Memória

Antonio Maria: "Eu não escrevo bem, os outros é que escrevem mal"

Autor de Ninguém me ama, e Manhã de carnaval morreu há 50 anos anos

José Teles
José Teles
Publicado em 15/10/2014 às 6:00
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Antônio Maria nunca gostou muito de conceder entrevistas. Argumentava que tudo o que tinha a dizer estava nas crônicas que escrevia em jornais desde quando ainda morava no Recife, sua cidade natal. No entanto, nos 50 anos de sua morte, ou “dia de quitar a promissória impossível”, como gostava de tratar a indesejável de nós todos, fomos à sua última moraria em vida, um apartamento que alugou mobiliado na Rua Fernando Mendes, em Copacabana. Desculpando-se pela decoração de gosto discutível, sugeriu que prestássemos atenção em outros detalhes, como uma reprodução ds pintor. Aquilo era o de menos. O importante era a entrevista. Extraímos dele uma longa, e confessional, conversa (fictícia), exclusiva para o Jornal do Commercio.

JORNAL DO COMMERCIO – Vamos começar pelo comecinho. Maria, fale um pouco da sua infância, enfim, dos poucos anos vividos no Recife.

ANTÔNIO MARIA – Fui garoto introvertido, de poucos amigos, brigão quando mexiam comigo. Tive uma infância dorida, vendo morrer, uma a uma, as pessoas do meu sangue. Meu pai, minha mãe, meus avós, quase todos da minha ascendência. Cedo fiquei só, e aprendi a luta pela vida. Fiz muitas jornadas pelas ruas do Recife, sofrendo para estudar, ser alguém. Como todo menino do meu tempo, queria ser aviador. A medida que os anos chegavam o sonho se desvanecia. Até que preferi embarcar num “ita”, e vir tentar a vida na cidade maior.

JC – O senhor nasceu numa família de usineiros, que depois teria ido à falência. Importa-se em falar sobre isto?

ANTÔNIO MARIA – Minha avó guardava dinheiro num mala, muito, e um dia quando abriu para contar, a traça tinha comido quase todo. Vendeu-se então a usina Cachoeira Lisa, os canaviais dos seus 29 engenhos e, com o dinheiro apurado, pagaram-se velhas contas de armazém e farmácia. Minha mãe quando soube que era pobre, passou a fazer redes de crochê, sangrando os dedos, para nos dar almoço e jantar.

JC – E seus irmãos?

ANTONIO MARIA – Minha irmã mais velha tirou terceiro lugar no concurso de Miss Pernambuco, em 1929. A do meio quase morre de amores pelo artista de cinema Rodolfo Valentino, de quem pintou um retrato. A mais moça, coitadinha, amava Ricardo Cortez. Conceição nasceu logo depois e morreu, aos 11 meses, chorando muito, com um tumor na cabeça. Meu irmão Rodolfo, ás do futebol pernambucano, driblou Ariel e Vicente, para vazar as redes do goleiro Pedroso, do selecionado brasileiro de 1934.

JC – É verdade que seu pai, Inocêncio, matou um homem?

ANTÔNIO MARIA – Um tiro certeiro na testa. Em defesa do irmão, Pedro Moraes, que ia ser moto a punhaladas. Houve um movimento, como uma festa. Vieram todos os senhores de engenho da redondeza, todos armados de rifles e revólveres. Vinham oferecer solidariedade e, sendo preciso, suas vidas, ao meu pai. Não foi a júri, nem sequer foi preso, porque era tenente-coronel da Guarda Nacional.

JC – E sua mãe? Ela é citada em várias de suas crônicas, pelo visto o senhor era o filho predileto de dona Diva.

ANTÔNIO MARIA – Minha gostava mais de mim. Eu sabia e ela sabia que eu sabia. Em tudo a nossa cumplicidade. Na fatia de bolo, na talhada de requeijão e no sobejo de sue copo d’água. Nunca fez minha mãe dengues comigo. Bondades, todas. Tratou-me de impaludismo, de dor de garganta e furunculose. No tempo certo, me deu o cavalo, a bicicleta. Já pobre, completou o dinheiro do meu primeiro automóvel.

JC – O senhor começou a carreira como narrador esportivo na Rádio Clube, como foi a estreia?

ANTÔNIO MARIA – Foi um blefe de grande sucesso. Mandaram irradiar uma partida preliminar (destas em que ninguém conhece os jogadores), vinte minutos antes do jogo. Ora, nestas contingências não vi outra saída senão batizar a meu bel prazer os 22 jogadores. Pedrinho, Antônio e assim por diante. Ficou uma irradiação linda.

