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Discobertas relança todos os discos do FIC

Em 14 CDs um capítulo importante da música brasileira

Do JC Online
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Publicado em 25/11/2012 às 6:00
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A Discobertas, pequeno mas implacável selo carioca, joga no mercado, de uma só tacada, duas caixas com todos os álbuns e compactos com músicas lançadas no Festival Internacional da Canção, realizado de 1966 a 1972. O gancho foi o sétimo e último FIC, também o mais conturbado de todos os festivais acontecidos no País. O FIC, promovido pela TV Globo, era dividido em duas partes: uma nacional e outra internacional, mas o que interessava mesmo era a fase nacional. Foi uma época em que a MPB dominava a TV brasileira. Bossa-novistas, emepebistas e a turma do iê-iê-iê, todo mundo passou pelos palcos dos festivais.
Estes 14 CDs são não apenas a história musical do FIC, mas um capítulo importante do País, marcando também a transformação do gosto do público. No FIC acontece a transição entre um tipo de música e de interpretação que vinha da era do rádio. No CD do primeiro festival ainda figuram entre os jovens Taiguara, Elis Regina e Wilson Simonal nomes oriundos de décadas anteriores: Stelinha Egg, Lana Bittencourt, Claudette Soares (a ex-Princesinha do Baião). O formato prima pela formalidade. Abre e fecha com orquestras (o encerramento é com a Tabajara, do limoeirense Severino Araújo). A vitória no primeiro FIC foi dos novos Dori Caymmi e Nelson Motta, com Saveiros. A mudança de guarda começava a se processar às vistas de uma plateia ainda bem-comportada.
O produtor Marcelo Fróes, da Discobertas, conta que a maior dificuldade em relançar os álbuns, foi sobretudo conseguir os fonogramas: “O maior trabalho foi localizar editoras das músicas e alguns intérpretes. Tive que publicar edital por três dias em jornal”, Fróes conta que alguns artistas, depois dos discos lançados, o procuraram para dar os parabéns. Um desses foi Alceu Valença. No FIC de 1969, ele participou com uma canção intitulada Acalanto para Isabela: “Alceu ficou muito feliz porque nunca mais tinha ouvido a música. Hermes de Aquino e Cláudia também conversaram comigo sobre o relançamento”, continua Marcelo Fróes. O produtor e radialista (diretor da Nova Brasil FM) Zé Renato, hoje morando no Recife, ficou surpreso com os relançamentos e ansioso em adquiri-lo. Ele participou da segunda edição do FIC como integrante do Grupo Manifesto, talvez o emblemático da era dos Festivais.
O Grupo Manifesto defendeu Margarida, de Gutemberg Guarabyra, um dos seus integrantes. Margarida foi a vencedora da fase nacional do FIC. Chegou empatada com Travessia (Fernando Brant/Milton Nascimento) e com Carolina (Chico Buarque): “Quem deu o voto a favor de Margarida foi Ricardo Cravo Albin, o presidente da comissão julgadora.
“O grupo começou por acaso. Eu tinha escrito um musical com Paulo Coelho, de Chiquinha Gonzaga à bossa nova. Como a gente não lia música fomos procurar um cara que tocava piano, Mariozinho Rocha, depois veio Guto Graça Mello, Gracinha e Fernando Leporace, e mais alguns amigos e amigas. Depois dos ensaios a gente ia para um barzinho no Leblon. Um dia estávamos lá e chegou Guarabyra perguntando se a gente topava defender uma composição dele no festival. Topamos, e assim surgiu o Grupo Manifesto”, lembra Zé Renato.
Margarida, que concorreu ao segundo FIC, em 1967, embora tenha caído no esquecimento, foi uma das canções mais bem-sucedidas dos festivais. Virou nome de gripe do verão e inspirou a marchinha Apareceu a Margarida (João Roberto Kelly/Augusto Melo Pinto), grande sucesso do Carnaval de 1968. A caixa 1 traz duas versões de Margarida, uma com Guarabyra e o Grupo Manifesto e outra com a cantora Maricene Costa (que também gravou Travessia).
Por diversos motivos, o mais comum era o artista pertencer a outra gravadora (a maioria dos discos do FIC foram lançados pela Odeon/Sigla). As concorrentes por vezes lançavam um LP inteiro com as músicas vencedoras do festival, com outros intérpretes. A polêmica Caminhando(para não dizer que não falei de flores), composta e defendida por Geraldo Vandré, no III FIC, teve várias gravações diferentes em disco de festival. Em compacto simples (Chantecler), com a cantora nissei Rosa Miyake; em compacto duplo com Os Vocalista Modernos, com Eliana Pittman. Com o próprio Vandré, na época, saiu em compacto.
Como Caetano Veloso pertencia à Phillips (atual Universal Music), a polêmica É proibido proibir, no LP da Odeon (este da caixa da Discobertas), é interpretada por Rosa Marya Colin, atriz e cantora que tinha pouco a ver com tropicalismo (ela se tornou conhecida anos depois ao gravar California dreamin para um comercial de TV). Essas situações inusitadas eram bastante recorrentes. A cabeça, uma das canções mais discutidas da era dos festivais, defendida no VII FIC por seu autor, Walter Franco, foi lançada, no LP da Odeon, com o mineiro Eustáquio Sena. Por sua vez, Mande um abraço pra velha, participação final dos Mutantes em festivais da canção, está na caixa 2, com o Coral Som Livre. Os Mutantes na época eram contratados da Phillips.
AS duas caixas são documentos preciosos também do momento político do País. As quatro últimas edições aconteceram sob o tacão dos coturnos, amparados no poder ilimitado do AI-5. Nota-se pois letras nas entrelinhas, ou a alienação pura e simples, em canções que mesmo ganhadoras sumiram na história da MPB. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Cantiga por Luciana (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós), vencedora do IV FIC e defendida por Evinha, que estreava carreira solo (ficou conhecida no Trio Esperança). Na caixa 2 tem uma versão desta canção com o Okey 5, um grupo que gravava na Som Livre. A partir de 1969, as estrelas surgidas nos festivais anteriores, tanto no FIC quanto no Festival da MPB da TV Record, desistiram de participar. Abriram assim o caminho para jovens como Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Alceu Valença, Sirlan, Ivan Lins.
As canções também nunca foram tão festivalescas, razão de terem caído no esquecimento, mesmo quando vencedoras. Apenas um revival da black music brasileira, dos anos 70, fez com que a fraca BR-3(Antônio Adolfo/Tibério Gaspar), defendida por Toni Tornado, ainda seja lembrada.

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