Álbum

Sanni Est, cantora trans pernambucana radicada em Berlim, lança álbum

'War in Her' é o primeiro disco da pernambucana Sanni Est, que transforma as cicatrizes de um relacionamento em música

Luiza Maia
Luiza Maia
Publicado em 13/04/2018 às 9:14
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'War in Her' é o primeiro disco da pernambucana Sanni Est, que transforma as cicatrizes de um relacionamento em música - FOTO: Foto: Divulgação
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Desabafos líricos e sonoros de uma pernambucana transexual, negra e imigrante em Berlim, capital alemã, tomam forma no primeiro disco de Sanni Est, disponível a partir desta sexta-feira nas plataformas de streaming Spotify, Deezer, iTunes e Amazon.

“A solidão de uma mulher trans é muito grande”, crava a cantora, compositora, performer, DJ, atriz, educadora, artista multimídia e produtora musical, de 29 anos. Ela ainda dá aulas em uma escola de ensino médio dentro do Diversity Box, projeto financiado pelo governo sobre diversidade de gênero, e ensina alemão para estrangeiros.

O título, War In Her (Guerra Nela, em tradução livre), é uma vingança poética contra a dolorosa inspiração das canções, um homem europeu quatro anos mais novo com quem ela manteve um conturbado relacionamento abusivo. “O sobrenome dele é Warinherr. Eu quis com isso sujar o nome, colocando a guerra nele”, dispara. “Era uma diferença de privilégios imensa. Os homens europeus esperam de mim um posicionamento de inferioridade por ser trans e brasileira”, analisa.

War In Her foi concebido como “álbum-filme” e ganhará clipes costurados por um roteiro. O primeiro, homônimo, está no YouTube e tem como subtítulo Ele. As dez faixas do disco são autorais e estão em inglês, permeadas por paixão, entrega, saudade, angústia, dor, raiva e, por fim, libertação, mas também exploram posicionamentos feministas – além disso, uma delas tem como temática o estupro.

As mais antigas do álbum surgiram antes de o relacionamento se concretizar, em meados de 2015. Ele, inglês, tinha uma namorada. Ela, trans e imigrante, mergulhou na incerta espera pelo prometido fim do relacionamento e pela ida dele a Berlim. O final feliz nunca chegou, mas o processo de libertação, junto à aquisição da segurança enquanto mulher e feminista, foi transformado em um disco no qual Sanni enxerga uma relevância social na exposição da vida pessoal.

"Eu pensei em me matar quando tinha 20 anos porque não conhecia ninguém. Eu não tinha narrativa trans. Eu demorei tanto tempo para me aceitar trans porque tinha uma transfobia internalizada, como todas as pessoas brasileiras da minha geração. Eu achava que precisava abrir mão do meu maior sonho, que era cantar. Eu me exponho, mas não há comparação com a dor de perceber que você é um corpo boicotado", desabafa.

Entre idas e vindas – a última delas em setembro do ano passado –, o romance enfrentou o preconceito dele em torná-lo público e teve rompido o fio do encanto quando da exibição de um curta-metragem sobre ela, com cenas de sexo. "Após a mostra, falei abertamente sobre ser trans pela primeira vez para um público, na frente dele. Depois disso, ele voltou para a Inglaterra, e a gente nunca acabou direito", relembra.

As cicatrizes ecoam em versos melancólicos, por vezes irônicos, envoltos em sonoridade eletrônica trabalhada em paralelo a instrumentos da cultura pernambucana. "Quando estou em crise e não consigo conter esse sentimento no corpo, tenho que escrever uma música", conta ela, sobre o processo de composição, iniciado aos 15 anos, quando era estudante e morava no Curado 4.

Raízes

A ligação com a música brotou aos 7, quando ganhou um saxofone de plástico do pai e aprendeu a tocar o clássico Asa Branca, de Luiz Gonzaga. Aos 9, passou a frequentar aulas de música na escola e, aos 11, ingressou no Conservatório Pernambucano de Música. Aprendeu a tocar vários instrumentos e fez canto lírico. "Quando comecei a estudar maracatu, fiquei fascinada. Eu tinha uns 15 anos e ouvia Björk e Belle and Sebastian. Fiquei enlouquecida e não via a hora de ter um laptop e fazer música eletrônica com maracatu", recorda.

A verve artística foi estancada por alguns anos após a migração para a Europa, no ano de 2007. Em Berlim, iniciou o curso combinado de filologia inglesa com filologia francesa e antropologia social e cultural e trabalhava em bares para financiar os estudos. A virada foi aos 23 anos, após a cirurgia de redesignação sexual, à qual se sucedeu uma segunda, por causa de complicações decorrentes do procedimento.

"Depois da segunda cirurgia, pensei 'posso morrer amanhã'. Não vou esperar. Já do hospital, comecei a escrever para todo mundo que era artista", revelou. Ali, surgiu uma artista ciente da própria força enquanto mulher e do poder para enfrentar o patriarcado eurocentrista. "Eu me sinto na obrigação de me apreciar. Olhar para mim e dizer 'a senhora é lacradora mesmo'". Para uma mulher negra trans, sentir-se bonita também é revolucionário, ensina Sanni Est.

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