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Um show em que popularidade rima com qualidade

Marisa Monte deslumbra plateia com música e imagens

Do JC Online
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Publicado em 18/01/2013 às 12:55
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Até meados dos anos 60, nos shows de música, o artista reinava absoluto no palco. Luzes apenas para iluminá-lo e à banda. Foi Andy Warhol, com o Velvet Underground, principalmente, em 1966, quem começou a tornar um show um complemento de uma experiência estética, o Exploding Plastic Inevitable. Daí em diante, a música pop não se desvinculou de luzes, efeitos especiais, fumaça artificial no palco. O que não acontece com a música erudita, ou com o jaz (com as exceções de praxe).
Verdade, uma ilusão, o show que Marisa Monte e banda apresentam até amanhã, no Teatro Guararapes, é uma experiência visual que deixaria Andy Warhol feliz ao constatar até onde suas ideias chegaram, Ou tal vez não. Marisa Monte é a mais perfeita cantora pop do país. Sua voz está cada vez melhor, mais clara, de emissão sem nenhum esforço. Movimentos de palco precisos, de uma elegância rara. Porém em alguns momentos, a artista torna-se complemento das imagens projetadas no palco (baseadas em trabalhos de vários artistas plásticos brasileiros). Talvez seja este o conceito. É o que acontece em ECT, em que homenageia Cássia Eller. Em outras, as imagens são dispensáveis, até porque Marisa, e azeitadíssima banda e quarteto e cordas, que a acompanham dispensam complementos. A banda, por sinal, porta-se com a mesma elegância da cantora, com uma fleuma invejável (sobretudo Lúcio Maia e Dengue, com trajetória mais roqueira e performática. Com Pupilo, os três do Nação Zumbi que Marisa Monte chama de “power trio”). Uma sugestão: os músicos poderiam estar mais afastados um dos outros, há espaço de sobra no imenso palco do Teatro Guararapes. De alguns ângulos o tecladista Carlos Trilha fic meio encoberto por Lúcio Maia
Ver Marisa Monte aplicar efeitos visuais para cada canção, como uma compilação de clipes, lembrou-me da passagem recente de Brian Eno, pelo Rio. Ele decorou os Arcos da Lapas com projeções de 77 milhões (sic) de imagens, combinadas com som. Ou seja, um show com criador, mas sem artista diante da plateia. No também recente How music works, de David Byrne (livro obrigatório para músicos e quem trabalha com música), há capítulos dedicados a shows. Num deles Byrne comenta: “Tenho ido a apresentações, geralmente de música pop, onde o desejo do artista em agradar a plateia torna-se parte integral do espetáculo e, eventualmente, são tão maçantes, que acabo por não prestar mais atenção na música”.
Não é o caso de Verdade, uma ilusão, que não é maçante, em momento algum de seus 120 minutos. No entanto, a profusão e imagens tem instantes over. Por vezes interage bem como o conceito do espetáculo, feito acontece quando Marisa Monte canta a música que deu título ao show. A projeção cai sobre ela, cujo corpo assemelha-se a um objeto holográfico. Num dos mais belos trechos do espetáculo. E aí o repertório. Marisa Monte parece querer responder à pergunta de Paul McCartney, em Silly love songs(1976). Canções bobinhas de amor, que mal há nisso? Nenhum, se quem as canta for Paul McCartney, ou Marisa Monte. Amor i love you, com direito à declamação de trecho do Primo Basílio, de Eça de Queiroz, por um rapaz da plateia, ou Minha velha infância, o extremamente pop hit tribalista.
Ela equilibrou o show com hits, canções do novo disco, O que você quer saber de verdade. Um bom show é aquele em que se sente que o artista não está apenas divertindo o público, mas está igualmente se divertindo. Marisa Monte estava se divertindo. No final, a descontração no bis, com a sanfona do convidado especial, Waldonys numa animadíssima versão da Dia de Santos Reis (Tim Maia), uma saudação ao Nação Zumbi, e a Pernambuco, com o Maracatu Atômico, de Jorge Mautner, com o arranjo vocal de Chico Science.

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