Disco

Alaíde Costa resgata parcerias com Tom, Vinicius e Johnny Alf

Ela foi uma estranha no ninho da bossa nova branca e classe média

José Teles
José Teles
Publicado em 13/12/2014 às 6:00
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Desde os anos 60, Alaíde Costa quis lançar um disco com repertório autoral. As gravadoras não se interessaram, indiferentes ao talento e história profissional da cantora. Somente agora, aos 79 anos, ele concretiza este sonho, com o CD Canções de Alaíde, viabilizado com a aprovação de um projeto de lei de incentivo à cultura, inscrito no ProAc (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura Governo de São Paulo. O disco acontece exatamente quando Alaíde Costa completa 60 anos de carreira, contados não pela sua discografia, mas do seu primeiro contrato de trabalho, datado de 1954, como crooner do Dancing Avenida, no Rio. Canções de Alaíde chega às lojas com selo Nova Estação, do paulsita Thiago Marques Luiz, que também assina a produção do CD.

Alaíde Costa está no Recife e apresenta hoje, no Crepe Rouge (na praça de Casa Forte), o show Porcelana (com participação de Dalva Torres) que deve virar disco em 2015. No repertório não poderia faltar alguns clássicos da bossa nova. Vários bossa-novistas de primeira hora raramente são lembrados quando se conta a história do movimento. É assim com o pernambucano Normando Costa, há anos morando na França, com a carioca Lenita Bruno (1927/1987), e com Alaíde Costa, o que já pode ser constatado verificando alguns dos parceiros nas músicas de Canções de Alaíde, Tom Jobim (Você é amor), Vinicius de Moraes (Amigo Amado e Tudo o que é meu), e Johhny Alf (Meu sonho), além de Geraldo Vandré, também pouco lembrado como integrante da bossa nova (Canção do breve amor).

Criada por jovens de classe média, da Zona Sul carioca, a bossa nova era formada, em sua maioria, por brancos. Alaíde Costa não se encaixava neste perfil, morava num subúrbio da Zona Norte, negra e de família pobre. Chegou à BN em um encontro casual com João Gilberto, no estúdio da RCA, no Centro do Rio. João gostou da voz de Alaíde, e viu afinidades no seu modo de interpretar com o que se estava fazendo na bossa nova. Bem à sua maneira, O baiano não falou diretamente com ela. Deixou um recado com o produtor Aloysio Oliveira. Um convite para Alaíde Costa ia a uma reunião convidou para uma reunião na casa do pianista Bené Nunes: “Só que ele me convidou e não apareceu. Eu era muito tímida, fiquei ali sem conhecer ninguém, mas daí em diante participei de muitas reuniões com o pessoal da bossa nova. teve reunião no apartamento dos país de Nara Leão, mas elas aconteciam em vários locais. Teve até na casa dos pais de Nelson Motta. Ele tão criança que não podia participar. A mãe dele era pianista, gravei uma composição dela”, conta Alaíde Costa

A primeira vez que Alaíde Costa conseguiu mostrar o seu lado autoral num show foi no final da década de 90, no teatro Denoy de Oliveira, na UMES,em São Paulo. Cervantes Sobrinho, que assina o texto e contracapa de Canções de Alaíde revela que nas parcerias de Alaíde ela é a autora das melodias. Alaíde toca piano. Quando começou a frequentar as reuniões da bossa nova, confessa que tocava mal, tinha dificuldades em harmonizar. Foi aconselhada, por Vinicius de Moraes, a tomar lições com o maestro Moacir Santos, professor de boa parte dos bossa-novistas: “Nesta época ele estava indo para os Estados Unidos, e queria vender o piano. Me ofereceu, mas eu não podia comprar. Moacir sugeriu que eu tomasse emprestado dinheiro com Vinicius, depois ia pagando a ele aos poucos. Eu não tinha coragem de pedir, então desisti do piano”. Dias depois o piano de Moacir Santos chegava à casa de Alaíde Costa. O maestro contou a história ao poeta, que comprou o piano e mandou para a amiga: “Parei de ir na casa de Vinicius. O piano custou caro, 60 mil cruzeiros, eu não podia pagar. A situação ficou chata, e um dia fui à casa dele. Vinicius me deu um carão, disse que o piano era meu, que eu não tocasse mais naquele assunto.

Pela metade da década de 60, a bossa nova foi desdobrando-se em outras vertentes: “Começaram os modismos. Cada vez que ia gravar queriam mudar minha maneira de cantar. Então fui me afastando do pessoal. Mas o fato de não me citarem na nossa nova eu atribuo ao racismo. A bossa era um movimento racista. Eu era uma suburbana pobre, eles filhinhos do papai da Zona Sul, em de Água Santa, na Zona Norte”, acusa Alaíde Costa, sem levantar a voz. Independente do pessoal da Zona Sul, ela festeja seis décadas de estrada com disco novo, e pretende repetir a dose, lançando outro álbum autoral.

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