Carnaval 2019

Atrás do Trio Elétrico mexeu com o frevo pernambucano

A música de Caetano Veloso foi sucesso há 50 anos

José Teles
José Teles
Publicado em 03/03/2019 às 10:24
Foto: Divulgação
A música de Caetano Veloso foi sucesso há 50 anos - FOTO: Foto: Divulgação
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Na Quarta-Feira de Cinzas de 1969, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram libertados depois de quase dois meses de prisão. No Carnaval daquele ano, uma das músicas mais tocadas no País foi uma composição de Caetano Veloso, Atrás do Trio Elétrico, um frevo simples, com uma letra inteligente que dialoga com a melodia, sem metais, e costurado por solos da guitarra de Lanny Gordin. O músico fazia sua guitarra soar o mais próximo possível de um trio elétrico de Salvador.

 Até então, os trios elétricos eram um fenômenos estritamente baiano. Com eventuais excursões a outros estados, como aconteceu em 1959, quando um trio elétrico de Salvador veio a Pernambuco, patrocinado pela Coca-Cola. Desfilou sem provocar mais do que curiosidade pelas ruas do Recife e de Caruaru. O frevo de Caetano Veloso revelou ao brasileiro a existência do trio elétrico, e um novo destino turístico. Três anos depois, centenas de milhares de brasileiros corriam atrás dos trios na folia de Salvador.

 “O meu Atrás do Trio Elétrico quebrou o tabu. Composto em 68, esse quase-frevo foi um sucesso nas ruas de Salvador no Carnaval de 69 – e ficou conhecido no Brasil inteiro. Eu, no entanto, não tive a alegria de presenciar esse milagre: estava na cadeia. E nos dois outros Carnavais subsequentes, no exílio, de onde mandei frevos novos que também tiveram êxito”, comentou o compositor baiano, no livro Verdade Tropical.

 Ressalte-se que trio elétrico não é o caminhão alegórico adaptado como um palco ambulante, hoje usado em todo país. Chamava-se trio porque os músicos empregavam instrumentos de cordas plugados, bandolim, cavaquinho (mais um músico na percussão). Caetano Veloso nunca imaginaria que sua composição desaguaria num negócio musical lucrativo, batizado de axé music. Tampouco o quanto Atrás do Trio Elétrico mexeria com o carnaval pernambucano. Cinquenta anos atrás, os músicos, maestros e intérpretes de frevo reagiam ao sucesso do frevo baiano, já que Caetano Veloso emendava sucesso atrás de sucesso.

 Depois de Atrás do Trio Elétrico, veio Chuva, Suor e Cerveja, que vendeu e tocou muito mais, recebendo várias regravações e não se restringindo ao Carnaval. A opiniões se dividiam no Recife. Como o baiano conseguiu tornar o frevo música para o ano inteiro? O frevo como produto comercial, impulsionado pela Gravadora Rozenblit, chegara ao ápice em 1959, quando todas as músicas mais tocadas no Carnaval do Recife foram frevos, interpretados e compostos por autores locais e lançados com selo da Mocambo/Rozenblit.

 Com Capiba e Nelson Ferreira assinando os dois mais bem sucedidos: Segure seu Homem, de Capiba, com Mêves Gama, e Bloco da Vitória, de Nelson Ferreira, cantado pelo Bloco Mocambinho na Folia. Bloco da Vitória foi a mais tocada também no Carnaval de Salvador, animado por músicas pernambucanas e cariocas. Aliás, foi influenciado pela passagem, em 1951, do Clube Carnavalesco Mixto Vassourinhas por Salvador que os amigos Dodô e Osmar criaram o trio elétrico, tocando frevos, numa fubica 1929, dotada de alto-falantes, no Carnaval da capital baiana.

 SOM UNIVERSAL

 A Tropicália chegou ao fim com a prisão de Caetano e Gil. A música deles e de artistas que comungavam das mesmas ideias estéticas passou a ser chamada de “som universal”. No auge das discussões sobre o frevo novo baiano, foi perguntado a Capiba qual a opinião dele sobre o som universal, a resposta: “Som universal só conheço dois. Peido e arroto”. Ao participar de um debate, promovido pelo Jornal O Globo, sobre a polêmica envolvendo o frevo pernambucano e o baiano,o irascível  Capiba atacou: “Não existe frevo baiano. E não há, em absoluto, novidades no frevo. O frevo que se faz hoje se fazia no começo do século. Não existe diferença e, sim, prestígio de cantor. Se os outros estados adotam a música de Pernambuco, é porque ela tem força”.

 Porém, indiferente a Caetano Veloso, o frevo pernambucano já não era o mesmo. Em 1970, A Rozenblit, pela primeira vez desde sua criação, não lançou disco de frevo. O compositor Carlos Fernando, no mesmo debate, mostrou-se favorável ao novo estilo de frevo e atribuiu sua decadência à política cultural que se praticava no Estado:

 “A polêmica em cima do frevo baiano ou pernambucano foi criada não pelos baianos, e sim pela decadência da criatividade dos compositores tradicionais de frevo de Pernambuco, aliada à Empresa Municipal de Turismo, à Empetur e à Comissão Promotora do Carnaval que não funcionam. E esta briga é justamente para desviar a atenção do público para os fatores principais dessa decadência. O Carnaval da Bahia tem conotações culturais diferentes das de Pernambuco. E lá existe um departamento de turismo que funciona. O de Pernambuco é uma negação”.

 Atrás do Trio Elétrico plantou a semente da renovação do frevo. A começar pelo citado Carlos Fernando que passou a compor frevos-canções com melodias mais aceleradas e letras modernas. O primeiro deles, Pitomba Pitombeira, de 1975, lançado por Alceu Valença num compacto simples da Som Livre. Até então, Alceu não cantava frevos, pelo menos em disco. Em 1985, no álbum Estação da Luz, ele entraria de cabeça no gênero. Fez sucesso com dois frevos daquele LP, um de sua autoria, Chego Já, e Bom Demais, que revelaria Jota Michiles. A partir daí ele, com Geraldo Azevedo, idealizaram o projeto Asas da América, que chegou ao disco em 1980, causando mais impacto do que sucesso.

 Um álbum de frevos interpretados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, e que continuou pela década seguinte. Cinquenta anos depois de Atrás do Trio Elétrico, o frevo está plenamente aberto às inovações.

 

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