Exposição

Arquivo Público abre hoje exposição sobre antigos carnavais

Arquivo lembra 60 anos da marcha Evocação de Nelson Ferreira

José Teles
José Teles
Publicado em 21/02/2017 às 11:19
foto: Ricardo Labastier/reprodução acerco Apeje
Arquivo lembra 60 anos da marcha Evocação de Nelson Ferreira - FOTO: foto: Ricardo Labastier/reprodução acerco Apeje
Leitura:

Os maestros Lessa e Nelson Ferreira (pelos 60 anos do frevo de bloco Evocação, o Caboclinho Tupi (que completa 80 anos) e o jornalista e historiador Leonardo Dantas Silva serão homenageados hoje, no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje), na cerimônia de inauguração da exposição Carnaval da Memória, que fica aberta ao público até o final de março, das 9h às 17h. A exposição reunirá ainda fotos de antigos carnavais de rua, jornais de agremiações carnavalescas e documentos dos arquivos do Dops, que fazem parte do seu acervo.


A exposição visa, como diz o gestor do Apeje, jornalista Evaldo Costa, dar visibilidade ao acervo mantido pela instituição, um dos mais importantes do país. Criado em 1945, o Arquivo Público Estadual, localizado na Rua do Imperador, 371, no bairro de Santo Antônio, funciona no prédio construído em 1731, que abrigava, no térreo, a cadeia municipal e, no primeiro andar, a Casa da Câmara. Em 1779, foi concluída a construção de um terceiro pavimento. A cadeia municipal, além de criminosos comuns, recebeu também presos políticos, como Frei Caneca (Joaquim do Amor Divino Rabelo 1779/1825), um dos cabeças da Revolução de 1817, e da Confederação do Equador, em 1824.

O prédio foi utilizado pelo Tribunal de Justiça até 1930, quando foi reformado e tornou-se a Biblioteca Pública do Estado. O Arquivo Público mudou-se para lá em 1975 (parte do acervo está em outro prédio, na Rua Imperial).

CARNAVAl
Para pesquisadores, o Apeje é uma rica fonte da história do Carnaval pernambucano, com um acervo que reúne boa parte dos jornais lançados pelos blocos para o período da folia, a exemplo de O Pierrot, ou A Bisnaga, ambos dos anos 90, do século 19. O segundo definido como “Folha jocosa para desenfastio dos carrancudos”. A exaurida expressão “irreverência” cai bem nestes órgãos carnavalescos como o A Beata, de 25 de fevereiro de 1900, órgão do Clube Carnavalesco Beatas do Recife, que faz gozações em cima da ainda recente guerra de Canudos, e é dedicado à memória das “irmãs diletas que conosco não voltaram/e por via de Canudos/o couro em vara espicharam”.

BUSTO

Com a exposição será lançada a edição nº3 da revista do Apeje, Memória Ativa (bimestral), que traz na capa o ex-governador Miguel Arraes, reproduzindo na íntegra o discurso que ele fez, em 30 de abril de 1974, em Roma, no Tribunal Bertrand Russel, denunciando crimes da ditadura militar. “De terno cinza escuro, moderníssima gravata xadrez e um colete de lã bege. Miguel Arraes de Alencar foi o primeiro a discursar perante o tribunal Bertrand Russel II – TBR, instalado em Roma, sob a presidência do senador socialista Lello Bassom para julgar e condenar as ditaduras militares sul-americana”, detalha a matéria, que antecipa a reprodução do discurso histórico.

O conteúdo da revista, distribuída gratuitamente, é variado, e neste número resgata a polêmica, e hilária, história do busto do poeta Manuel Bandeira, quando uma homenagem acabou se tornando um constrangimento para o homenageado, e um bate-boca que envolveu políticos, jornalistas, e foi assunto de discussões nas esquinas e bares do Recife. Encomendado para celebrar os 70 anos de Manuel Bandeira, recifense que vivia há décadas no Rio, o busto foi feito pelo escultor Celso Antonio, amigo do poeta, que foi ao seu ateliê e serviu de modelo para a peça que seria colocada na Rua da União, onde Bandeira passara a infância. Segundo a matéria foram cem horas de trabalho até o artista concluir a obra.

Levaria muito mais tempo até que finalmente o busto chegasse ao pedestal. Apoiado no artigo 191 da Constituição de Pernambuco, que proibia dar nomes de pessoas vivas a qualquer localidade ou logradouro do Estado, o então deputado, jornalista e historiador Mário Melo fincou pé contra a homenagem. Ele era também presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), que deveria ser ouvido nesses casos. O que no início era uma briguinha paroquial espalhou-se pelo país.

No Rio, alguns nomes de peso como o cronista Rubem Braga, e Joel Silveira escreveram artigos destratando Mário Melo. Governadores reivindicaram para seus Estados o busto proscrito. Melo não abria: “Só tem um jeito disso acontecer: é morrermos eu ou Manuel Bandeira”, Ele morreu primeiro, em 24 de maio de 1959. O busto foi finalmente inaugurado em 1966,pelo então prefeito Augusto Lucena.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias