BIBLIOGRAFIA

Os livros para entender o futebol e a Copa do Mundo

Brasil teve uma ampla produção de análises e crônicas ao longo da história, com reedições e bons lançamentos recentes

Do JC Online
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Publicado em 08/06/2014 às 5:49
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Brasil teve uma ampla produção de análises e crônicas ao longo da história, com reedições e bons lançamentos recentes - FOTO: Foto: Divulgação
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Para quem quer mergulhar ainda mais no clima literário de Copa do Mundo, não faltam opções, tanto mais antigas como lançamentos recentes – afinal, o modo de jogar brasileiro sempre esteve próximo a uma visão poética. O mercado editorial vem investindo pesado desde o ano passado em reedições e inéditos, nos campos da análise acadêmica, da história, da biografia e da ficção (confira as dicas ao lado).

O Brasil tem uma longa relação entre o futebol e os textos. Sempre se acusa a nossa literatura de se referir pouco ao tema – salvo as conhecidas exceções sempre –, mas desde o começo do século 20, fora da ficção, quando o esporte começou a virar a paixão nacional, pesquisadores e cronistas buscaram várias vezes decifrar um pouco das razões da associação inevitável e misteriosa entre Brasil e futebol.

Segundo o cientista político e sociólogo Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, o primeiro texto marcante sobre o assunto surge na década de 1930, pelas mãos de um pernambucano: Gilberto Freyre. No artigo Foot-ball mulato, o senhor de Apipucos já começa a apontar que o Brasil havia criado sua própria forma de jogar. “Gilberto falava dos bailarinos da bola, dos dribles, dos floreios, desse talento dionisíaco, em oposição ao futebol europeu, apolíneo”, conta o pesquisador.

Desde cedo, então, o esporte bretão é visto em sua relação com o ato de ser brasileiro. “A maioria dos livros que trata do futebol no Brasil tem uma relação direta com a Copa do Mundo, porque o futebol é muito relacionado à ideia de identidade nacional. É a disputa entre seleções que permite ver as diferenças dos países”, conta Túlio, que supervisionou a produção do e-book O futebol brasileiro, 1894 a 2013: uma bibliografia (Fundaj), organizado por Lúcia Gaspar e Virgínia Barbosa, que registra 1.464 textos e livros sobre o tema.

O esporte ganhou várias referências em obras literárias, claro. Túlio cita, de cabeça, trabalhos de Alcântara Machado, Monteiro Lobato, Oswaldo de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Vinicius de Moraes, José Lins do Rêgo e Mario de Andrade, além de lembrar nomes como os de Graciliano Ramos, Mário Melo e Lima Barreto, que criticaram publicamente o futebol por se tratar de uma atividade “estrangeira”.

Depois de Freyre, as primeiras análises sobre a paixão nacional não vieram do campo acadêmico, que demorou para reconhecê-la como relevante. Com esse vazio, a crônica esportiva pegou para si esse papel interpretativo. Há, claro, Nelson Rodrigues – espécie de frasista oficial sobre o assunto, nome quase impossível de deixar de citar em qualquer produção literária posterior –, que inventou (e também destruiu) 90% dos mitos brasileiros sobre o assunto, do vira-latismo à “Hiroshima psíquica” que foi a criação do Maracanã. O seu irmão Mário Filho, no entanto, também produziu um dos relatos históricos mais importantes até hoje: O negro do futebol brasileiro, de 1947 (com novos capítulos feitos após as conquistas de 1958 e 1962).

Ainda nos 1950, começaram a aparecer os primeiros ensaios sobre os escretes brasileiros, como Negro, macumba e futebol, do alemão Anatol Rosenfeld, e História do futebol no Brasil, 1894-1950, de Thomaz Mazzoni. Só na década de 1980, no entanto, os estudos acadêmicos se voltaram com mais afinco ao tema. “O universo do futebol, organizado por Roberto da Matta, é uma referência, que segue a tradição freyriana”, comenta Túlio. Até o final do milênio, pipocaram outras iniciativas: a Revista da USP chegou a fazer um dossiê sobre o futebol; José Carlos Meihy e José Sebastião Witter publicaram o seu Futebol e cultura; e Leonardo Pereira lançou Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro.

Da leva mais recente, além de algumas reedições fundamentais (boa parte dos livros citados acima continua em catálogo), o sociólogo destaca os trabalhos investigativos sobre a organização do futebol. “Do que tem saído, o lado mais relevante é, infelizmente, sobre os aspectos podres do futebol”, aponta. As duas reportagens do britânico Andrew Jennings que revelam escândalos envolvendo o presidente da Fifa, Joseph Blatter, e brasileiros ligados à entidade, como Ricardo Teixeira e João Havelange, são recomendadas por ele. Uma obra jornalística nacional também entra no rol: O lado sujo do futebol, de Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet.

Não falta conteúdo, histórico, analítico e crítico, para quem quiser compreender ainda mais o Brasil, na euforia e na desilusão. Afinal, como já disse Nelson Rodrigues, no futebol “o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética”.

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