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Ed Motta chega perto da sonoridade perfeita

Novo disco foi lançado no exterior, no Brasil só em formato digital

José Teles
José Teles
Publicado em 07/10/2018 às 10:10
Foto: Divulgação
Novo disco foi lançado no exterior, no Brasil só em formato digital - FOTO: Foto: Divulgação
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Não foi a primeira vez em que Ed Motta afirmou sua vontade de ser americano. Em entrevista recente ao critico Julio Maria, de O Estado de S. Paulo, ele reafirmou este desejo, confessando que não se sente representante da música brasileira. Diz que prefere se imitador dos americanos ou, literalmente: “Eu sempre quis ser americano. Sei que são politicamente horrorosos, mas musicalmente esses caras habitam algum outro planeta”.

 A entrevista foi a propósito do disco Criterion of the Senses, lançado pelo selo alemão (de Hamburgo) MembranEntertainmentGroup, que abriga nomes como Matt Bianco, Gregory Porter ou Aimeé Mann, artistas com controle de qualidade, porém, ou por isto mesmo, consumidos por um público reduzido, o que é o caso de Ed Motta. Criterion of the Senses é inteiramente cantado em inglês, tem oito faixas, e exatos 33 minutos. A capa foi desenhada por Edna Lopes, mulher do cantor, e lançado no dia 21 de setembro. Coincidentemente, em 23 de setembro, dez anos atrás, ele lançou Chapter 9, um de seus discos mais elogiados, com repertório igualmente em inglês.

 O disco, no Brasil, sai apena em versão digital, na Europa e Japão, também em CD e vinil. Ed Motta cultua um tipo de música extremamente elaborada e lapidada, produzida há, mais ou menos, 45 anos atrás. Era feita por Stevie Wonder, Fleetwood Mac, Steely Dan, este último a maior influência para Motta viver em busca da sonoridade perfeita. Sua música é, portanto anterior ao punk rock e o rap, que se infiltraram por vários espaços, inclusive pelo mainstream, definitivamente contaminado, e dominado.

 Menos Ed Motta, que se recusa a enxertar samples em suas gravações, jactando-se de que a música de Criterion of the Senses é totalmente orgânica: “É música feita ao vivo, com instrumentos de verdade, músicos de verdade, composições de verdade, feitas por um autor que é músico, por um guitarrista que é guitarrista, um baterista que é baterista, e um pianista que é pianista. É música pop como a música pop foi antes do hip hop, mas também antes de Never Mind the Bollocks (álbum dos Sex Pistols)”, comentário sobre o disco novo ao site SoulandJazzandFunk.

 Cada faixa recebe um tratamento cirúrgico, minucioso, a bisturi, cada instrumento entra apenas com o que a música pede, nem mais, nem menos. O som é o que mais preocupa Ed Motta, a letra é apenas o complemento. Ele não aprecia o valor que se dá à letra na MPB. Revela que desde sempre escreveu em inglês, mesmo quando não dominava o idioma. No entanto, neste álbum, deve ter se ocupado um bom tempo das letras, inspiradas em livros e filmes, clássicos, ficção científica, noir.

Também nas letras, o Steely Dan (a dupla Donald Fagen e Walter Becker) é influência: “Me inspiraram a buscar situações incomuns em relação às letras. Eles não se valem de lugar comum, e nas melodias que sempre nos dão uma ideia de surpresa – um acorde que vai por um caminho inesperado”. Sua admiração pelo Steely Dan chega ao ponto de possuir cinco cópias, em vinil de um álbum da dupla, Aja, que considera o Cidadão Kane da música.

 Em The Tiki’s Broken There, ele escreveu um conto policial curto, em XI Test, ficção científica. Prefere a primeira pessoa até numa canção romântica, como a balada Sweetest Berry (com uma reverência ao seu cantor preferido, Donny Hathaway ). Lost Connection to Prague, foi composta em Praga, República Tcheca, por acaso. Ed Motta e um músico de sua banda, feito um acorde do Steely Dan, foram parar num local que nem eles mesmos esperavam, num erro da empresa aérea. Compôs parte da música no piano do hotel, e o restante em Berlim. Uma canção sobre o acaso. Criterion of the Senses, lapidado durante um ano, talvez seja o Aja de Ed Motta. Porém a música sofisticada que ele faz tem cada vez menos espaço num Brasil em que autores e autoras do sertanejo são alçados a gênios da raça. A saída para Ed Motta é a mais utilizada por quem faz música de qualidade: o aeroporto.

 COLETÂNEA

 Ed Motta foi convidado pelo pessoal do selo To Slow to Disco para escolher o repertório de mais uma, com AOR music, para a série. Ele foi a sua coleção de discos (cerca de 30 mil, só em vinil), selecionou de nomes obscuros a bem conhecidos de soul e o funk, baladas do Adult Oriented Music do Brasil entre final dos anos 70 e inicio dos 80. Um álbum, CD ou vinil duplo, que faz justiça, ou tira do limbo, artistas que, a maioria, foram engolidos pelas correntes musicais surgidas desde então.

 Entre estes artistas estão Biafra (Leão Ferido), Lucinha Turnbull (Toda Manhã Brilha o Sol), Jane Duboc (Se Eu te Pego de Jeito), Kiko Zambianchi (Estreia), estes os mais ou menos conhecidos. No setor raridades, Carlos Bivar (Maré), e Gelson Oliveira & Luiz Ewerling (Acordes e Sementes), ambos com músicas pinçadas de discos independentes: a dupla, de Terra, álbum de 1983, e Bivar, de Sintonia, um disco de 2000.

 Ainda menos conhecido é Santa Cruz, que teve música tirada de Flor Incendiária (1984,Barclay/Ariola). Parte da música de To Slow to Disco – Brazil é música inspirada nas mesmas fontes em que bebeu Ed Motta, porém, com acabamento bem menos polido, mesmo que tenha sido produzida na época em que os teclados de Lincoln Olivetti eram a referência no país (malhado pela crítica, que o acusava de pasteurização geral). A canções mais óbvias da coletânea são Clarear, com o Roupa Nova, e Coisas do Brasil, com Guilherme Arantes. Para gringos é descoberta, para brasileiros, maiores de 40 anos, é nostalgia, aquela música que de vez em quando lhe vem à cabeça, sem que se lembre de quando foi, ou quem a cantava.

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