ENERGIA

O punk expandido e a catarse do Rakta no álbum 'III'

Depois de turnê pela América do Norte e Japão, trio paulistano faz show no Recife dentro do festival Coquetel Molotov

GGabriel Albuquerque
GGabriel Albuquerque
Publicado em 17/10/2016 às 7:10
Foto: Divulgação
Depois de turnê pela América do Norte e Japão, trio paulistano faz show no Recife dentro do festival Coquetel Molotov - FOTO: Foto: Divulgação
Leitura:

“Palavra é uma coisa simples e complicada ao mesmo tempo”, diz Paula Rebellato ,uma divagação durante entrevista por telefone. A frase é dita sem pretensões, mas evidencia algumas questões que permeiam o Rakta, banda com a qual se apresenta em Recife dentro do festival Coquetel Molotov, dia 22 de outubro, na Coudelaria Souza Leão.

As palavras não conseguem dar conta da música do Rakta. Está além das fronteiras do verbo. A música do trio – formado por Paula (teclado e vocal), Carla Boregas (baixo e vocal) e Nathalia Viccari (bateria) – surge como uma pulsão intuitiva, captando forças impalpáveis e misteriosas. O nome da banda sintetiza tudo isso: Rakta, uma derivação da palavra “rajas” (em sânscrito), que é “o componente energia, que produz movimento, força e expansão”. 

Depois de uma turnê pelos Estados Unidos, Canadá e Japão, o Rakta vem ao Nordeste divulgando III, seu segundo álbum, lançado em julho pelo selo norte-americano Iron Lung Records. A partir de arquétipos do post punk a banda cria uma som atmosférico, escuro, imersivo, e por vezes até ritualístico, como em Raiz Forte, Violência do Silêncio e a instrumental e percussiva Conjuração do Espelho

De modo muito particular, o Rakta parece englobar uma micropolítica do corpo e, mais enfaticamente, as questões políticas ligadas ao feminismo. Em junho, no lançamento do compacto Intenção (primeiro single de III) no Sesc Pompeia, elas abriram o show com Violência do Silêncio fazendo referência ao caso de estupro feminino no Rio de Janeiro: “As mãos que forçam/ A violência do silêncio/ Somos muitas/ Nada, nada justifica uma menina ser estuprada por 30 homens”.

Paula diz que essa auto-percepção enquanto banda política gera “dissonâncias” no próprio grupo. “A laura [Del Vecchio, guitarrista da primeira formação do Rakta, em seu álbum anterior] tinha uma outra visão, por exemplo. Ela queria abordar isso de outra forma. Tanto que na época, quando perguntavam se a gente era uma banda política, ela dizia que não.

Mas Paula, em particular, diz encontrar “uma micropolítica no que a gente faz, mas não essa política que a gente conhece”. “Quando a gente fala de política em som, e vindo do punk, existe uma coisa fixa que a gente já pensa. Uma cartilha, vamos dizer assim. Um formato de letra, um formato de posicionamento, de como você quer atingir as pessoas. Tem muito uma força de combate. Mas essa força de combate eu consigo enxergar ela acontecendo de várias formas, não só dentro de um formato. A minha forma de trazer pra fora não é assim”, defende.

Filhas do Fogo, por exemplo, surge de uma situação concreta e se desdobra numa poética que é igualmente abstrata e explicita. 

“A Carla veio com essa ideia [da música]. Uma amiga dela passou por uma situação pesada de aborto e foi uma coisa que afetou muito. A amiga dela buscou ela pra ajuda e depois ela veio aqui em casa e conversamos. Isso foi um grande peso na música, foi muito forte. Fora os processos individuais que cada uma estava passando e sempre está. E ainda todo o contexto de fora, que eu não vejo muito diferente, vejo tudo interligado. Está aí todo o dia, em cada pessoa que você olha, especialmente em cada mulher que você olha. Eu consigo identificar essa ‘dor’ que a gente fala em muitos lugares”, conta.

A música dialoga com faixa de abertura do primeiro álbum do Rakta: Run To The Forest, escrita por Paula. Numa entrevista de 2014, Carla Boregas citava a canção como “um hino de sororidade”. 

Paula acrescenta: “Na época eu trabalhava e frequentava um círculo de mulheres, essa coisa do ‘sagrado feminino’ que hoje em dia tá meio explodindo. Mas foi um feminismo que funcionou pra mim. Isso super influenciou a banda quando a gente começou. Essa coisa da floresta eu peguei muito daquele livro que hoje as pessoas estão procurando muito, Mulheres que Correm Com Lobos. A Carla leu essa música dessa forma, que eu concordo e também vejo outras coisas. Eu enxergo como um autoconhecimento mesmo, vamos entrar nas sombras e ver o que tem ali. Basicamente é isso que representa a floresta. Tem a ver com coisas do inconsciente, é bastante simbólico”.

Todas essas forças, pulsões e enfrentamentos estão presentes no Rakta. Sua música tanscende com a catarse, o transe e o êxtase.

Projetos Paralelos

Além da própria banda, as integrandes do Rakta desenvolvem vários projetos paralelao, tanto em selos (o Dama da Noite, de Carla, e o recém-nasicdo Sorriso Selvagem, de Paula) quanto em outros trabalhos musicais. 

No Recife, Paula Rebellato e Carla Boregas também vão mostrar essa faceta na Jam das Minas, dia 25, no Edfício Texas. O evento, organizado pela produtora independente Trama e o selo PWR, também terá exposição visual e participações de Larissa Conforto (Ventre) e Gabriela Deptulski (My Magic Glowing Lens).

Paula apresenta-se com o Acavernus, descrito como um “projeto intuitivo de música experimental”. E Carla, que também toca no Fronte Violeta, irá mostrar o seu trabalho solo, também ligado à música eletrônica.

 

Últimas notícias