Maturidade

Lorde potencializa sentimentos no excelente 'Melodrama'

Segundo álbum da neozelandesa tem composições maduras e sonoridade diversificada

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 27/06/2017 às 18:01
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Segundo álbum da neozelandesa tem composições maduras e sonoridade diversificada - FOTO: Reprodução
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Ella Marija Lani Yelich-O'Connor tinha 16 anos quando, de supetão, se tornou uma das grandes revelações da música. Sob o nome artístico Lorde, a neozelandesa conseguiu a rara façanha de ser aclamada pela crítica especializada, idolatrada pela cena indie e pelo mainstream, atingindo o topo das paradas mundiais com o (inesperado) hit Royals. Após hiato de quatro anos desde sua estreia, a artista retorna com Melodrama, álbum no qual refina sua escrita e explora a complexidade da incipiente vida adulta.

Com visual despojado e opiniões cortantes e aparentemente sem filtros, Lorde era a antítese do modelo tradicional de estrela pop. Sua música também apontava para caminhos que, hoje, aparecem nos trabalhos de grandes nomes da indústria, com a mescla de diferentes sonoridades, abraçando subgêneros do cenário alternativo. As composições permeadas por doses de hedonismo e deslocamento na contemporaneidade abriram portas para nomes como Halsey e Tove Lo.

Apesar do tom confessional, as letras de Pure Heroine (2013) focavam no macro e não no micro. Com tom desafiador, predominantemente na primeira pessoa do plural, reforçava como ela e os seus não precisavam do “dinheiro e da legitimação” porque “simplesmente não se importava”. A fragilidade, porém, estava ali, disfarçada sob os filtros. “É tão assustador envelhecer”, canta em Ribs.

Naquela época, Lorde afirmou que não escrevia canções de amor porque não havia achado uma forma “poderosa e inovadora” de abordar o assunto. Com Melodrama, ela mostra que, agora, encontrou.

CATARSE

Influenciada por David Bowie (por quem foi chamada de “o futuro da música”), Joni Mitchell e Leonard, Lorde imprime em suas composições narrativas perspicazes. Segundo ela, Melodrama relata as emoções vividas durante uma noite de festa.
“É uma alusão aos tipos de emoções que você experiencia quando tem 19, 20 anos. Tive dois anos tão intensos e tudo que senti – fosse quando estava chorando, rindo, dançando ou apaixonada – parecia a versão mais concentrada daquela emoção (...) Mas, definitivamente, há um quê irônico; é muito jocoso intitular o próprio disco de Melodrama”, explicou à Vanity Fair sobre o novo trabalho.

A narrativa, porém, não é linear e se desenvolve a partir de pinceladas abstratas. A entrada na vida adulta e o fim de um relacionamento são os propulsores das canções. A faixa de abertura, Green Light, é a mais dançante da carreira de Lorde. Nela, Lorde faz sua catarse pessoal, sua voz com uma raiva quase sádica, buscando instantes de felicidade enquanto faz da dança uma espécie de vingança contra o ex.

Em Sober, a pista de dança, o álcool e as drogas são formas de retardar o ponto final de uma relação já finalizada. “O que vamos fazer quanto estivermos sóbrios/ Droga, estamos chapados”, canta. Em Homemade Dynamite e The Louvre, as luzes da festa e o brilho da excitação não escondem o medo da perda.

“Por favor, você pode ser gentil por um momento e sentarei perto de você/ Vamos esperar um pouco antes de admitirmos que acabou (...) Bem, acho que devo ir”, canta em Hard Feelings/Loveless. A narradora de Sober II (Melodrama) e das baladas Liability e Writer In The Dark, imbuída de melancolia e solidão, parece olhar os restos da festa, os copos vazios e os corpos que se recusam a partir, talvez na esperança de que a excitação inicial volta naquela música que ainda pode salvar a noite. “Todas as noites gastas/ Tentando encontrar esses lugares perfeitos/ Mas o que diabos é um lugar perfeito”, canta nas estrofes finais do álbum.

Lorde não é mais a adolescente de 16 anos com medo de envelhecer; é uma jovem mulher aprendendo a lidar com a complexidade das suas emoções. Intenso, vulnerável e catártico, Melodrama é o melhor álbum pop do ano até o momento e reafirma o talento da artista em capturar o prosaico, assim como o inefável.

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