Frevo

Chuva de Sombrinhas completa vinte anos de sucesso no Carnaval de Pernambuco

Um frevo inovador que foi composto por acaso

José Teles
José Teles
Publicado em 12/01/2020 às 10:31
Foto: Léo  Motta/JC Imagem
Um frevo inovador que foi composto por acaso - FOTO: Foto: Léo Motta/JC Imagem
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O maior sucesso do Carnaval de Pernambuco nos últimos vinte anos, Chuva de Sombrinhas, nasceu por acaso, no Estação do Som, um estúdio. Localizado na Madalena, espécie de escola para uma geração de técnicos, músicos e intérpretes do Recife. “Era o reduto da música pernambucana, dos anos 90 pros anos 2000. Ali Alceu, por conta do maestro Tovinho, ancorava sua banda. Muitos e muitos músicos gravavam lá. Estava fazendo o disco Farol de Olinda, estava quase pronto, quando, uma tarde, o produtor Léo Dim me disse que deveríamos botar um frevo. Fui pro quintal, e compus a música de uma vez só. Saiu a música e o refrão, a imagem de chuva de sombrinha, e os 40 graus de Vassourinhas. Uma frase que eu sempre gritava no Galo. Estas imagens ficaram na minha cabeça. Compus o refrão”, explica o cantor e compositor André Rio, um dos autores de um dos maiores hits do desfile do Galo da Madrugada e do Carnaval pernambucano, um frevo que faz sucesso há 25 anos.

 Depois de criar o refrão, André pensou começo a escrever “uma linha de homenagem”. “A gente estava num hiato muito grande em relação ao frevo. As pessoas não estavam querendo ouvir os mestres. Então cito as orquestras, cito maestro Duda, que estava meio adormecido na memória popular, Alceu, Antonio Nóbrega, os passistas, o coco de Selma, a ciranda de Lia (de Itamaracá), o passo da ema e a cobra da troça de Antúlio Madureira. Nena fazia vocais comigo neste disco. Eu a chamei pra terminar a letra. Já num outro momento, quando eu continuava lapidando a música, encontrei Beto Leal num bar, ele me deu importante colaborações poéticas. Chuva de Sombrinhas acabou sendo de nós três”, explica André Rio, sobre a origem da música.

PARCEIROS

 Beto Leal, advogado, casado com Carla Rio, irmã de André, vem de uma família de muita música. O pai Carlos Alberto liderava um grupo na época da Jovem Guarda recifense: “Minha família por parte de mãe era do teatro e da música. O pai da minha mãe, Alfredo de Oliveira, era irmão de Valdemar de Oliveira. Ela era bailarina. Fui morar criança no Rio, voltei em 1998, mas a amizade com André Rio nunca foi interrompida. Fizemos outras músicas, mas em Chuva de Sombrinhas minha coautoria diz muito da generosidade de André. Eu estou sempre muito próximo do processo criativo dele. Ele trabalha com uma caderneta, que risca e rabisca. Nesta música eu fui uma espécie de revisor, dei sugestões de palavras que se ajustavam mais à melodia, e ele me incluiu na parceria”.

André Rio, cujo pai Alírio Moraes, foi compositor (o irmão, também Alírio, faz música, porém a maioria deixa na gaveta), a irmã Carla é cantora, cultiva uma amizade de décadas com Nena Queiroga, cuja família é também extremamente musical. Ela é filha do compositor Luis Queiroga e da cantora Meves Gama, de grande sucesso no rádio e TV tanto no Recife quanto no Rio nos anos 60 e início dos 70. Os Queirogas artistas são tantos que formam um bloco badalado do Carnaval, A Queirogada, que reúne três gerações da família. Sobre sua parceria em Chuva de Sombrinhas, Nena atribui o grosso da música a André Rio: “Ele encabeçou isto de valorizar coisas que só há aqui. Rio de passos e chuva de sombrinhas para valorizar a dança, representada pela sombrinha. As pessoas somente começaram a entender da minha parceria quando fui homenageada no Carnaval de 2018”, comenta Nena Queiroga, que polemizou unindo Chuva Sombrinhas com o passinho do grupo Passinho S.A, de Santo Amaro, e a drag queen interpretada pelo ator Reyson Santos.

Chuva de Sombrinhas não é apenas mais um frevo a entrar para o repertório de clássicos do gênero. Ele já inova na letra evocativa, uma característica dos belos, embora melancólico, frevos de bloco. A letra do frevo Chuva de Sombrinhas, de André Rio, Nena Queiroga e Beto Leal é uma panorâmica do Carnaval pernambucano. Vai das orquestras, dos passistas aos mestre do passado e do presente, maestro Duda, Alceu Valença, Antonio Nóbrega, Marrom Brasileiro, Lia de Itamaracá e dona Selma do Coco. Mas sem melancolia, e com um refrão simples e irresistível: “A que calor, ô ô/ que calor, ô ô”.

REFRÃO

André Rio concorda que o refrão contribuiu muito para o sucesso da música: “Acho que ela pegou por conta disto. Ele vai crescendo, pegando corpo, começa em tom menor, tem refrão apoteótico, vai falando da pernambucanidade, destes orgulho dos nossos elementos culturais. As pessoas cantam com força, apostando naquilo que está dizendo, falando com orgulho de Nóbrega, Dona Selma, Alceu. A música rompeu fronteiras, a gente canta ela pelo mundo todo”.

As inovações de Chuva de Sombrinhas vão além da letra, mexem na própria estrutura do frevo, que foge da tradição do frevo-canção, que por muito tempo foi aparentada com a marchinha carioca. A partir de Carlos Fernando e J. Michiles que elas se distanciam da música carnavalesca do Rio. André Rio conta como foi as manobras de estúdio para se chegar a Chuva de Sombrinhas tal como a conhecemos:

 “Foi toda concebida e gravada por Leo Dim, engenheiro de som da Estação do Som que era o mais importante da época, com o da Somax. Tovinho participou, obviamente, até porque era o dono do estúdio. O arranjo foi feito por maestro Spok e Enok Chagas (trompetista da Spokfrevo Orquestra). Na verdade fizemos o arranjo a três. Foi feita com tanta inspiração que não houve arranjo escrito. Eu dizia a frase, Enok abria os metais, e Spok os saxes. Na época, os dois tocavam na minha banda”, conta André.

Outra novidade foi na percussão, explica pelo cantor: “Quando comecei a gravar a música, meu baterista era Tostão Queiroga, hoje no grupo de Elba Ramalho, que tocou comigo durante dez anos. Pensamos numa levada de frevo, com colaboração de outros instrumentos. Criamos uma batida de caixa, com chimbal e pedal, que chamamos de cavalo doido. Soava quase feito um caboclinho. Depois convocamos o percussionista, então quase um menino, o hoje conhecidíssimo Lucas dos Prazeres. Disse a ele para botar, junto com o ritmo do frevo, uns tambores de maracatu, e um pandeiro fazendo uma levada do caixa. Fizemos uma miscigenação absurda da cultura afro, que virou referência. Porém era uma coisa inspirada em Carlos Fernando, mestre na formação musical da gente. Carlinhos era inspirador, gostava de misturar elementos. Não fizemos nada novo, seguimos os ensinamentos dos mestres, ao juntarmos caboclinho, maracatu e frevo”.

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