50 anos

The Doors, o disco, chega aos 50 anos

Jim Morrison deixaria a banda no auge para morar em Paris

José Teles
José Teles
Publicado em 10/04/2017 às 12:50
foto: divulgação
Jim Morrison deixaria a banda no auge para morar em Paris - foto: divulgação
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O cemitério Père­Lachaise foi construído por ordem de Napoleão, incomodado com a quantidade de cadáveres que, depois da carnificina da Revolução Francesa, se amontoavam uns sobre os outros nos pequenos cemitérios de Paris. Père­Lachaise, no entanto, ficava distante. Os parisienses não se interessavam em enterrar seus mortos naquele fim de mundo.
Para torná­lo mais atraente, o governo anunciou que seriam transferidos para lá os restos mortais de franceses ilustres, entre estes, Molière, Beaumarchais, Abelard e Héloïse. Nem assim. O romancista Balzac, popularíssimo na época, colaborou. Passou a enterrar em Père­Lachaise os personagens que criava e, por conta da trama, morriam. O povo começou a prestigiar o cemitério pelos seus defuntos fictícios. Com o tempo, foram ali se acumulando dezenas de mausoléus de celebridades reais como Chopin, Marcel Proust,Edith Piaf, Oscar Wilde, Modigliani, o que fez do cemitério um dos pontos turísticos obrigatórios da capital francesa.

Um dos túmulos mais visitados de Père ­Lachaise é extremamente discreto em meio a tanta suntuosidade. Está na Alameda dos Poetas, apenas uma lápide cercada por grades. Nela só o nome do morto, James Douglas Morrison, a data de nascimento (8/12/1943), e de morte (3/7/1971). Jim Morrison, Mr. Mojo, The Lizard King ou, como o tratava o jornalista Hunter S.Thompson, Crazy Jim (Jim Maluco). O Rei Lagarto,
porém, teve um reinado curto.


Durou de 1967, com o lançamento do álbum The Doors, até 1970, quando deu um tempo no rock and roll e foi morar em Paris, para supostamente se dedicar a escrever, como fizeram Henry Miller e Ernst Hemingway nos anos 30. Os tempos, no entanto, eram outros. Assim como Hemingway, Morrison foi alcoólatra. Mas costumava usar qualquer espécie de drogas. A versão oficial de sua morte é a de que sofreu um infartoenquanto na banheira do apartamento onde vivia.
Em Mr. Mojo, biografia de Jim Morrison, de 2016, o jornalista Dylan Jones sustenta que foi encontrado morto sentado na privada de um bar que costumava frequentar. Matou­o uma overdose de heroína de extrema pureza. O corpo foi levado para o apartamento e colocado na banheira, onde o encontraram. Ele só foi sepultado quatro dias depois.

O DISCO


Em 1991, milhares de fãs invadiram Père­Lachaise para visitar o túmulo de Jim Morrison, no aniversário de 20 anos de sua morte. Acontecia o primeiro revival dos Doors, com discos relançados, cinebiografia badalada. Agora que se repassa a década de 60, ano a ano, chegou a vez de 1967, quando eventos e obras de arte da época inteiram 50 anos. The Doors, o álbum inaugural dos Doors cinquentão, é reeditado em formatos variados, com uma edição de luxo estendendo as originais onze faixas a três dezenas.


A maioria das bandas é um todo maior do que as partes que as formam. Com os Doors acontecia diferente. Jim Morrison foi infinitamente maior do que John Densmore, Robbie Krieger e Ray Manzarek. Carismático, pretensioso, com um dom inato de entender plateias. Concertos dos Doors atestam a asserção. The Door, o álbum, fica entre o rock retrato de seu tempo e a pretensão, no edipiano épico final, com The End. Mas pretensão é o que se poderia esperar de uma banda cujo nome vem dos escritores William Blake e Aldous Huxley. Versos do primeiro, o livro As Portas da Percepção, do segundo.


Nas demos que os Doors apresentou ainda como The Ravens (nome obviamente inspirado no poema de Edgar Allan Poe), o grupo soa como uma banda de rock que não se diferencia muito das centenas que circulavam pela Califórnia. Nos bares e clubes de Los Angeles e San Francisco, Morrison forjou sua persona de palco, geralmente chapado de peiote, mescalina, LSD, maconha e muito álcool. Suas canções curtas, de letras enigmáticas, mas bem talhadas, convidam ao improviso. O álbum de estreia, produzido por Paul Rotschild, no Sunset Sun, em L.A, foi concluído com poucos takes. Os quatro nem ensaiaram, já tocavam aquele repertório há dois anos. Rotschild encarregou­se de controlar Jim Morrison, que só gravava se estivesse sóbrio.


As faixas adicionais mostram a evolução da banda, dos Ravens aos Doors. Um CD traz um clássico concerto, no Matrix, em 1967, (já lançado em álbum duplo, pela Rhino). Este é um dos poucos registros completos e de boa qualidade da banda antes de lançar o primeiro disco. Embora The Doors não seja uma unanimidade, o álbum de estreia é um clássico inquestionável. Meio século depois, o monólogo edipiano no final dos quase 12 minutos de The End ainda chocam: "Pai? Quero lhe matar. Mãe? Quero transar com você".

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