Música

A primeira fase da obra de Pery Ribeiro

Caixa mostra a transformação estilística do cantor

José Teles
José Teles
Publicado em 17/02/2013 às 5:15
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A gravadora Discobertas lança caixote com a discografia de Pery Ribeiro nos anos 60. São seis CDs: Eu gosto da vida (1961), Pery Ribeiro e seu mundo de canções românticas (1962), Pery é todo bossa (1963), Pery muito mais bossa (1964), Pery (1965), Gemini 5, Show da boate Porão 73, e Encontro Pery + Bossa Três (1966). A coletânea chega às lojas um ano depois da morte do cantor (no dia 24 de fevereiro, aos 74 anos) , uma das vozes masculinas mais populares da bossa nova. Vale ressaltar que, embora interpretasse sem vibrato, de João Gilberto ele assimilou mais o conteúdo do que a forma. Teve bastante personalidade para se livrar, a partir do terceiro disco, do estigma de ser filho de Dalva de Oliveira e de Herivelto Martins. Mas não ainda do estilo musical que imperava no Brasil nos anos 50, com ênfase para o bolero e o samba-canção.

Eu gosto da vida é um álbum que faz a ponte entre o samba de batucada e a bossa nova, como acontece em Lamento da lavadeira (Monsueto/Nilo Chagas/João Violão). Mas ainda é um disco à moda antiga, com toadas, Eu gosto da vida (Hyanto de Almeida/Chico Anísio), samba-canção, Até quando (Vadico/Marino Pinto), e bolerão, Amorella (Lindolfo Gaya/Romeu Nunes). A bossa nova entra no repertório, em Samba de Orfeu (Laurindo de Almeida/Antônio Maria), como entraria um baião dez anos antes. Era o ritmo da moda.

Aos 22 anos, Pery Ribeiro ainda estava enquadrado no universo musical dos pais. Sobretudo o do samba-canção em que o pai foi mestre e a mãe uma das grandes intérpretes. Mas a Odeon queria fazer dele ídolo do nascente rock nacional. Em 1961, Pery participa do LP Juventude espetacular, com Cely Campello, Tony Campello, Elza Soares, Carlos Augusto e Dalva Andrade. Em 1959, no lado B de seu terceiro compacto, gravou o rock balada Noite, longa noite, versão de Romeo Nunes para Notte, lunga notte, de Francesco Migliacci, autor de Tintarella di luna, a Tomo banho de lua, maior sucesso de Celly Campello. Noite, longa noite é uma da seis faixas extras de Eu gosto da vida.

Pery Ribeiro e seu mundo de canções românticas segue a linha do álbum anterior, uma salada de ritmos. Porém, o cantor vai se aproximando da bossa nova. Gravou cinco composições de Luiz Bonfá, uma de Tom Jobim (Esquecendo você) e uma de Vinicius de Moraes (Encontro à tarde, sem parceiros). Na interpretação de Caminhando (Herivelto Martins), sente-se a influência de Cauby Peixoto. No entanto, neste disco há um, digamos, plus. Pery tem o privilégio de ser acompanhado o disco inteiro por Luis Bonfá (cujo nome é creditado na capa do LP). Um álbum que inova na quantidade de faixas, duas dezenas delas, numa época em que o limite era uma dúzia.

Ele vai fundo no ritmo do momento no terceiro disco, Pery é todo bossa. O álbum faz dele, com Agostinho dos Santos, um dos dois grandes intérpretes da BN (João Gilberto é a própria bossa nova). Neste disco, está Garota de Ipanema, que ele teve o privilégio de ser o primeiro a gravar e que este ano vira cinquentona. Também no álbum, sua estreia como compositor, em Evolução e Bossa da praia, ambas parcerias com Geraldo Cunha. A segunda seria sua música mais bem-sucedida, com mais de 20 gravações diferentes. O CD traz cinco faixas extras, a maioria bossa nova, como Samba de uma nota só (Tom Jobim/Newton Mendonça) e O barquinho (Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli).

Pery muito mais bossa o consolida como um dos melhores cantores do País e acompanha a evolução da bossa nova. Já incursiona pela vertente engajada com Feio não é bonito (Carlos Lyra/Gianfrancesco Guarnieri) e Reza (Edu Lobo/Ruy Guerra). Arranjos divididos entre o maestro Lyrio Panicalli e o pianista Eumir Deodato. Uma das faixas extras é Amor é você, de Normando Santos, o pouco lembrado pernambucano que foi bossa-novista de primeira hora (desde 1964 morando em Paris).

Pery é mesclado por bossa-novistas, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Carlos Lyra, Tom Jobim e a velha guarda, Dorival Caymmi e Pixinguinha (os arranjos do maestro Lyrio Panicali são bastante quadrados para a redondíssima bossa nova). No repertório algumas canções raramente lembradas, como Assim é a Bahia (Menescal/Bôscoli). Destaque para Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha), em que Pery Ribeiro é acompanhado por feras: Eumir Deodato (piano), Gabriel (contrabaixo), Wilson das Neves (bateria), Geraldo Vespar (violão) e Mauricio Eihorn (gaita).

Gemini 5, Show da boate Porão 73 é um encontro de gigantes. Reúne Pery Ribeiro, Leny Andrade e o Bossa Três, grupo que deu o pontapé inicial no samba jazz, formado por três lendas da bossa nova instrumental: Luis Carlos Vinhas (piano), Tião Neto (contrabaixo) e Edison Machado (bateria). Texto de apresentação é de Ronaldo Bôscoli (que dirigiu o show com Miéle). O repertório dá uma geral na bossa nova e seus desdobramentos (como O sol nascerá, de Cartola e Elton Medeiros, composta em 1964).

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