinete, não podia tocar bateria, então aprendi berimbau”, recorda Naná. “Aprendi sozinho, nunca fui a uma escola de música. Hoje, os instrumentos que sei tocar aprendi graças ao berimbau.”

MAESTRO

Há em Naná Vasconcelos uma força de expressão grande, uma transparência nas falas e ações. “Choro com facilidade. Como também sorrio com facilidade”, diz. A relação que ele tem com a cultura afro-brasileira vai além da musicalidade e mergulha no espiritual. Ele já foi de candomblé, hoje é espírita kardecista, ascende velas para Santa Edwiges e São Miguel Arcanjo, e não larga as leituras dos ensinamentos do mestre hindu Paramahansa Yogananda. “Eu sei o livro (Autobiografia de um iogue) dele de cor e salteado. Mas cada vez que eu abro, me concentro e leio a primeira coisa que vejo, tenho uma interpretação diferente. Às vezes eu faço uma pergunta e tenho uma resposta”, afirma. Naná é sincrético, como o Brasil, que tem, em maioria, o sangue e a fé negra. “A minha África é muito África”.

A sensibilidade do percussionista faz com que ele crie uma cenografia mental para cada música e apresentação. Mestre em unir o popular ao erudito, durante toda a sua carreira, Naná Vasconcelos sempre transitou e transita com facilidade entre as companhias e nomes como o argentino Gato Barbieri, o francês Jean-Luc Ponty, o norte-americano Paul Simon, os brasileiros Marisa Monte e Milton Nascimento, como também divide o palco com mais de 500 batuqueiros de maracatu. 

“Quando estou no palco da abertura do Carnaval, por exemplo, não me sinto superior a ninguém. Sou um canalizador de energias. E naquele momento, lido com energias dos outros, positivas e negativas, que misturam alegria, competição e até insegurança. Consigo unir ali nações que muitas vezes são adversárias, que competem no Carnaval.”

Preservar a cultura negra para ele não basta. É preciso ter a consciência de ser negro, e essa consciência depende da educação. “É preciso se educar, ler, se intelectualizar. Na Bahia, os negros, de certa forma, leem mais os dialetos africanos, sabem o iorubá. Virgínia Rodrigues, por exemplo, canta em iorubá e jeje e traduz. Os negros da Bahia, os jovens que fazem música, são assim. Aqui eu não vejo muito essa preocupação, essa autoestima de ser negro. Na Bahia, negro não nasce, estreia. O mesmo acontece na história dos EUA, que os negros buscaram se intelectualizar.”

 

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