Chico Science

Acervo precioso sobre a memória mangue tem sido compilado há 20 anos

DJ Elcy Oliveira coleciona material sobre o mangue e Chico Science. A sua pequena casa em Jardim Atlântico é praticamente um memorial

GGabriel Albuquerque
GGabriel Albuquerque
Publicado em 30/01/2016 às 10:59
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"Eu sou uma antena e posso sentir todas as vibrações que vêm de vocês, mangueboys e manguegirls. Mesmo se não conseguirmos gravar um disco, mesmo se não conseguirmos fazer nada, vamos estar nos divertindo. Isso é o que interessa”, dizia Chico Science, num show da Loustal. E convocava: “Divirtam-se!”. Em 2016, ano do seu cinquentenário, as boas vibrações de Chico continuam no ar. Fãs de diferentes gerações, lugares e motivações mantêm acesa a chama do eterno mangueboy.



O show mencionado da Loustal, banda pré-Nação Zumbi de Chico e Lúcio Maia, aconteceu na TV Jornal em 1992. A gravação é mais um dos arquivos raríssimos do acervo de Elcy Oliveira, 56 anos. Desde 1996, o DJ coleciona material sobre o mangue e Chico Science. A sua pequena casa em Jardim Atlântico é praticamente um memorial – inclusive com mais conteúdo do que o memorial oficial, no Pátio de São Pedro.

Além de incontáveis discos em CDs e cassetes, o acervo possui cerca de 10 a 15 mil matérias de jornais e revistas do mundo inteiro (até do Japão), 25 fitas VHS com shows e entrevistas, 15 fotografias originais, 30 flyers e cartazes de shows e de 100 a 150 músicas do período pré-Nação (todas já digitalizadas em MP3) e mais algumas grafitagens.

Um dos arquivos mais curiosos é uma vinheta gravada por Chico, em 1988, anunciando uma festa de sua banda Orla Orbe com o DJ Spider na boate Misty – uma boate GLS onde hoje é o Clube Metrópole. “Atenção, galera! Vem aí a primeira festa hip hop do Recife!”, anuncia com uma voz de menino de 22 anos. A áudio foi veiculado na rádio Transamérica.



“Comecei a colecionar em 1996. Eu sabia que estava vivendo um momento especial”, comenta Elcy. “Eu gostaria de catalogar, organizar e expor tudo. Não quero morrer com todo esse acervo. Mas como vou fazer isso quando o próprio governo não valoriza o maior momento da música do estado? O Landau – carro modelo 1979, primeiro comprado por Chico Science, que no dia do acidente, dirigia um Fiat Uno da irmã – está ali no Memorial Arcoverde debaixo de chuva e sol”, critica ele, que deseja concorrer a um edital de incentivo à cultura e montar um espaço próprio.

Por enquanto, ele segue disponibilizando o seu acervo gratuitamente na internet. No Facebook, colabora com o grupo Acervo Chico Science & Nação Zumbi, criado por Everton Melo, e a página Raízes do Mangue, administrada por Almir Cunha e Marcus Vinícius. Em seu perfil do soundcloud tem uma longa entrevista com Chico, concedida à jornalista e musicista Stella Campos (das bandas Lara Hanouska e Funziona Senza Vapore, de quem Chico regravou a música Criança de Domingo). A conversa é de 1994 e o cantor fala sobre a sua história, com depoimentos de amigos.

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Dengue, Lúcio Maia e Chico com a Orla Orbe, banda embrionária da Nação Zumbi - Reprodução
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Chico dançando brake numa festa de hip hop na década de 1980 - Reprodução
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Nação chega para gravar Da Lama ao Caos no Rio de Janeiro - Reprodução
Pácua (da Via Sat, Lamento Negro), Elcy e Gilmar Bola 8 na loja CD Rock nos anos 1990 -
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Gilmar Bola 8, Chico e Jorge Du Peixe numa rádio francesa em turnê de 1994 - Reprodução
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Foto original de Chico Science com a Nação Zumbi no palco do festival Rec-Beat - Reprodução
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Acervo também inclui matérias de jornal. Esta, do JC, é sobre a influência do mangue na gringa - Reprodução
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Cartaz do primeiro evento Viagem ao Centro do Mangue, com shows de CSNZ e Loustal - Reprodução
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Matéria de revista japonesa sobre bandas do manguebeat, entre elas, Chico e Nação - Reprodução

 

Elcy, no entanto, nunca chegou a conhecer Chico pessoalmente. "Todos frequentavam minha loja: Dengue, Pupilo, Lúcio e Bola 8, que era meu amigo de infância. Menos Chico. Eu liguei pra ele uma vez e ele me disse: ô, rapaz! Tô sabendo da tua loja, do teu selo. Vamos marcar de fazer alguma coisa. Deixa só passar o Carnaval. Na época ele ia fazer um show com Antônio Nóbrega no Clube Português. Uma semana depois ele sofreu o acidente. É engraçado porque tenho tudo isso, mas nunca o conheci pessoalmente".

Em 1997, Elcy fundou o selo Caranguejo Records, com o qual lançou três coletâneas com artistas do mangue beat. No ano anterior, criou a loja CD Rock, na Boa Vista. O local se tornou um ponto de encontro entre músicos da cena. “Comecei a escrever um livro chamado Utopia Mangue – Visões Por Trás do Balcão, em que eu conto as histórias desses dez anos, de 1996 a 2006, como dono da loja. Presenciei muita coisa, muitos causos, muita polêmica. Só uma microparte, a ponta do iceberg, aconteceu de fato. Ninguém mais ganhou dinheiro. Todo dia eu recebia pelo menos duas fitas demo de bandas novas. Era um momento muito rico”, relembra.

Para ele, no entanto, Chico foi icônico. “Ele foi o carro-chefe. Acredito que sem Chico Science e Nação Zumbi nada disso teria acontecido. É até redundante dizer. É o cara que soube fazer a alquimia. Em Papagaio do Futuro, dá pra ver que Alceu Valença já tinha essa vontade de fazer algo com maracatu e rock & roll. Só que Alceu não conseguiu essa alquimia perfeita, e Chico conseguiu”, opina.

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