Carnaval 2020

Conheça o frevo eleito o mais terrível do Recife; troféu foi um galeto completo

Finalíssima do concorrido festival aconteceu no Terra Café, com uma plateia entusiasmada, formada por amigos e parentes dos concorrentes

José Teles
José Teles
Publicado em 31/01/2020 às 17:41
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Foto: Laura Proto/Divulgação
Finalíssima do concorrido festival aconteceu no Terra Café, com uma plateia entusiasmada, formada por amigos e parentes dos concorrentes - FOTO: Foto: Laura Proto/Divulgação
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Atualizada às 20h49

Repetindo o que aconteceu há 54 anos, quando O II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, teve o primeiro lugar dividido entre Chico Buarque (A Banda), e Geraldo Vandré e Théo de Barros (Disparada), o I Festival de Frevos Terríveis, do Recife, foi vencido por dois autores, ou melhor, uma autora, Linda Nogueira, com É Pra Se Lascar, e Adalberto e Chico Limeira (este vindo de João Pessoa), com Bloco Paia, ambos marchas-de-bloco.

A finalíssima do concorrido festival aconteceu no Terra Café, na Boa Vista, com uma plateia entusiasmada, formada por amigos e parentes dos concorrentes. As outros finalistas foram Bom d’Água com Xixi, de Cristiano Bastos, Etezinha, de HVB e Fábio Liberal, Piratas do Mar, de Romildo Barreto. O vencedor ganhou um galeto completo.

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aqui ainda de ressaca e em êxtase total por tudo que rolou ontem no I Festival de Frevos Terríveis e ainda mais por "É pra se lascar" ter sido premiado em 1° lugar junto com "Bloco Paia" de @adalberto__t e @ochicolimeira ? No vídeo cantando meu frevinho junto com a maravilhosona @orquestramalassombro bêbada, feliz da vida e errando a minha própria letra hahahahah brigada a todo mundo que foi, que torceu e vibrou junto! ????? brigada a @anilinaproducoes @meryta.lemos por realizar um festival tão necessário pra esse nosso tempo e pra quem ta curioso, segue a letra: . . . as vezes o recife é uma ressaca de domingo sem um gole d'água pra tomar caio na calçada, viro copo, dou perdido em quem tenta me encontrar recife tem leveza de passista que arrasa e o cachê do artista que todo santo ano atrasa no carnaval um frevo saudosista faz chorar enquanto um camarote rouba tudo que é lugar recife é sombra fina de poste na parada que o trabalhor se encosta pra esperar será que ele notou esse meu cheiro de cachaça? será que o cobrador não tinha troco pra me dar? é predio estuprando a praça é pra se lascar é dor apertando a massa é pra se lascar recife vez ou outra me obriga a beber e eu termino logo de virote no rolê na volta da janela eu só vejo coisa errada e a vida continua meio assim como se nada o que eu queria agora era curar essa ressaca mas até o dorflex que eu tomo terminou melhor dormir pra ver se eu esqueço toda raiva recife eu te amo, mas você nunca me amou é predio estuprando a praça é pra se lascar é dor apertando a massa é pra se lascar

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Todas as composições foram interpretadas pela Orquestra Malassombro, e o MC do festival foi o não menos assombroso Jr.Black, que empregou toda sua imensa coleção de adjetivos para apresentar os concorrentes e a comissão julgadora, formada por José Teles, crítico desde JC, Silverio Pessoa, Naara Santos, Carmem Lelis e Amaro Freitas, com produção de Mery Lemos e Juliano Holanda.

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Os três frevos de bloco, e dois frevos canção (embora bastante puxados para a marchinhas carioca), passaram por longe da tradicional temática carnavalesca pernambucana, ou seja, a nostalgia, lembrança de um passado cada vez mais distante, ou a autorreferência ao frevo. A letra de Bloco Paia (“Paia” na gíria pernambucana ou paraibana, significa “chinfrim”, ou “peba”),criticou a ausência de novos sucessos na folia de Momo: “Como é que pode carnaval em sucesso?/Tocar um frevo feito sem inspiração/um avião levantar sem turbina/me engasguei com purpurina; e baixou minha pressão”.

Já É Pra Lascar, a outra vencedora critica o modelo adotado para o Carnaval da capital pernambucana: “Recife tem leveza de passista que arrasa/e o cachê do artista que atrasa/no carnaval um frevo saudosista faz chorar/enquanto um camarote rouba tudo que é lugar”. As letras, como era de se esperar em temporada de polarização, também enveredarem pela política, como foi o caso de Bomba d’Água com Xixi: “E a La Ursa não quer só dinheiro/quer juntar o povo inteiro/E a la Ursa quer juntar gente/pra derrubar o presidente”.

Cante o frevo 'É Pra Se Lascar'

"As vezes o recife é uma ressaca de domingo
sem um gole d'água pra tomar
caio na calçada, viro copo, dou perdido
em quem tenta me encontrar
Recife tem leveza de passista que arrasa
e o cachê do artista que todo santo ano atrasa
no Carnaval um frevo saudosista faz chorar
enquanto um camarote rouba tudo que é lugar

Recife é sombra fina de poste na parada
que o trabalhador se encosta pra esperar
será que ele notou esse meu cheiro de cachaça?
será que o cobrador não tinha troco pra me dar?

é prédio estuprando a praça
é pra se lascar
é dor apertando a massa
é pra se lascar

Recife vez ou outra me obriga a beber
e eu termino logo de virote no rolê
na volta da janela eu só vejo coisa errada
e a vida continua meio assim como se nada

o que eu queria agora era curar essa ressaca
mas até o dorflex que eu tomo terminou
melhor dormir pra ver se eu esqueço toda raiva
recife eu te amo, mas você nunca me amou

é prédio estuprando a praça
é pra se lascar
é dor apertando a massa
é pra se lascar"

Prêmio foi um galeto completo

A comissão julgadora reuniu-se para confabular sobre quem seria o autor do frevo mais terrível. Não foi fácil. Primeiro porque toda as músicas têm bom nível, depois porque ninguém se lembrou de traçar critérios para a premiação. Nada de notas para música,nota para a letra. Se o festival era de frevo, marchinha poderia levar o prêmio? Não houve premio para o Melhor Intérprete porque, como já foi ressaltado, as concorrentes foram interpretadas por Sonia torres, Audrey e Clara Torres, vocalista da Orquestra Malassombro. Tampouco, como acontece nos festivais de frevo normais, não se premiou o Melhor Arranjo, porque que escreveu tudo foi o maestro Rafael Marques.

As cinco finalíssimas talvez cheguem a circular pela web, a produtora Anilina, promotora do festival, não teve patrocinadores, foi preciso uma vaquinha entre seus integrantes para adquirir o galeto ofertado ao primeiro lugar. Depois de muita discussão, mas na santa paz, os membros da comissão julgadora, repassaram alguns detalhes das músicas. O pianista Amaro Freitas, valendo-se dos seus conhecidos acadêmicos apontou falhas harmônicas, tríades mal encaixadas em determinado frevo, e no final chegou-se a um consenso. A dois consensos.

As duas canções que se consagraram e sagraram-se vencedores mereciam dividir o suculento prêmio
A decisão foi aceita pelos concorrentes, pelos vencedores, claro, e pela plateia. O galeto foi fraternalmente dividido entre os três autores ganhadores, No final das contas, a produção confirmou que os objetivos do I Festival de Frevos Terríveis conseguiu seu objetivo, sair do convencionalismo de outros festivais, e afastar o frevo da sisudez e do tradicionalismo.

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