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Sérgio Dias toca seu jazz amanhã no Parque Santana

Luis Carlini, ex-Tutti Frutti, toca como convidado

José Teles
José Teles
Publicado em 18/10/2019 às 14:11
Foto: Divulgação
Luis Carlini, ex-Tutti Frutti, toca como convidado - FOTO: Foto: Divulgação
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Sérgio Dias Baptista, paulistano crescido na Pompeia, estava com 17 anos quando a banda em que tocava com o irmão e uma amiga foi convidada por um cantor baiano para participar de um festival de MPB. Não tinha ideia em que estava se metendo. A banda se chamava Mutantes, formada por ele, Arnaldo Baptista e Rita Lee. O cantor baiano, claro, era Gilberto Gil. Depois daquela noite de 1967, a música popular brasileira jamais seria a mesma. Instalou-se ali uma revolução, feita com uma arma temida pelos que queriam a MPB estática: a guitarra. E quem a empunhava era o adolescente dentuço Serginho.

Cinco décadas depois, ele aterrissa, amanhã, no Parque Santana, em Casa Forte. É uma das atrações da quinta edição do Festival BB Seguros de Blues e Jazz, num show que promoverá o raro encontro, no palco, com outra lenda da guitarra brasileira, Luís Carlini, colega de infância e de bairro de Sérgio, ex-integrante do Tutti Frutti, que tocava com a ex-Mutante Rita Lee. Os que vão assistir a Sérgio Baptista com a expectativa na fase dos Mutantes não esperem canções da banda. Quem estará no palco do Parque Santana é Sérgio Dias: “Minha música é a minha música, não vou tocar Balada do Louco nem nada disso. O nome que está escrito lá é Sérgio Dias, não é os Mutantes. Agora, acho que ninguém vai ficar decepcionado, porque a banda é uma porrada. Toco com um pessoal de Sorocaba. Com Luís Carlini toco Sleepwalk (clássico do rock instrumental da dupla Santo & Johnny) e Surrender, do álbum Mind Over Matter, a única em que vou cantar”.

PROPOSTA

“Vou tocar muito jazz, uma faceta que vocês não conhecem. Algo que desenvolvi quando estive em Nova Iorque. Fiquei dez anos lá, vendo todos os melhores músicos de jazz. Toco algumas músicas que gravei num disco de edição limitada, nunca foi realmente lançado, o Sérgio Dias Jazzmania Alive. Fiz quatro noites no Jazz Mania, gravei todas. Ficaram lá esquecidas. Tive um problema no braço, então, como não tinha o que fazer, fui mixar o disco”, adianta Sérgio, citando disco lançado em edição limitada em 2003.
Mas o show no Recife não é seu único projeto no momento. O repertório do mesmo Jazz Mania o levou ao casal Flora Purim e Airto Moreira, com quem ele tocou muitas vezes pelos EUA. “Talvez faça um disco com a Flora Purim, tocamos muitos anos juntos. Ela não conhecia este meu trabalho, ouviu e gostou muito. Convidei pra fazermos um disco. Ela topou, vou ter que começar a compor. Fizemos muita coisa, eu, ela e Airto. Nunca vi alguém como ele. No meio do show, ele fazia um solo de pandeiro durante 15 minutos e era aplaudido de pé. Fazia um solo de surdo, aplaudido de pé, incrível”.

Entre as lendas urbanas que giram em torno dos Mutantes, há uma que versa sobre a desavença entre os irmãos Baptista por conta de marcas de guitarras. Um prefere Gibson, outro, Fender. Sérgio nega que tenha queda por este ou por aquele fabricante. A guitarra com a qual vai tocar no Recife é assinada apelo luthier Lee Garcia, uma Kier, inspirada na lendária Regulus, fabricada por seu irmão Cláudio Baptista, nos anos 60, que empregou até ouro na confecção: “Não tenho preferência por marcas. Cada instrumento tem uma vida, uma alma. Esta que Lee fez pra mim, pqp, estou apaixonado. Meu Deus como poderia definir esta guitarra? Ela tem um circuito de quatro distorções dentro, volume e tonalidade, dois captadores Humbucker, o som dela é mais fat, mais gordo, O braço é que é inacreditável”, diz Sérgio.

O músico tampouco diz se preocupar com o propalado desprestígio das guitarras na música popular,
substituídas por progamações, pelos teclados que evoluem constantemente. “Até hoje não conseguiram fazer nada que chegasse perto da guitarra. Não existe um programa, um plug-in, alguma coisa, que tenha a mesma expressão”, enfatiza ele, que surpreende ao revelar seu guitarrista predileto: “Meu preferido é George Harrison. Não tem um solo dele que não seja igual, ou melhor, que a música em que ele está solando. Não tem um solo que você não assovie de cor. Eu vi George ao vivo, mas, infelizmente, não o conheci. Na época em que estudava cítara com Ravi Shankar, ele me convidou para ir com ele à Índia. Eu, idiota, não fui, estava com os Mutantes, em viagens, shows, por causa dessas burrices não fui. Poderia ter encontrado o George. Porém, de qualquer maneira, é bom ter ídolos”.

MUTANTES

No ano passado, foi lançada Black and Grey, parceria de Sérgio Dias com a cantora inglesa Carly Bryant, canção com alvo certo e sabido, o presidente Donald Trump. O que o deixa em situação sui generis. Com dupla cidadania, brasileira e americana, Sérgio vive sob duas presidências, e não lhe agrada nem uma, nem outra, tanto que atualmente está vivendo em Paris. “Na verdade, não sei onde diabo eu moro, juro por Deus. Quando escrevi Cidadão da Terra eu não sabia disso (a canção, de 1991, tem os versos: Não sou daqui nem sou de lá/Eu sou de qualquer lugar/Meu passaporte é espacial/Sou cidadão da terra”). Estou convivendo com dois presidentes tudo da mesma laia, são iguais”.

Carly Bryant entrou para os Mutantes, mas ela e Sérgio gravaram um disco dos dois, Close, que está na agulha para ser lançado. “Está tudo pronto, capa, músicas gravadas, encaminhado. Sai no mundo inteiro em dezembro, vinil, digital, e CD, chama-se Colour”.
Por conviver com o peso do mais importante grupo do rock brasileiro, uma referência internacional, é natural que o guitarrista não aguente mais responder as mesmas questões sobre Os Mutantes do passado. Mas, do grupo Mutantes do presente, ele fala sem restrições.

Já há alguns anos a banda Os Mutantes é formada por Esméria Bulgari, Vinicius Junqueira, Henrique Seixas, Claudio Tchnerv, Sérgio Baptista e Carly Bryant. Um disco de nome aparentemente enigmático foi gravado: Zzyzx Road é a saída de uma autoestrada que leva a Los Angeles: “Quando voltar do Recife, vamos tirar fotos para o lançamento. Logo vamos ensaiar o show, com músicas do disco novo, que foi gravado no meu estúdio em Las Vegas”.

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