Atemporal

Milton Nascimento encanta com show do Clube da Esquina

Em uma apresentação cuidadosa, o artista lembrou porque sua voz e suas composições continuam poderosas e esperançosas

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 25/08/2019 às 14:29
Davison Nunes/JC Imagem
Em uma apresentação cuidadosa, o artista lembrou porque sua voz e suas composições continuam poderosas e esperançosas - FOTO: Davison Nunes/JC Imagem
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Algumas coisas, como os sonhos, na faixa Clube da Esquina 2, não podem mesmo envelhecer. Muito se falou e ainda vai se falar dos dois discos do Clube da Esquina, obras-primas da música brasileira, retratos ainda inacreditáveis da amizade e dos encontros como respiro diante do mundo e da repressão. Ouvir em 2019 as canções criadas por Milton Nascimento, Lô Borges e seus companheiros, no entanto, continua a soar como uma redenção, uma experiência singular de esperança, não importa o contexto ao redor.

No último sábado (24), no Teatro Guararapes, Milton fez uma apresentação marcante para um teatro completamente lotado, com ingressos esgotados semanas antes. Se a ideia do show é a permanência, marcada pela força das letras e melodias dos álbuns do Clube da Esquina, que sobrevivem no imaginário brasileiro há mais de 40 anos, é bonito também ver como Bituca é perene e hipnótico, mesmo com poucos gestos e palavras.

Em cima do palco, a postura de Milton é contida, quase tímida, com algumas poucas histórias narradas para o público. Se já anda com cuidado, ainda mantém uma voz inigualável, profunda. O repertório dispensa maiores apresentações: as composições fundamentais dos discos estão praticamente todas lá, mescladas em uma só narrativa musical, criada pelo filho do cantor, Augusto Nascimento, diretor artístico do espetáculo.

O Trem Azul, Tudo o Que Você Podia Ser, Um Gosto de Sol, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, Nada Será Como Antes, Cravo e Canela, Cais e Maria, Maria, entre muitas outras, integraram o cuidadoso show - a ampla maioria vem do primeiro disco do projeto. O violonista e guitarrista Wilson Lage é responsável pela boa produção musical da apresentação. Zé Ibarra, da banda Dônica, divide os vocais com Milton, cantando também duas canções sozinho.

REVERÊNCIA AOS PARCEIROS

Milton celebrou várias vezes seus parceiros. Contou histórias de Lô Borges, lembrou Fernando Brant, homenageou o amigo pernambucano Naná Vasconcelos, entre outros. Ao tocar a instrumental Lília, falou da sua mãe adotiva: “É uma música sem palavras porque não existem palavras que possam definir a beleza dessa mulher”.

Pelo menos duas músicas fugiram do repertório de Clube da Esquina, mas, obviamente, ninguém se queixaria de ouvir Paula e Bebeto (com o refrão mais essencial do que nunca, dizendo que “qualquer maneira de amor vale a pena”) e Ponta de Areia. Lembrar que estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo que Milton é como se dar conta de uma pequena dádiva: Milton e o Clube da Esquina ainda são um daqueles feitos absurdos, que parecem criar esperança só por existirem - afinal, um país que gerou artistas como ele não pode ser feito apenas de destruição e ódio.

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