Disco

Francis Hime celebra os 80 anos com disco de inéditas

Um autor de muitos clássicos e múltiplos parceiros

José Teles
José Teles
Publicado em 17/11/2019 às 8:49
Foto: Nana Moraes/Divulgação
Um autor de muitos clássicos e múltiplos parceiros - FOTO: Foto: Nana Moraes/Divulgação
Leitura:

Francis Victor Walter Hime, carioca, compositor, arranjador, pianista e engenheiro mecânico (o detalhe mais inusitado de sua biografia) aniversariou em 31 de agosto e, desde então, vem comemorando a data. Merecidamente. Ele chegou aos 80 anos com uma das obras musicais mais consistentes e importantes da música brasileira, entre o popular e o erudito. Discreto, ele está festejando em grande estilo, e com um disco de inéditas nas lojas, físicas, e digitais. O título: Hoje, com selo da Biscoito Fino.

Um álbum que não estava previsto para 2019. “Este disco foi resolvido a toque de caixa, não estava pensando em fazer este ano. Quando foi em abril, acordei com uma música na cabeça. Normalmente, quando você acorda esquece a música. Peguei o celular e, meio sonolento, gravei a melodia. Dias depois recebi um poema de Tiago Torres da Silva, um poeta português. Mandou para que eu o musicasse”, conta Francis Hime. Ele usou o poema na melodia que nasceu de um sonho, as duas se encaixaram. Foi batizada de O Tempo e a Vida.

 “A partir daí resolvi fazer outras canções. Mandei melodias para os parceiros, em dois meses as músicas estavam prontas. Comecei a gravar em julho. Foi um processo muito rápido. Incrível, porque essas coisas sempre levam tempo. Tem que esperar chegar a letra do parceiro, fazer arranjo, convocar os músicos, fiquei muito feliz porque fiz as canções com muitos parceiros, esta diversidade me estimula muito”.

Em relação aos parceiros, Francis Hime é de uma saudável e requintada promiscuidade. O primeiro deles foi Vinicius de Moraes, em 1963, com quem assina várias canções, depois chega junto de Ruy Guerra. Em 1969, como quase todos os grandes nomes da MPB, foi para o exterior, no seu caso, os EUA, estudar composição, orquestração e trilhas para filme com nomes feito Lalo Schifrin, David Raksin e Paul Glass. Francis só estreou em disco solo quando voltou ao Brasil, em 1973. Francis Hime, o disco de estreia, abre com um clássico instantâneo. Atrás da Porta, que iniciaria a série de parcerias que faria com Chico Buarque.

Praticamente tudo que os dois compuseram entrou pra o cânone da música popular brasileira. Eis algumas delas: Meus Caros Amigos, Passaredo, Vai Passar, A Noiva da Cidade, Trocando em Miúdos, Luísa, Pivete, Amor Barato. As parcerias com Chico podem ser as mais marcantes, mas Francis Hime assina clássicos com nomes que vão de Gilberto Gil a Milton Nascimento, Cacaso, Edu Lobo, Ivan Lins.

PARCEIRA

 A parceria mais constante e antiga, porém, é com sua mulher, Olivia Hime. O casal bate recordes de vida a dois. Estão juntos há 54 anos: “Começamos a namorar em 1965, mas só casamos no papel em 1969. A gente trabalha muito juntos. Ela produz discos meus, eu produzo discos dela. É a primeira pessoa que escuta minhas músicas. Quando acabo uma, vou correndo mostrar pra ela. Ela se tornou minha parceira primeira, é uma letrista excepcional, tem uma capacidade de descobrir o que está contido numa determinada música.Olívia é uma parceira muito especial, na carreira e na vida. Me deu três filhas, quatro netas”.

 A neta mais nova, Laura, de dois anos, ganhou música dos avós em Hoje, e um intérprete especial para ela: Chico Buarque, que neste disco não compôs com Hime: “Para este disco não pensei em parceria com ele, não. Quis que cantasse a música que nós fizemos, eu e Olivia, para nossa neta mais nova. Luísa, a mãe dela, é afilhada do Chico. Tinha tudo a ver ele cantar Laura. Chico chegou no estúdio achando que a gente ia cantar juntos, como aconteceu com Luísa, música que fizemos em parceria. Eu disse pra ele cantar sozinho, pra música ficar mais bonita”, explica Francis. A canção Luísa, feita para a mãe de Laura, está no segundo disco de Francis Hime, Passaredo, de 1977.

CENSURA

 Em 1984, com os militares arrumando as malas para voltar à caserna, Francis Hime e Chico Buarque criaram um hino para a celebrar a iminente chegada da democracia, Vai Passar, em estilo de samba-enredo, um sucesso no país inteiro. Até 1979, suas letras precisavam ser submetidas a censores, que decidiriam se seriam liberadas ou vetadas. Às vezes cismavam com alguma palavra, descobriam mensagens veladas, o que obrigava o autor a viajar a Brasília para tentar fazer o funcionário da censura mudar de ideia.

Quatro décadas depois do fim da censura prévia, Francis Hime confessa estar apreensivo com sua volta. “Acho que a gente vive uma época muito difícil, de muitas incertezas. Quem diria que a gente iria passar por isso de novo, com ameaça de volta da ditadura, com a censura já existindo em várias atividades. A cultura está sob ataque, este governo não gosta de artistas. Vivemos tempos difíceis, mas tenho esperança que as coisas vão mudar. Vai Passar continua atualíssima. Mas a política sempre foi uma coisa cíclica. Acredito muito no povo brasileiros, que é muito melhor do que a sua elite”.

DISCO

 Hoje é uma coleção de doze canções com a marca do refinamento de Francis Hime. Seus parceiros no disco são Geraldo Carneiro, Paulo César Pinheiro, Olivia Hime, Adriana Calcanhotto, Thiago Amud, Hermínio Bello de Carvalho, Tiago Torres da Silva, Ana Terra e Silvana Gontijo. Ele reuniu também uma constelação dos melhores músicos de estúdio do Rio. Jessé Sacod (trompete), Marcelo Martins (sax alto), Paulo Aragão (violão), Jorge Hélder (contrabaixo). “Fiz os arranjos pensando nos músicos que traria para o disco”, revela Francis,

Além de Chico Buarque, Olivia Hime, de Francis Hime (que canta na maioria das faixas), Hoje tem as vozes de Sérgio Santos, Adriana Calcanhotto, e de Lenine, que teve o privilégio de cantar O Tempo e a Vida, a canção do sonho que desencadeou o processo de criação do álbum: “Lenine está sempre no meu radar, um dos melhores músicos do Brasil, vai pro rock, pra MPB, vai pra canção. Ele gravou algumas músicas minhas e me disse que a gravação de Atrás da Porta foi das mais emocionantes que já fez. É um craque, quero sempre tê-lo por perto”.

Últimas notícias