JC – Mas antes veio a crônica, não é isso?

ANTÔNIO MARIA – Comecei no Recife, em 1941, via pistolão, após receber de volta 11 crônicas que entreguei pessoalmente ao secretário do jornal. Fui publicado afinal descrevendo uma mulher que vira na Rua Nova e que, face a ela, me colocara com “a humildade de um mendigo diante de um prato de comida”. A imagem fez muito sucesso entre quatro ou cinco amigos na calçada do Fênix. Mas foi só. À noite, quando fui levar a segunda crônica, o secretário trancou-se comigo em seu gabinete e passou-me este seguinte carão: “A Norma Shearer (havia elogiado o estrabismo lascivo de Norma Shearer) de quem você falou é a esposa de um anunciante nosso, que mandou suspender o anúncio da edição do domingo. Você hoje tem que escrever qualquer coisa, explicando que qualquer semelhança de sua personagem com qualquer pessoa é mera coincidência. Já vi que você quer ir no caminho de Rubem Braga. Mas fique sabendo que isto em cidade pequena é impossível”. Segui, dali pra frente, tomando imenso cuidado com qualquer coisa que pudesse desgostar o anunciante.

JC – O que poderia dizer sobre seus inimigos já, é bem sabido, tem uma considerável coleção deles.

ANTÔNIO MARIA – Não creio que sejam necessários. Eu simplesmente os ignoro, porque não impedem nem estimulam minha vida. Enquanto eles esbravejam conta mim, respiro a poesia e faço canções. Tenho fama de perseguidor. Não é verdade. Apenas detesto a mediocridade e denuncio os medíocres.

JC – O senhor teve um desentendimento com seu conterrâneo jornalista e compositor Fernando Lobo na calçada da boate mais famosa do Rio, e do Brasil, a Vogue. Eram amigos desde que moravam no Recife. O senhor e Fernando são agora inimigos?

ANTÔNIO MARIA – Fernando Lobo não é bem uma inimizade. É mais um vexame.

JC – Vocês brigaram por causa da autoria de Ninguém me ama? Afinal esta canção de imenso sucesso no Brasil, com muitas versões no exterior, até Nat King Cole gravou, é somente sua, ou tem realmente contribuição de Fernando Lobo?

ANTÔNIO MARIA – Devo explicar, todavia, que os versos onde estão as palavras “de fracasso, em fracasso”, não são de Fernando. E é fácil provar, porque a palavra fracasso esta escrita corretamente, isto é, com dois “ss”. Caso fosse, em verdade, uma colaboração sua, eu juro que lhe respeitaria as cedilhas (çç) habituais... Como um clube de esportes, o Ninguém me ama tem agora sócios-atletas. O senhor Fernando Lobo é sócio-atleta de Ninguém me ama. O senhor Haroldo Lobo, se assim o desejar, também será sócio-atleta. Enfim, as inscrições estão abertas, sem joias nem mensalidades”.

JC – Mas o senhor fez inimigos mais perigosos do que Fernando Lobo. O deputado alagoano Tenório Cavalcanti, o chefe de polícia do Estado do Rio de Janeiro, o governador Carlos Lacerda, em quem o senhor batia quase todos os dias em sua coluna no Última Hora. Por conta disso recebeu ameaças de morte, de espancamento, e até de coisas piores. Quantas vezes?

ANTÔNIO MARIA – Durante este governo provisório (Nota: refere-se ao do governador Carlos Lacerda) fui ameaçado de surra e morte exatamente três vezes. Em uma delas avisei publicamente que qualquer vexame que eu viesse a passar em assalto ou conflito de mesa de bar o responsável seria o governador do Estado. Se vierem me pegar, já sabem que brigo rindo e conversando, e que minha briga demora. Se for na base do revólver não poderei fazer nada, mas também não irei correr.

JC – Os seus inimigos, sem missa de corpo presente, têm que admitir o seu talento. Em compensação amplificam seus defeitos. O de beber e sobre o efeito da bebida, por exemplo. O senhor bebe muito?

ANTÔNIO MARIA – Bebo muito. Bebo tudo, quando posso. Quando não posso, me contento até com uma cervejinha gelada. Uísque nunca deu condição literária a ninguém. O resto é pose, atitude. Ideia nascida do próprio uísque.

(Leia entrevista na íntegra na edição de hoje do Jornal do Commercio)

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