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Maria Bethânia e Zeca Pagodinho num elo de samba

Os dois apresentam o show 'De Santo Amaro a Xerém' neste sábado (7) no Recife

Adriana Victor
Adriana Victor
Publicado em 04/04/2018 às 7:57
Daryan Dornelles/Divulgação
Os dois apresentam o show 'De Santo Amaro a Xerém' neste sábado (7) no Recife - FOTO: Daryan Dornelles/Divulgação
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No sítio em Xerém, na Baixada Fluminense, ele a abraça e diz: “sou eu e ela agora, ninguém quebra mais”; ela escancara um surpreso e sincero sorriso. Era junho de 2016. Quase dois anos depois, cumpre-se a sentença de Zeca Pagodinho. Agora é ele e Maria Bethânia, juntos num palco, aptos a um elo suficientemente fortalecido para transformar aparentes dicotomias em música e união: Mangueira/Portela, Rio/Bahia, samba de roda/pagode - ou tudo um samba só. “O samba que une, a admiração mútua, cada um na sua linha - acho que isso é motivo pra se encontrar”, louva Maria Bethânia. O espetáculo tem estreia marcada em Pernambuco, no próximo sábado (7) e chama-se De Santo Amaro a Xerém.

Por telefone, Maria Bethânia e Zeca Pagodinho conversaram com a reportagem esta semana, durante os ensaios no Rio de Janeiro - entre uma pergunta e outra, lá no fundo se ouvia um sambinha. Ele falou primeiro sobre a união agora selada: “Acho que é a música o que une mais do que tudo. Sempre fui fã de Bethânia, jamais imaginaria estar do lado dela, ainda mais num palco”, admite. “Estou nervoso e surpreso.”

Para ela, a pergunta: é a fé na festa que os une? “Tem fé, lógico. Sem fé eu não ando. Ninguém anda, nada anda”, responde Bethânia de pronto. “O Zeca não é muito religioso, mas crê. Naturalmente, tem fé. Tem fé da região do Recôncavo da Bahia como tem fé da região carioca, o mais nobre samba carioca.”

Antes do encontro de 2016, quando ocorreu a gravação do DVD Quintal do Pagodinho 3, ele já se confessava admirador da cantora, com especial gosto pelos discos de Bethânia da década de 1970. Em Xerém, os dois cantaram juntos Sonho Meu, lindeza composta por Dona Ivone lara e Delcio Carvalho. A convidada, sabendo do que gostava o anfitrião e de seu especial apreço pela dramaturgia que ela imprimia em seus discos, agradou-o mais: “Mora comigo, na minha casa, um rapaz que eu amo./ Aquilo que ele não me diz porque não sabe, vai me dizendo no seu corpo que dança para mim...”, narrou, então, o texto de Luiz Carlos Lacerda, que introduz a música Esse Cara, do irmão Caetano.

“Foi uma admiração crescente”, Zeca afirma. “Fui acompanhando, lembro do disco dela com Chico (Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo, 1975). Aí resolvemos fazer essa brincadeira, esse show e, como ela diz, é pra gente se divertir, passear e cantar.” “E espero em Deus que a gente se divirta muito. É para festejar o samba, festejar os encontros, festejar o respeito, a fé. E depois seguimos cada um pro seu trabalho”, ela completa.

Além do palco o que se enxerga? “Uma amizade, uma conversa, a gente ri muito. Ela gosta muito das minhas histórias, também me conta coisas lindas. Enfim, é tudo o que pode existir entre dois amigos”, revela o cantor. “Ele é um intérprete extraordinário. Do samba em todas as suas variações. Eu sou uma baladeira, mas sou do Recôncavo da Bahia. É o samba de roda, mais lento, mais cadenciado. Existe um elo fortíssimo”, assevera Maria.

“VIBRAÇÃO BONITA, CLARA E NOBRE”

“Eu adoro esse lugar - vocês sabem disso e de sobra. Estou louca pra chegar, acho bom estrear aí. Tem uma vibração bonita, clara, nobre”, declara-se Maria Bethânia a Pernambuco e à gente daqui. “Estou sempre pelo Recife. Tenho grandes amigos e vira e mexe estou por aí com a rapaziada”, alinhava Zeca.

A turnê que começa aqui segue por mais cinco cidades: Salvador (14/04), Rio de Janeiro (21/04), Belo Horizonte (05/05), São Paulo (18 e 19/05) e Brasília (30/05). No repertório escolhido a dedo pelos dois artistas, há lugar para um, para o outro e para a dupla. Negue (Adelino Moreira), Reconvexo (Caetano Veloso), Deixa a Vida Me Levar (Serginho Meriti/Eri do Cais) e, claro, Sonho Meu, a música que primeiro os uniu. “São canções que ele gosta, das vitórias deles, e também das minhas vitórias. E canções de prazer de dividir a minha voz com a dele”, conta-nos Bethânia. “A gente escolhe um monte de músicas e vai ajustando. É um trabalho coletivo”, afirma Zeca.

Entre as novidades, uma composição especial para celebrar o encontro. “Pedi a Caetano e ele fez um samba especialmente para nós dois. Pra mim é um honra, e o Zeca ter gostado é dobrada essa minha alegria e a de Caetano”, avalia ela. “Ai, amor, amor, Amaro/ Ai, cheirinho de Xerém”, diz o refrão da nova música, que também é o título do espetáculo. Zeca revela se tratar de “um samba lindo” e que “todo mundo já sabe cantar”.

Para fim de conversa, um pedido que os dois falem do Brasil e dos dias conturbados que andamos enfrentando. “Eu creio que a juventude vá mudar alguma coisa. Tem que mudar. Pior do que está não pode ficar. Mas vai melhorar: com Deus, com a música, com a juventude. Vamos melhorar isso”, ele crê. “Tem que acreditar. Se não acreditar é pior. Eu comento, sou muito metida, falo de tudo, gosto de falar dos assuntos que são pertinentes àquele momento. Falo como uma pessoa sensível, uma artista, que tem um palanque onde pode expressar a sua opinião. E é o que eu faço”, finaliza Bethânia.

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