Memória

O Pasquim, lúcido, válido e inserido no contexto

Inovador semanário carioca foi lançado há 50 anos

José Teles
José Teles
Publicado em 02/07/2019 às 8:16
Foto: Reprodução
Inovador semanário carioca foi lançado há 50 anos - FOTO: Foto: Reprodução
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O jornal chegou às bancas, meio século atrás, sem muito alarde. Curiosos que o folheavam estranhavam a linguagem extremamente descontraída. Não apenas nos textos, mas nas fotos, e na publicidade. A entrevista trazia a transcrição exata do que disse o entrevistado, sem retoques. O nome também causava estranheza, O Pasquim. A palavra vem do italiano “pasquino”, uma estátua em Roma na qual as pessoas colocavam panfletos satíricos. Depois se tornou sinônimo de jornal que injuriava, que mexia com autoridades ou pessoas importantes.

O cartunista Jaguar, um dos fundadores, contou que sugeriu o nome, porque qualquer que fosse o jornal iria ser chamado de “pasquim”. A edição nº1 estampava na capa Ibrahim Sued, o colunista social mais conhecido do Brasil, o que por si só era uma inovação. Ibrahim era um dos alvos principais da esquerda, que o tornara um personagem cômico de cartuns e crônicas. Mas entre perguntas propositalmente capciosas, Sued deu um furo ao semanário: antecipou que o general Emílio Garrastazu Medici seria o escolhido para presidente do país (que estava sendo dirigido por uma junta militar).

O primeiro número do semanário foi dedicado a Sergio Porto, cronista, humorista, apresentador de TV, muito popular no Brasil dos anos 60. Sergio certamente faria parte da redação de O Pasquim, que quase é batizado de Carapuça, nome de uma revista de humor e crítica que Sérgio Porto criou pouco antes de morrer, de infarto, em setembro de 1968, aos 45 anos. Crítico ácido do governo militar, o jornalista sofreu uma tentativa de envenenamento em julho daquele ano. Colocaram arsênico na garrafa térmica no camarim de um musical que apresentava.

 O embrião de O Pasquim está no Pif-Paf, revista de humor criada por Millôr Fernandes em 1964, e que só chegou a oito números. A linha editorial era semelhante, misturava humor com política, e teve como colaboradores outros cartunistas, cronistas e jornalistas que participariam do semanário no ano seguinte.

 Um Brasil paradoxal naquele de final de década. Sob o tacão dos militares, em sua fase mais linha dura, Caetano Veloso lançou uma canção, no álbum branco, de 1969, Alfômega, em que Gilberto Gil irrompia no meio da música, e gritava um “Marighella”, sobrenome de um dos guerrilheiros mais procurados do país na época. Nas livrarias, os títulos mais vendidos não seriam comuns num regime ditatorial. No Recife, por exemplo, entre os best sellers estavam A História da Revolução Russa, de Leon Trotsky, Sexus, de Henry Miller, ou Existencialismo ou Marxismo, de George Lukacs.

 Pela lógica era improvável que O Pasquim fosse além dos oito números do Pif Paf. Foi até o número 1072. De 26 de junho de 1969 a 11 de novembro de 1991. O jornal surgiu em 1968, numa reunião de que participaram Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral (pai de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio), Carlos Prosperi, Claudius, Carlos Magaldi e Murilo Reis. A intenção era continuar com a citada revista Carapuça. A propósito, os dois Carlos eram publicitários, da Magaldi & Prosperi, que criaram o programa Jovem Guarda, em 1965. A eles se juntaram Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Luís Carlos Maciel.

 O jornal foi comparado ao Village Voice, alternativo americano, fundado em 1955 (que ainda é publicado, mas apenas online). Porém um Village Voice tropicalizado. Com um design bem mais moderno e dinâmico. Com anúncios que transgrediam regras, em muitos deles se usavam piadas gráficas, e eram bolados na redação de O Pasquim.

 Em 1970, a patota já começava a publicar livros. Abriram a editora Cosa Nostra. Entre os primeiros lançamentos Átila, Você É Bárbaro, de Jaguar, Opinião Pessoal, de Paulo Francis, e Gravuras Eróticas, de Picasso. Mais tarde, fundariam a Codecri que, nos anos 70, teve vários best sellers, entre estes O Que É Isso Companheiro? de Fernando Gabeira. Mas era gerida da mesma maneira desorganizada que o semanário, que não se entende como durou tanto.

EXPRESSÕES

Putz (de “putzgrila”), mifo, sifo, foram criadas em O Pasquim. O putz por Henfil, que a usava nos balões dos quadrinhos dos Fradinhos, as outras duas por Ziraldo. Mas o jornal disseminou rapidamente pelo país o ipanemês, a língua que se falava em Ipanema, que O Pasquim propagou pelo Brasil como uma espécie de Greenwich Village brasileiro (o bairro cabeça de Nova Iorque). “Sem essa”, “Já era”, “Duca”, “Pacas” algumas delas, incorporadas ao idioma.

A tiragem de 20 mil exemplares iniciais chegou a dez vezes mais um ano depois. O maior fenômeno editorial da história da imprensa brasileira. A popularidade do jornal fez dos seus integrantes celebridades, e inspirou Erasmo Carlos a compor o sambalanço Coqueiro Verde, do refrão: “Mas eu vou embora/vou ler meu Pasquim/se ela chegar e não me ver/sai correndo atrás de mim”, e Jorge Ben (então ainda sem o “Jor”) a fazer Cosa Nostra, como a “patota” se autodenominou (há uma versão em que ele cita os nomes dos integrantes do jornal).

CENSURA

 No auge do sucesso, em junho de 1970, a ditadura instituiu a censura prévia, com censores nas redações. Um dos censores de O Pasquim era general, e pai de Helô Pinheiro, que inspirou a Tom e Vinicius a compor Garota de Ipanema. Outro foi um coronel, que mantinha um apartamento para encontros com garotas de programas. O pessoal do jornal levava o material ali pra submete-lo ao seu crivo.

Muitas vezes o coronel conferia o material na praia, com uma turma de amigos. Jaguar conta que contrataram uma loura boazuda, que botava biquíni e ia levar as matérias e desenhos para o coronel. Passava muita coisa. Passava, mas o jornal podia ser apreendido nas bancas.

 Em novembro, com exceção de Millôr e Henfil, a cúpula do jornal foi apreendida. Passaram dois meses na Vila Militar. O jornal continuou circulando. Jornalistas, cineastas, escritores, desenhistas, num mutirão intelectual, ajudaram Millôr Fernandes a publicá-lo. Millôr, por sua vez, assinou artigos e fez desenhos emulando o estilo dos companheiros presos.

 Depois que deixou de ser trincheira contra a ditadura, O Pasquim foi perdendo importância. Sofreu diversas mudanças nos anos seguintes. No início da década de 80, alinhou-se à Leonel Brizola. Morreu em 1991, fazendo oposição ao governo Collor, mas acabou antes do ser aprovado o impeachment do presidente.

 

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