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Secos & Molhados no Recife: ''Um filme de terror''

Problemas com o palco, com os fãs e com a polícia

José Teles
José Teles
Publicado em 28/07/2019 às 9:56
Foto: Ary Brandi/Divulgação
Problemas com o palco, com os fãs e com a polícia - FOTO: Foto: Ary Brandi/Divulgação
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Os shows do Secos & Molhados quase todos foram conturbados. Realizados em estádios e ginásios superlotados. No Brasil de 1974, não havia estrutura para um fenômeno feito o S&M, que gerou uma espécie de beatlemania dos trópicos. Um dos mais dramáticos espetáculos do grupo aconteceu no Recife, no Geraldão, e é narrado em Primavera nos Dentes, em cores vivas pelo jornalista Miguel de Almeida:

 “Ao chegar no Recife, haviam se assustado com o urro das plateias, sentiram-se pela primeira vez realmente ameaçados pelo descontrole emocional de uma multidão de fãs. Já tinham sido arranhados, agarrados, quase estrangulados em beijos e abraços roubados e até quase violentados. Além de estar constantemente sob o olhar desconfiado das autoridades. No espetáculo de Recife, no entanto, foram salvos pelas forças policiais. O Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, o Geraldão, com suas galerias preenchidas por um público diverso, como sempre, da avo ao netinho, parecia estar com a lotação acima de sua capacidade.

Ainda antes do inicio do espetáculo, a policia havia tido problemas para conter o entusiasmo dos fãs, que insistiam em avançar sobre as áreas deixadas vazias para o escape. Soava tenso, mas ainda sob controle.

 Foi ao longo do show que os problemas se apresentaram. Não havia de fato uma estrutura adequada, só mais tarde descobririam. Tudo era de improviso: o palco eram dois praticáveis postos lado a lado. Sobre eles, o grupo deveria cantar.

ESTRUTURA

Os músicos só notaram o amadorismo da estrutura lá pela quinta canção – ninguém havia feito uma inspeção, porque não houvera tempo, do aeroporto correram para o ginásio, com rápida passagem pelo hotel. Conforme se movimentavam, o palco balançava inseguro. Parecia um problema contornável, ate que, sob o piano de Emilio Carrera, os praticáveis se separaram, criando um vão entre eles, dando ao musico a sensação de que em breve seria engolido pela cratera. Aquilo assustou a todos e, claro, limitou os movimentos da coreografia.

 O publico avançou, rompeu o cordão de isolamento montado pelos policiais, e o palco ficou balançando. A todo custo queriam se aproximar dos músicos, tocá-los. A tensão se agravou ainda mais após o termino do espetáculo. O delegado responsável rapidamente informou aos integrantes do grupo que todos ali corriam risco, a turba estava fora de controle. Ele aconselhou, de maneira sôfrega, que não fossem aos camarins – certamente seriam invadidos pelos fãs. Se isso ocorresse, algo grave poderia acontecer.

Deveriam sair dali de imediato. “Ouvi que não garantiriam nossa integridade física”, Ney conta. Ensandecida, a multidão avançou mais e derrubou algumas paredes. Precisavam abandonar o local, era urgente – gritaram os policiais.

 

Para escapar, Ney Matogrosso se viu dentro de um camburão da policia. Ainda com o figurino do show – maquiado, descalço, calção com franjas, pena na cabeça, colares e de peito nu. Ele estava com medo, agravado ainda pelo nervosismo dos guardas. Com as sirenes ligadas, não sem atropelo, deixaram o Geraldão.

 Mas a perseguição continuou. Chegando no hotel, todos foram surpreendidos por outro imenso grupo de fãs que correu em direção a viatura ao perceber, em seu interior, de olhos estalados e pintura borrada, a figura de Ney Matogrosso. Ao cruzar as portas do hall, fugindo da turba, as mangas de seu figurino ficaram presas na maçaneta. Foi quando o cantor sentiu o outro lado da fama. Aflito, desvencilhou?se rapidamente do enrosco e escapou ileso. “Foi horrível, tive muito medo”, conta.

Na manhã seguinte, outro sufoco. Os aeroportos brasileiros, em 1974, não tinham finger, de modo que os passageiros eram obrigados a caminhar pela pista ate o avião. A caminho do embarque, o grupo passou as pressas por um corredor polonês canhestramente feito por policiais. De repente, o humor havia mudado. Não se sabem os motivos, mas ali os guardas deixaram de protegê-los para xingá-los com muitos palavrões. “O melhor deles”, diz Ney, “falou ‘olha só, isso ai que e homem lá no Sul?’. Todos riam. "Foi um filme de terror.”

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