COBERTURA

Coquetel Molotov celebra o início da nova década na Coudelaria Souza Leão

Em sua 11ª edição, o festival aposta em novidades e movimenta a Várzea

Alef Pontes e Karolina Pacheco
Alef Pontes e Karolina Pacheco
Publicado em 11/10/2014 às 22:10
Alef Pontes/Especial para o JC Imagem
Em sua 11ª edição, o festival aposta em novidades e movimenta a Várzea - FOTO: Alef Pontes/Especial para o JC Imagem
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Atualizado às 15h

A 11ª edição do No Ar Coquetel Molotov apostou em duas fichas, mas apenas uma delas rendeu créditos positivos, tanto para os produtores quanto para os espectadores. Primeira: a eleição da Coudelaria Souza Leão, no bairro da Várzea, parece ter agradado ao público - que, ainda assim, só começou a dar o ar da graça por volta das 17h deste sábado (11), enquanto o evento deu início a sua programação às 15h. Os assíduos frequentadores dos últimos shows do festival, realizados nos grandes centros de convenções das cidade nos últimos dez anos, se mostraram satisfeitos com a interação social (e etílica) que o novo espaço proporciona. A céu aberto, e com um pôr do sol como anfitrião dos primeiros momentos da festa, o dpúblico se mostrou confortável e confiante. Em segundo lugar, e em contrapartida, há relatos de insatisfação no que diz respeito ao line-up do Coquetel Molotov. Para boa parte dos entrevistados pelo Jornal do Commercio desde o início da festa, para assegurar o sucesso deste novo momento do festival, os produtores deixaram a desejar na escolha das bandas. Imagine: de todas as atrações escaladas, a interpretação da cantora Karina Buhr para o disco icônico do setentista Secos & Molhados, marcado para acontecer à meia-noite, soou como principal cartão de visita e motivação para o comparecimento à festa.

Perguntados sobre a motivação para comparecer ao evento hoje mais distante do que o usual, o casal formado pela autônoma Cybelle Soares, 38, e o comunicólogo Felipe Moura, 37, espectadores veteranos nesta década de Molotov, apontou o novo lugar como ponto positivo para o que eles colocam como "um novo momento do festival". Segundo Felipe, a maior dificuldade consistiu na decepção que eles tiveram ao esperar a partida de um ônibus da praça do Derby. Informados pela produção na Fan Page oficial Coquetel Molotov de que o transporte partiria às 14h, eles chegaram com antecedência ao ponto de encontro. "Chegamos dez minutos antes, esperamos, deu 14h e não vimos nem sombra do carro. Foi quando passou uma turma de ciclistas que já estavam vindo para cá, que decidimos vir por conta própria", conta. O grupo formado por Cybelle, Felipe e o ator Igor Lopes, optou pela convencional linha UR-7 (Várzea), do Grande Recife Consórcio de Transportes. Os bicicleteiros, aliás, puderam obter 50% de desconto no ingresso, uma espécie de meia entrada bônus para quem chegasse ao local por meio de uma bike.

Sobrevivendo aos percalços até ao local das atrações múltiplas e semi-simultâneas - inclusive com o auxílio de uma van oferecida pelos proutores, cuja a principal função era abster o público de uma singela subida até o centro da Coudelaria, por volta das 18h, o público se deparou com a arena Red Bull Music Academy Stage (RBMA) vazia, onde DJs como o carioca Jonas Rocha e o paulista Seixlack fizeram um pano de fundo musical para a úmida chegada do público - que, após o crepúsculo, começara a ser recepcionado por uma tímida e persistente garoa. Espera-se que os disc jockeys Falty Dl (EUA) e Bok Bok (GBR) consigam, quando assumirem suas respectivas picapes por volta das 22h30 e 0h, cativar e convidar o público a desbravar e dançar na areia molhada do RBMA.

Enquanto o público, assumidamente, tornava-se escasso na novíssima área externa do Molotov, o galpão da Coudelaria começou, ainda que timidamente, a ser agitado pelos primeiros espectadores. Responsabilidade do paraense Jaloo e sua dupla de bailarinos que apresentou o sci-fi brega (ou, como eles mesmos explicam, uma mistura do brega com aquilo que é pop e mainstream), que quebraram com dificuldade a apatia da chegada na festa.

Os franceses do La Femme - ora sisudos, ora desinibidos - mexeram com os instintos dançantes dos característicos descolados da plateia. Foi neste momento, na altura das 18h30, que os primeiros passos de dança tomaram a pista meio vazia (ou seria meio cheia?). A primeira sonoridade do show foi uma agressiva microfonia, que talvez tenha despertado a dançaque viria a ser embalada pelo show Psycho tropical Berlim, cujo repertório contempla o repertório do disco homônimo, o primeiro do grupo.

