Carnaval

É frevo, meu bem: maracatu perde privilégio de abrir o Carnaval em 2014

Prefeitura quer valorizar titulo que o frevo ganhou da Unesco

José Teles
José Teles
Publicado em 03/12/2013 às 6:12
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O encontro de maracatus, sob a batuta do percussionista Naná Vasconcelos, que há 12 anos abre oficialmente o Carnaval do Recife, no Marco Zero, dará lugar em 2014 a um espetáculo de frevo. O título de Patrimônio Imaterial da Humanidade concedido ao frevo, no ano passado, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), foi a principal motivação da mudança, garante o coordenador de Música da Prefeitura do Recife, Maurício Cavalcanti. “O nosso desejo é manter o encontro de maracatus, com Naná Vasconcelos, no mesmo local, porém não no mesmo dia. Com a concessão do título de Patrimônio Imaterial dado pela Unesco, entendemos que deveríamos abrir com o frevo, em suas várias nuances. Mas não está ainda definido o dia, vamos conversar com Naná e com os mestres do maracatu para termos uma definição”, explica Cavalcanti.

Naná Vasconcelos, recém-chegado de shows na Lapônia, diz que procurou falar com o prefeito Geraldo Julio, mas não conseguiu: “Durante três dias, tentei ser recebido por ele, mas só falei com secretárias. Cheguei a falar com o governador Eduardo Campos, rapidamente, ressaltei que, com o fim do encontro de maracatus, não se está mexendo apenas com um evento, mas com toda uma comunidade. Nesses 12 anos, os maracatus se preparam o ano inteiro para esse momento, realizam um trabalho social em função disto. Além disso, tem a visibilidade que o encontro de batuqueiros dá ao Carnaval do Recife”, comenta Naná, mostrando revistas estrangeiras que enfocam a abertura do Carnaval com as várias nações de maracatu.

“Satisfeito a gente não está. Vamos ter uma reunião com o pessoal da prefeitura. Mas outras datas fora a sexta são inviáveis. Todos os associados, 24 maracatus, não estão de acordo. Esses 12 anos em que participamos da abertura do Carnaval foram uma conquista muito grande. Os maracatus passaram a ser reconhecidos aqui e no exterior. Entendo que é bom para o maracatu, para o Carnaval, ainda mais com um músico da proporção de Naná Vasconcelos”, diz Fábio Sotero, presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco (Amanpe). Chacon Viana, do Maracatu Nação Porto Rico, também concorda que não tem sentido o encontro em outro dia: “O sábado é o dia do Galo. Domingo (na madrugada) tem o Homem da Meia-Noite, todo mundo vai estar em Olinda. Os maracatus nunca tiveram tanta visibilidade. Só existe TV na abertura. Qual a televisão que vai se preocupar em cobrir o maracatu em outro dia? Elas cobrem A noite dos tambores silenciosos? Isso prova o desprestígio do maracatu. Se um jornalista de fora quiser encontrar um maracatu, não vai conseguir, porque quase nenhum deles tem sede. A maioria funciona na casa dos presidentes”.

Naná conta que teve a ideia de reunir os maracatus quando fazia a direção do Perc Pan, festival de percussão, então principal do País e um dos maiores do mundo. Na época, Naná voltava para o Brasil, depois de 27 anos morando em Nova Iorque. “Juntar as nações de maracatu era feito, no Rio, misturar Portela com Mangueira, coisa para confusão. Mas fui aos mestres e eles aceitaram. No Perc Pan, havia encontro de culturas diversas, uma indiana com os Filhos de Gandhi, por exemplo. Os maracatus são nações diferentes, de batidas com sotaques diferentes. Eles aceitaram tocar sem o sotaque. Um mestre de maracatu passou a visitar o ensaio de um outro maracatu. Muitos estrangeiros vêm ao Recife para ver os maracatus. Não vejo frevo em Nova Iorque, em Londres, mas tem maracatu nessas cidades, na Escócia, na Alemanha”, comenta Naná Vasconcelos.

O percussionista diz que já no terceiro ano do encontro de maracatus, houve a intenção de acabá-lo. “Mas admiro a sinceridade de Maurício Cavalcanti, pelo menos é honesto. Uma segunda vez ele quis acabar com a abertura com os maracatus, mas Roberto Peixe e André Brasileiro, então na prefeitura, foram contra. Esse encontro que celebra diferenças e exalta semelhanças tornou-se a marca do Carnaval, antes não havia nada semelhante. Além da abertura, tem os ensaios, que atraem muitos turistas”, continua Naná, lembrando que o encontro não se resume aos batuqueiros, inclui também artistas de alguma forma ligados à cultura afrobrasileira, como Milton Nascimento e a africana (de Benin) Angelique Kidjo. Esse ano ele pretendia unir o rap ao maracatu com participações de Emicida, Marcelo D2, Cannibal, entre outros. 

Não foi a primeira vez que o frevo desbancou o maracatu na atual gestão da prefeitura. Em 2013, não houve concurso de música carnavalesca para maracatu, nem caboclinho. Maurício Cavalcanti esclarece que a promoção do Festival do Frevo da Humanidade não tem relação com a saída dos batuqueiros da abertura do Carnaval: “A intenção foi enfatizar o título recebido pelo frevo da Unesco. Não teríamos condições de realizar dois festivais no mesmo ano. Em 2014, o concurso de música carnavalesca volta com o maracatu e o caboclinho”, garante.

 

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