Baile

Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite

Elegância é a marca da festa que completou nesse domingo 96 anos. Homens e mulheres são entram vestidos de branco

Mateus Araújo
Mateus Araújo
Publicado em 26/08/2013 às 6:00
Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Os três dentes de ouro de seu Nelson Santana, 87 anos, reluz o brilho do sol e encanta os olhos de sua namorada, dona Dolores da Conceição, 67. Ele arrebatou o coração dela numa noite de baile. E reconquista todo dia dançando bolero, tango, salsa e chá-chá-chá. Nesse domingo (25), Nelson e Dolores (ao som de Amor, I love you) foram mais um das dezenas de casais que se esbaldaram no salão verde e branco do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores (criado em março de 1897), na Mustardinha, zona oeste do Recife. Vestidos, impecavelmente, de branco, eles celebraram o aniversário de 96 anos da tradicionalíssima Matinê Branca, festa sincrética, negra e feliz, onde idade e felicidade não têm limite.

A “maior e melhor festa do mundo”, na definição de seu Nelson, beira o centenário e guarda marcas de uma cultura que por muitos anos foi abafada e minimizada pelo monstro da repressão. Os descendentes de escravos negros, impedidos pela ditadura e pelo preconceito social (assim como tantos outros grupos de cultura popular), passaram a cultuar seus deuses de forma mascarada. Orixalá – o orixá maior, na umbanda (que no candomblé é Oxalá) – recebia oferendas nos fundos da sede do clube; enquanto dentro, no salão, era celebrado com a dança de salão.

O sincretismo (ou a máscara que terminou maquiando as celebrações afro-brasileiras ligando os orixás aos santos católicos) deu à matinê também a proteção de Santana. A avó de Jesus é louvada com uma missa na Matriz do Largo da Paz na quinta-feira que antecede a festa. “O branco do Lenhadores foi a forma sincrética de cultuar Orixalá, numa época em que a ‘dura’ (como aqui se chama a ditadura) fazia repressão religiosa e fazia sofria a parte pobre do País”, lembra o advogado Edvaldo Ramos, 79 anos.

Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Na Matinê Branca do Clube Lenhadores, idade e felicidade não têm limite - Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem

 

Na Matinê Branca já não há mais, em prática, o culto religioso africano. No entanto, o script da festa ainda segue os moldes de antigamente: às 6h, uma salva de fogos anuncia o domingo festivo. É o sinal para que a damas deem escovas no cabelo ou comecem a preparar os coques e penteados de gala. Elas colocam os saltos-altos, escolhem seus melhores vestidos (com muito brilho, pouco ou nenhum) e seguem ao encontro dos cavalheiros vestidos com fidalguia. Eles, de terno branco, gravata borboleta e chapéus. O baile começou às 13h; às 17h30 teve discurso oficial e em seguida a grande valsa.

Foi a Orquestra Brilhante, do Maestro Memeu, que embalou os pares dançantes – gente de todas as idades, alguns casais, outros duplas de baile. Mas tinha também que dançasse sozinho, extravasando a sua emoção, espantando qualquer tristeza. O Palácio do Frevo João Paulo, que no Carnaval ferve com os acertos de marcha do Clube Lenhadores, ontem cheirava a eucalipto (com folhas jogadas no chão do salão). No repertório romântico, músicas desde os clássicos da gafieira tão conhecidos pelos pernambucanos nas vozes de cantores como Adilson Ramos e Augusto César, até sambas de Alcione e hits de Marisa Monte.

A Matinê Branca é a única festa do Lenhadores que não se paga para entrar. Aliás, o único preço é a elegância – quem estiver fora dos padrões não entra. Durante todo o ano, seu Nelson, dona Dolores, seu Edvaldo, e as tantas Marias e os tantos Josés se abraçam e se apertam no dois pra lá e dois pra cá (tem bailes aos sábados, domingos, quartas e sextas-feiras), esperando o dia do grande evento. Uma festa tão nossa, tão bonita, tão tradicional.

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