MÚSICA

Ed Motta atinge seu apogeu com o disco Perpetual Gateways

Gravado nos Estados Unidos e todo em inglês, novo álbum é o melhor da carreira do cantor carioca

José Teles
José Teles
Publicado em 23/02/2016 às 9:35
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Gravado nos Estados Unidos e todo em inglês, novo álbum é o melhor da carreira do cantor carioca - FOTO: Foto: Divulgação
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A insistência do carioca Ed Motta em jazz, ou pop com orientação ao jazz, cantando em inglês, ou apenas bebopeando frases, lembra o célebre pedantismo do Conselheiro Ruy Barbosa, que foi para a Inglaterra e colocou uma placa na porta da frente de casa: “Ensina-se inglês” (naturalmente, no idioma local). 

Ed Motta não chega a tanto, mas se aproximou do conselheiro: “Não gaste seu dinheiro, e nem a paciência alheia, atrapalhando um trabalho que é realizado com seriedade cirúrgica, esse não é um show para matar a saudade do Brasil, esse é um show internacional”, acrescentando que não falava em português nos shows que então fazia pela Europa.

O foi trecho pinçado de um comentário de Ed Motta, numa longa e polêmica postagem feita em abril do ano passado, em sua página oficial no Facebook, e que provocou indignações dos compatriotas. Motta poderia usar parte do mesmo texto para divulgação do seu novo álbum, Perpetual Gateways, lançado semana passada na Europa e Japão (provavelmente no Brasil em março).

O disco é cantado inteiramente em inglês, com uma banda de gringos, por um selo estrangeiro (MustHaveJaz/Membran). Não tem bossa-jazz, ou de qualquer outro estilo ou gênero musical brasileiro (na faixa Heritage Déjà Vu, pende um pouco para a bossa, mais pelos músicos que o acompanham). 

São dez faixas, metade soul, metade jazz. Ele continua com sua obsessão pelo grupo Steely Dan, mais outras influências: Donny Hathaway, Ed Harris, Stevie Wonder, entre outros. No supracitado texto, ele avisava que não queria brasileiros em seus shows, para gringo ver, cantando Manuel em corinho.

Está certíssimo. Manuel é uma de suas canções mais frágeis e merece um desconto por ela. Ed Motta era o adolescente, (16 anos), do vozeirão, que levou um monte de gente ao Clube Internacional (local de sua estreia no Recife, em 1988, acho), porque ele era sobrinho de Tim Maia, com suingue e timbre parecidos. Manuel, decididamente, não cabe nem no “encore” (para usar um termo do gosto dele, em lugar do tão manjado “bis”) do repertório de Perpetual Gateways, o melhor disco que Motta já fez. E quem está afirmando isso são os críticos americanos que resenharam o álbum.

Produzido por Kemau Kenyatta (que assina o premiado Liquid Spirits, de Gregory Porter), com alguns dos mais requisitados músicos de estúdio da Costa Oeste dos Estados Unidos, Ed Motta, aos 45 anos, 13 álbuns, finalmente escapou do beco sem saída, ou cul-de-sac, como ele certamente escreveria, em que se meteu tentando fazer um disco que se aproximasse do que fizeram seus ídolos. Desta vez conseguiu. As influências estão espargidas e assumidas ao longo dos temas – Art Blakey, Dave Brubeck, Coltrane. 

Finalmente

Até AOR, seu disco anterior, Ed Motta lembrava o Steely Dan pela forma, mas não pelo conteúdo, sem uma canção à altura das que compunham Donald Fagen e Walter Becker (a dupla sobre a qual foi montado o citado Steely Dan). Ele agora chegou lá com Captain’s Refusal, que abre o álbum, na qual concilia forma e conteúdo com uma melodia e letra à altura, e que poderia estar num dos bons disco da SD.

Os arranjos do disco inteiro são primorosos e cirurgicamente elaborados. Hyphocondriac’s Fun é meio Stevie Wonder, com uma letra bem humorada, enquanto Good Intentions tem um leve sotaque latino.

A insistência no scat singing também não está neste disco. Aqui ele canta, com ótima dicção, e a voz é um instrumento que complementa o apuro técnico do azeitado grupo: Patrice Rushen (teclados), Curtis Taylor (trompete), Rockey Woodward (sax), Hubert Laws (flauta) Em The Owner, seu canto é de frases isoladas, em contraponto com o acompanhamento. Uma canção do tipo que Ed Motta aprovaria. Como aprovou Perpetual Gateways. 

Ele confessou ao site Propermusi que é o melhor disco que já gravou: “Sinto que este é o meu melhor trabalho até agora e um sonho que se tornou realidade. Nunca acreditaria que faria um disco assim, com um time de músicos desta qualidade, com o prazer que tive durante todo o processo”. Realmente, finalmente.

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