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Laís de Assis solando na viola nordestina

Ela contribui para mudar o papel da viola na música da região

José Teles
José Teles
Publicado em 07/11/2018 às 14:03
foto: divulgação
Ela contribui para mudar o papel da viola na música da região - FOTO: foto: divulgação
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O projeto Aurora Instrumental, que acontece no Teatro Arraial Ariano Suassuna, na Rua da Aurora, terá hoje uma atração diferente. A violeira Laís de Assis (nascida no Recife, mas, desde criança moradora de São Lourenço). Além da única mulher da programação (sem ser convidada especial), ela toca viola nordestina, um instrumento empregado quase que unicamente por repentistas, para tocar o intermezzo entre um e outro improviso. Ainda se pode acrescentar que Laís de Assis é das poucas mulheres que usam a viola fora da cantoria, também um terreno em que os marmanjos predominam (Adelmo Arcoverde, Siba Veloso, Adiel Luna, Hugo Lins, entre outros).

“Comecei tocando violão, depois mudei para a viola. Adelmo Arcoverde é meu mestre, a maioria do que sei aprendi com ele”, diz Laís, formada em violão popular e viola de dez cordas pelo Conservatório Pernambucano de Música, onde também foi professora. Além disto, é também mestranda em Música, pela UFPB, com campo de especialização em Etnomusicologia, onde desenvolve pesquisas sobre a viola de dez cordas nordestina. Ela se apresenta hoje em trio, com o percussionista Johann Brehmer e o violonista Zé Freire. Será o segundo concerto que farão. O primeiro aconteceu no ano passado, no projeto A Hora do Frevo, no Paço do Frevo.

Mais uma peculiaridade de Laís de Assis é que ela tem um currículo relativamente longo de apresentações, participações em projeto importantes, mas continua ainda pouco conhecida, e inédita em disco solo (participou de álbuns do pernambucano Sergio Deslandes (em 2016) e do paraibano Fernando Pintassilgo (em 2017). Ela circula constantemente num circuito universitário aqui e na Paraíba, convidada para palestras e concertos. Entre os vários projetos de que participou estão a ópera A Noiva do Condutor, de Noel Rosa, produzida pelo projeto Ópera Estúdio (UFPE), que foi apresentada no Teatro Santa Isabel, a Exposição Corpu du Som, do luthier Rodrigo Veras (que fez a viola com que Laís toca), no projeto Sonora Brasil, onde integrou o grupo Bando de Violas, dirigido pelo violeiro e professor Adelmo Arcoverde, do Sarau das Mulheres promovido pelo Centro de Capoeira São Salomão (2017).

Ela não parece ter pressa em gravar disco: “Pode ser que o disco seja meu próximo projeto, tenho muitas músicas autorais, em muitos gêneros, inclusive algumas em que me inspiro na viola do repente. Os cantadores usam a viola para inspiração, esta composição minha é aberta para a improvisação”, comenta Laís de Assis. Autoral, portanto é a maior parte da repertório do concerto no Aurora Instrumental.

VIOLA

A viola nordestina fora do âmbito do repente foi uma das inovações do Quarteto Novo, supergrupo formado por Airto Moreira (percussão), Théo de Barros (violão), Hermeto Pascoal (flautas) e Heraldo do Monte, um recifense que levou para o QN a viola com a música que escutava nas praças da capital pernambucana, palco principal para violeiros, coquistas, emboladores, cordelistas. O Quarteto Novo, no entanto, teve carreira fugaz. Gravou apenas um LP e um compacto, e desfez-se. Cinco anos mais tarde, o Quinteto Violado voltou a empregar a viola como instrumento solo, tocada por Fernando Filizola, e atualmente por Marcelo Melo. Na versão de Asa Branca o QV tem um antológico solo de viola, um improviso em cima do baião feito pelos repentistas, que inspirou Baião, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O quarteto e o quinteto, no entanto, foram exceções no uso da viola tocando ritmos nordestinos. A viola como instrumento solo é uma tradição do Sudeste, no Centro- Oeste. O mineiro Chico Lobo é um dos violeiros mais conhecidos no país, mesmo que raramente se apresente em Pernambuco.

l Projeto Aurora Instrumental, com Laís de Asis, mais Johann Brehmer (percussão), e Zé Freire (violão), às
19h30, no Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora, 457. Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00

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