Lançamento

Tiago Araripe volta à musica e lança CD no São Luis

Ele foi o segundo a garvar pela LiraPaulistana

José Teles
José Teles
Publicado em 03/03/2013 às 0:34
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Zeca Baleiro tinha admiração por um disco de um músico que ele não sabia por onde andava. O disco era o Cabelos de Sansão e o músico, o cearense do Crato Tiago Araripe. Os dois finalmente se conheceram em Fortaleza, onde Araripe trabalhava em publicidade. Em 2008, Cabelos de Sansão teve uma primeira edição em CD pelo Saravá Music, o selo de Baleiro. Nessa época, Tiago Araripe já morava no Recife, trabalhando ainda como publicitário.

Ele, aos poucos, foi reabrindo espaço para a música. E, amanhã, lança o CD Baião de nós, numa sessão de autógrafos no Cine São Luiz, às 18h (com entrada gratuita). Na programação do lançamento há a exibição do filme Lira paulistana e a vanguarda paulista, de Riba Castro. O trabalho de Araripe precisava desse link para ser melhor entendido. "Eu queria que as pessoas conhecessem a história da Lira Paulistana", diz o músico.

Cabelos de Sansão foi o segundo disco lançado pelo Lira Paulistana, que começou com um disco antológico, Beleléu, leléu, léu, de Itamar Assumpção. Mas até chegar ao histórico selo paulistano, Araripe trilhou muitas estradas. A primeira estendia-se do Cariri cearense até o Recife, no começo dos anos 1970. "Vim fazer o ensino médio e depois fiz arquitetura. Morei cinco anos aqui. Fui me envolvendo aos poucos com música", conta. Um envolvimento que aconteceu numa época em que os eflúvios da contracultura agitavam as cabeleiras longas de americanos e europeus e desaguou num grupo chamado Nuvem 33: "O grupo durou um ano e não tem nada gravado. As músicas eram muito estranhas. O projeto da gente, eu, Carneirinho, Otávio Bzzzz, era ir para São Paulo montar uma comunidade. Tivemos chance de fazer show no Teatro Ruth Escobar, no Rio, mas rolou uns problemas e acabou não acontecendo".

Baião de nós, o primeiro disco de Tiago Araripe em 30 anos, foi produzido por Zeca Baleiro, que participa de uma faixa, para o selo Candeeiro Records, gravado no estúdio Muzak, em Casa Forte: "Eu e Baleiro, quando nos conhecemos, encontramos afinidades musicais, fizemos algumas parcerias. O pessoal da Candeeiro me convidou para gravar e eu convidei Baleiro. Há uma sintonia muito boa ele com os músicos daqui. O disco deve muito também a Juliano Holanda, que toca guitarra e fez arranjos", conta Araripe.

Ele reuniu composições de vários períodos para o repertório do CD. As mais antigas foram feitas em Fortaleza, onde ele foi morar em 1995, depois de 23 anos em São Paulo. A maior parte do tempo trabalhando em publicidade. "O baião no título foi porque a gente quis dialogar com o centenário de Luiz Gonzaga, com os elementos da minha cultura em que são muito fortes as presenças de Luiz Gonzaga e de Marinês", explica. Tiago Araripe morava ao lado do Teatro do Parque nos anos 1970. No qual assistiu todas a temporada do musical Hair e fez amizade com um dos integrantes do elenco, Luís Penna, que foi sua ponte para chegar a alguns músicos que queria conhecer em São Paulo, entre esses, Tom Zé, de quem foi parceiro.

Logo, o cearense conheceria o maestro Rogério Duprat, Décio Pignatari e Haroldo de Campos: "A gente se encontrava num barzinho chamado Cristal. Tom Zé tinha esta coisa de pegar muita gente e colocar no mercado. Meu trabalho com ele foi o embrião do Papa Poluição, grupo que formei com Penna. Eu achava que Tom Zé deveria ter um som mais eletrificado", recorda.

Sua primeira gravação em São Paulo foi dividindo com Tom Zé um compacto simples, lançado pela Continental, com Contos de fralda (Tom Zé), e Teu coração bate o meu apanha, parceria de Araripe com Décio Pignatari: "Fizemos mais outra, que inscrevemos no festival Abertura, Drácula". Drácula entrou no álbum lançado pela Som Livre e serviu de contraponto a Farofa-fa-fá, de Mauro Celso. Os dois extremos entre as canções classificadas no festival da TV Globo, em 1975. A maldita e a popular

Foi em 1985 que surgiu o Papa Poluição, formado por Tiago Araripe (violão, percussão e voz), Paulinho Costa (guitarra e voz), Zé Luís Penna (guitarra e voz), Beto Carrera (guitarra e voz), Bill Soares (baixo e voz) e Chico Carlos (bateria). A banda é de uma época em que todo roqueiro, como cantou Rita Lee, tinha cara de bandido: "O Papa Poluição durou de 1975 a 1980, mas não foifácil. Pegamos um momento em que as gravadoras iam na onda. Eles foram na onda do Secos & Molhados, mas como o grupo acabou, não quiseram arriscar em investir em grupos de rock. Assim não gravamos LP, só compactos, por várias gravadoras. No final, gravamos no estúdio Eldorado para oferecer o trabalho às gravadoras. A Top Tape topou, mas enterrou nosso trabalho. O divulgador conseguiu um espaço na Bandeirantes, mas a gravadora tirou a gente e colocou outro pessoal".

O grupo terminou quando a Lira Paulistana começava a partir para a criação de um selo. Tiago Araripe foi apresentado a Wilson Souto, Gordo, principal articulador do LP: "Ele era o cabeça do Lira, e topou gravar meu disco. Fora 300 horas de estúdio, gravamos 33 músicas, cada uma com uma linguagem própria. Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Tony Osanah, que tocou nos Beat Boy e gravou Alegria, alegria com Caetano Veloso", conta Tiago Araripe.

Cabelos de Sansão teve distribuição nacional e lhe deu boa visibilidade, porém ele nunca imaginaria que só lançaria um outro álbum três décadas mais tarde. "Depois do disco começou a ficar difícilsegurar a barra. Eu já estava casado, com filhos. Comecei a me ligar na sobrevivência e me afastei da música", continua Araripe. Depois de mais de 20 anos dedicados à publicidades, con eventuais incursões na música, geralmente atrelada à jingles, ou campanhas institucionais, Tiago Araripe recebeu a notícia de que estava sendo procurado por Zeca Baleiro. Foi a partir dai que o Baião de nós começou a se delinear.

(Leia matéria crítica do disco e matéria sobre a Lira Paulistana na edição impressa de hoje do Jornal do Commercio) 

 

 

 

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