Tropicália 50 anos

A Tropicália chegava ao auge de ousadias quando veio o AI-5

1968 foi um ano em que tudo podia acontecer. E aconteceu

José Teles
José Teles
Publicado em 10/06/2018 às 9:59
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Nunca houve um ano feito 1968. Ao contrário do que geralmente se imagina, ano não revolucionário, exatamente o contrário. As mudanças políticas, sociais, de costumes, culturais, aceleradas a partir de 1965, assustaram os conservadores, e estimularam uma reação, três anos depois. A decantada década de 60 acabou em 1968. Em 1969, a poeira abaixou, pôde-se então ter uma ideia dos estragos, ou do que restava da tentativa de viver a utopia.

 A Tropicália foi o resultado de lucubrações que se desenvolviam desde final dos anos 50. Assim como ela, outros episódios básicos do período. Da chamada Primavera de Praga, sufocada pelos tanques soviéticos em 1968, ao Movimento de Maio, no mesmo ano, na França, habilmente amortecido pela sagacidade do presidente Charles de Gaulle.

 Um ano deveras estranho. “Crocodilo africano engole mulher, zebra, macaco e duas cabras, no Norte de Botswana”, noticiou o Jornal do Commercio, em 11 de novembro. Em 12 de dezembro, a agência de notícias UPI (United Press International) alertava para o fim do mundo, e com hora marcada: “Hertford, Inglaterra – O mundo chegará ao fim ao meio-dia de hoje, anuncia uma sociedade religiosa local”. A última oportunidade de se alcançar a salvação, segundo a matéria, seria passar as últimas horas do fim na sede da associação, numa reunião dedicada a oração final.

 E o mundo não se acabou. Depois do horário aprazado, o planeta continuaria circulando em torno do sol normalmente. Talvez o presságio se referisse ao Brasil. No dia 13 de dezembro caiu sob a nação o Ato Institucional nº5, o desditado AI-5, que enquadrou a nação, e tiraria de circulação artistas e intelectuais de esquerda, entre estes os líderes tropicalistas, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

 OS ASTROS

 As previsões da astrologia para 1968 foram quase tão equivocadas quanto a inglesa sobre o fim dos tempos: “O sextil de Urano com Netuno indica harmonia entre o governo e o povo, leis favoráveis e intensa movimentação no âmbito parlamentar, bem como atividades democráticas. Desenvolvimento de organizações espiritualistas e teosóficas”. Na parte espiritual o ano foi realmente intenso, desde que os Beatles badalaram o guru indiano Maharishi Maheshi Yogi, o Ocidente passou a prestar mais atenção na Índia.

 Em junho, o Recife recebeu um guru indiano, Swani Guru Devananda Maraj, que deu uma palestra na Escola Politécnica, na Rua do Hospício. Para o santo homem, a paz somente seria alcançada através da meditação. Sua filosofia era baseada em mantras, palavras que, esclareceu aos neófitos, produzem um som que se sintoniza com a vibração de cada indivíduo. Segundo ele, a diferença entre as pessoas é apenas de vibração, que se tem em maior ou menor grau. Swani Guru Devananda Maraj, depois da palestra, comunicou que receberia pessoas no Hotel  13 de Maio, onde estava hospedado. Disse que não cobraria por consultas mas, salientou, aceitaria donativos.

 Alegria Alegria e Soy Loco por Ti America, hits tropicalistas, eram cantados país afora, por todas as classes sociais e em todos os estados. Enquanto a polícia digladiava-se com estudantes e operários em Paris, em 23 de maio, o enxuto (o que se chama hoje de “trans”) Joana Tropicália rebatia declarações do vereador pernambucano Wandenkolk Wanderley que pretendia proibir a realização de um pioneiro congresso de enxutos no Recife. Ela também explicou o motivo do apelido. Antes do tropicalismo era conhecida como Zefa Quebra-Galho. Porém, apaixonada pela música de Caetano Veloso, sobretudo Tropicália, recebeu das colegas o novo nome social.

 Nada mais Brasil e tropicalista do que concurso de miss. O país não tinha esquecido a derrota da belíssima baiana Martha Rocha, que, em 1954, não chegou lá por conta de duas polegadas a mais. Em 1968, outra Martha, sobrenome Vasconcelos, também baiana, arrebatou o Miss Universo para as nossas cores. Quando lhe pediram que dissesse alguma coisa sobre a vitória. Ela se limitou a três palavras: “Não posso falar”. Mas o Brasil fez carnaval pela conquista da baiana. Tanta festa que passou despercebida uma notícia importante: “Jornal assegura que Hitler é um habitante da capital colombiana. Segundo o jornal El Tiempo, ele e a mulher, Eva Braun, foram de submarino para a Colômbia.”

LINDONÉIA

 Criada em 1966, Lindonéia, em 1968, multiplicou-se em 200 serigrafias, vendidas pelo seu criador, o pintor Rubens Gerchman. “Um amor impossível – A bela Lindonéia de 18 anos morreu instantaneamente”. A moça no quadro de Gerchman é uma Gioconda suburbana, em cujo rosto estampam-se manchas, uma no olho direito, hematomas. Lindonéia vítima de violência doméstica, uma trivialidade no Brasil de 50 anos atrás.

 A vida imitou a arte na notícia do Diário da Noite de São Paulo, sobre uma Lindonéia chamada Edimar Thompson Correia, de 17 anos. A manchete tem o sensacionalismo típico da época: “Miss Espancamento. 80 surras em seis meses”. A “Miss” morava em Niterói, estava casada há seis meses com Luiz Carlos Correa, de 21 anos. No hospital, onde foi atendida, esclareceu que sabia ser aquela a octogésima surra que levava, porque anotava cada uma com um x.

É provável que Nara Leão tenha lido sobre a Miss Espancamento, lembrado da obra de Gerchman e sugerido a Caetano Veloso compor uma canção sobre Lindonéia (que ele ainda não conhecia). Os versos iniciais de Lindonéia, o bolero, gravado por Nara Leão: “Na frente do espelho/sem que ninguém a visse/miss linda, feia, Lindonéia desparecida”

Um ano de avanço e modernidade e de episódios e de retrocessos. Enquanto na Fafire anunciava-se um curso de Vanguarda Psicodélica, com duração de quatro meses, de Terra Nova, interior do Estado, vinha a notícia: “Rigorosa a prisão do bode” – Um bode branco da raça zebu (sic), ficou preso incomunicável por 19 dias, na cadeia pública da cidade pernambucana de Terra Nova”. Ressalte-se que a prisão do caprino aconteceu antes do AI-5.

Em 1968 tudo poderia acontecer, até um beatle vir ao Recife para estudar nossa macumba, quanto o grupo dele gravar a toada Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira: “O beatle John Lennon virá ao Brasil, especialmente a Salvador e ao Recife para estudar devidamente nossa macumba, que terá assim mais condições de ser exportada”, o furo foi repassado ao colunista do Jornal do Commercio Jones Figueiredo pela cantora Eliana Pittman, que contou ter conhecido os Beatles em Londres.

 John Lennon não veio conhecer os terreiros do Recife, nem os Beatles gravaram Asa Branca. Caetano Veloso gravaria Asa Branca no álbum que fez, em 1970, em Londres, para onde as ousadias permitidas, e interrompidas,  pelo ano de 1968 o levaram a procurar por discos voadores no céu cinzento da capital inglesa

 

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