Pontualmente às 19h30, o grupo paulista Inky subiu ao palco acompanhado do pernambucano Rodrigo Coelho (baixista da Jorge Cabeleira e autor da trilha sonora do longa Paraísos Artificiais) com o seu projeto Grassmass, no qual assume os sintetizadores. No repertório do show, as canções do seu álbum de estreia, Primal swag, fizeram o público vibrar. A mistura entre as batidas eletrônicas e riff carregados foi certeira. Uma a uma, as canções era sucedidas do gritos de um público que fez questão de chegar junto da grade para não perder nenhum momento. E como prometeu o guitarrista Stephan Feitsma, o Rock tomou conta do palco, misturando em melodia e ritmo os sinth - que mais pareciam uma segunda guitarra - com os overdrives dos intrumentos. "Isto não é eletro, é rock'n roll", já havia adiantado o músico em entrevista ao Jornal do Commercio.

O momento romântico da noite veio com o show do maranhense Phill Veras, que acompanhado da também maranhense Souvenir, colocou os casais pra dançarem juntinhos. O público, aliás, parecia estar bem familiarizado com as canções do álbum Carpete, lançado em agosto no Soundcloud, cantando versos como "gosto de você para enfeitar os apartamentos/ templos, todas as cidades/ gosto de você para encarar", da faixa Eu sim. Phill, que apesar da pouca idade, 22 anos, já se apresentou em respeitáveis palcos como o do Rock in Rio do ano passado e disse estar super feliz com sua apresentação na cidade. 

Em seguida, foi a vez da brasiliense Flora Matos subir ao palco com as altas energias das suas canções ora contundentes ora alegres. Suas rimas fIzeram o público pular e mostraram que, mais do que MC e rapper, a menina é soul, raggae e também pop. Em seu show teve espaço até para um coco de embolada, que a moça tirou de letra no pandeiro. Foi mais uma das atrações fez ecoar no espaço interno da Coudelaria o coro dos fãs, que à essa altura, já enchiam o espaço.

A familiaridade de Karina Buhr, seja com o palco ou com o disco de estreia do grupo Secos & Molhados (o qual ela ouve desde menina), fez com que seu show soasse natural aos recifenses que tanto empatizam com a cantora meio baiana, meio pernambucana. Antes mesmo de o show começar, os seus fãs pareciam apostar em sua performance como se o recurso cênico - leia-se aqui maquiagem, figurino e seu feeling para tomar o público com seus gestos frenéticos  - fosse o maior trunfo de sua arte, sobretudo por ela e sua banda assumirem um tributo ao conjunto musical mais performático da década de 1970. Mas antes de ser cantora, antes mesmo de se entregar no palco e a gravação de seus dois álbuns solos, Buhr já era percussionista - Habilidade bem aproveitada por ela em sua releitura para o disco encabeçado por Ney Matogrosso.

De um cenário místico a uma atmosfera esquizofrênica, sonorizados por sua voz que se rasga sem medo, a cantora interpretou as treze canções do álbum eleito pela revista Rolling Stone como o quinto melhor disco brasileiro de todos os tempos. De trinca em trinca musical, as injeções bem dosadas e pouquíssimo pretensiosas das canções manteve o público em perfeita sintonia. Não se sabe, no entanto, se essa facilidade ao promover a integração palco-plateia é fruto de quais de suas familiaridades. O palco, o disco, o público. Esta terceira relação foi, na apresentação da madrugada deste  domingo (12), a que foi conduzida com maior visceralidade. Mas essas vibrações não partiram apenas dos gritos, do estilo ou das caminhadas e corridinhas serelepes já tão comuns em Karina. Foi carne. Seja quando ela dançou coladinha com uma moça da plateia, seja quando ela fez uma volta olímpica, deitada e carregada pelo público.

A banda se molhava de suor, tocando sobre palco, enquanto Karina secava-se no atrito apaixonado com a plateia. Exatamente naquele espaço, naquele tempo, todos incorporavam o clássico LP setentista. Regis Damasceno (violão), Xuxa Levy (teclados) e Clayton Martin (bateria) faziam coro em Primavera dos dentes. Quando solava, o guitarrista Fernando Catatau tomava a euforia da plateia para si. O trompete de Guizado incorporava o sopro da harmônica de boca outrora executada por João Ricardo.

Eram quase duas horas da madrugada quando Karina deixou o palco e a noite contaria ainda com show do grupo paulista Aldo The Band, capinateado pelos irmãos André e Murilo Faria, com a mistura pop de batidas eletrônicas com guitarra, teclado e baixo. E nem parecia fim de festa. Ao menos, a energia na pista, com resquícios da orgia musical antecedente, se manteve completamente díspar da desconfiança de quem chegou sob a chuva, nas primeiras horas do No Ar Coquetel Molotov - quando o público ainda fazia o reconhecimento do terreno da Coudelaria Souza Leão. Eles estavam predispostos a se divertir naquele local, independentemente da programação oferecida pelos produtores. Conseguiram. O que virá nos próximos dez anos de Coquetel Molotov, espera-se, que sejam apostas ganhas tanto para o público quanto para a produtora, ambos responsáveis pela consolidação de mais um evento que coloca Pernambuco no roteiro dos grandes festivais de música pelo Brasil. O que não dá é economizar na programação.

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