Lançamento

Maciel Salú lança seu disco mais engajado neste domingo no Sta Isabel

O quinto álbum do rabequeiro tem um viés para a música urbana

José Teles
José Teles
Publicado em 25/03/2018 às 9:04
foto: Guga Mattos/JC Imagem
O quinto álbum do rabequeiro tem um viés para a música urbana - FOTO: foto: Guga Mattos/JC Imagem
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Liberdade, o disco que Maciel Salú lança hoje, às 19h, no Teatro de Santa Isabel, é o seu trabalho mais político. Também o mais aberto às influências que assimilou desde que deixou de ser brincante, ou folgazão, das manifestações populares da Zona da Mata, e entrou numa banda, a Chão e Chinelo. Liberdade vem acompanhado de um livro, em que Maciel Salú conta histórias, mostra poemas:

 “Falo um pouco desta questão do racismo, o que passei de preconceito, pelo fato de ser negro, filho de um artista, muito conhecido, renomado, mas que também passou por muito preconceito, por ser da cultura popular. O disco tem a ver com problemas do nosso país, mas igualmente de outros lugares. Cita Nelson Mandela, de quem sou fã, fala da questão da Síria, a violência dos ditadores, de tanta gente morrendo todos os dias. É político, mas também fala do cotidiano, da beleza da mulher, numa música que fiz pra Rute, minha mulher”.

 Mas este viés engajado no repertório de Liberdade deve-se, sobretudo, à luta, em 2014, dos maracatus rurais contra a limitação do horário das sambadas, imposta pelas autoridades das cidades da Mata Norte:

 “Durante toda minha trajetória sempre tive a liberdade de fazer a minha música da forma que quisesse, então o maracatu ser proibido estava entalado na minha garganta. E tem algumas cidades em que continua sendo proibido, os mestres sem poder brincar suas sambadas nos terreiros. Levamos a proposta à Fundarpe, conversamos, mas a coisa continuou. Toda sambada a polícia chegava, e dizia que só podia ser até meia-noite. Fizemos a denúncia ao Ministério Público, que recebeu vários maracatuzeiros, pra cada mestre contar suas histórias. Os duelos de loas que fazem vão até as cinco horas da manhã. Isto passa de geração a geração, e o jovem, a criança, só vai aprender aquilo ali se vivenciar na sambada, com o pai, com o amigo”.

 Avô de quatro netos, quarto dos 15 filhos do Mestre Salustiano (que casou nove vezes), Maciel Salu é o terceiro mestre da família Salustiano. Iniciou-se na arte ainda criança. Acompanhava o pai para as sambadas; as oficinas; ajudava na confecção dos trajes dos maracatuzeiros; administrou o espaço Ilumiara Zumbi, onde acontece grandes sambadas de maracatu rural. Teve os melhores professores, do rabequeiro seu Luiz Paixão, a grandes mestres de maracatus, como Biu, mestre Batista e o lendário mestre Baracho da Ciranda (Antonio Baracho da Silva, falecido em 1988, aos 81 anos).“Baracho morou lá em casa. Ele é mais conhecido pelas cirandas, mas foi um dos melhores mestres de maracatu”, esclarece Salú

Há 21 anos, ele ergueu a ponte entre a cultura popular e a música da cidade grande, ao entrar no citado Chão e Chinelo, contrariando a vontade do Mestre Salustiano:  “Eu e Salú sempre fomos meio bicudos, a gente se respeitava, mas tinha discordâncias. O Chão e Chinelo era formado por um pessoal que fazia faculdade, ele perguntava o que eles queriam comigo. Achava que iam me usar e depois me mandar embora, porque eu vim da cultura popular. É um cuidado natural, de pai”, contemporiza.

 CULTURA POPULAR

 Mas aconteceu o contrário. Foram os universitários da Chão e Chinelo que aprenderam com Maciel e, com o passar do tempo, descobriram que o que ele sabia não se aprendia em faculdade. A Chão e Chinelo teve vida curta. Veio depois a Santa Massa, grupo formado por DJ Dolores, com o qual Maciel Salú começou a conhecer a cultura de outros países. Depois vieram suas próprias viagens:

 “Fomos para o Senegal em 2010, participar do Festival Mundial das Artes Negras, com o Maracatu Águia Formosa, de Tracunhaém, do mestre Edmilson. A miséria lá é muito grande, transporte muito precário, o povo anda pendurado, em cima dos ônibus. A gente estava num hotel, que nem era tão luxuoso assim, mas da porta pra fora era outra realidade, de fazer chorar”. O testemunho desta realidade, ainda mais cruel do que a brasileira, está na letra de Realidade (parceria com Lira, que também canta nesta faixa): “Vamos cruzar as fronteiras/encontrar nossos irmãos/ e ver a realidade/do que se passa do outro lado/não me esconda a verdade”.

A expressão “cultura popular” chegou a ser considerada subversiva em Pernambuco, por evocar o Movimento de Cultura Popular, o MCP. Criado na gestão de Miguel Arraes na prefeitura do Recife, o MCP foi dos primeiros alvos dos tanques de guerra em 1º de abril de 1964. Os mestres da cultura popular eram estudados, adaptados para peças e músicas, mas só eram conhecidos em suas comunidades. O chamado movimento mangue se aproximou da cultura popular e levou para seus shows coco, maracatu, cavalo marinho, em seu estado natural:

 “As bandas começaram pensando de uma maneira diferente. Os mestres estavam aí, mas precisavam de espaço para mostrar o seu trabalho. Onde você ia ver um mestre de cultura popular subir nos palcos antes disso? Zé Neguinho participou de shows com a Chão e Chinelo, Selma do Coco, Mestre Salu, tocaram no Abril pro Rock, começaram a ser visto com outros olhos. Além dos mestres, também os instrumentos, alfaia com guitarra, bateria”.

 Maciel Salú, sem fazer alarde, levou a tradição adiante. Liberdade não difere de seus discos anteriores só pelos músicos, Emerson Santana (ilú), Joana Melo (mineiro e vocais), José Mário (alfaia, vocais), Rogê Victor (baixo, vocais), Sammy Barros (guitarra, vocais). Difere também pela variedade rítmica.

Show de Maciel Salú e banda, lançando o álbum Liberdade, hoje, às 19h, no Teatro de Santa Isabel. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (estudantes, professores e acima de 60 anos)

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