70 anos

Ivan Lins celebra os 70 anos com vários projetos no "Ano Ivan"

Cantor fará turnê, lançará discos, DVD, e ganhará uma biografia

José Teles
José Teles
Publicado em 22/02/2015 às 9:46
 Renand Zovka - Secom/PMG
Cantor fará turnê, lançará discos, DVD, e ganhará uma biografia - FOTO: Renand Zovka - Secom/PMG
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Ivan Lins completa 70 anos no dia 16 de junho. 2015 para ele será o “Ano Ivan”, com a realização de vários projetos para celebrar a efeméride, discos, shows, DVD, uma biografia. A pergunta à queima roupa: “Você recomeçaria tudo outra vez?”. A conversa acontece no restaurante do hotel em Garanhuns. Ele nem titubeia para responder, vai de bate-pronto: “Não sei se faria tudo outra vez. Queria fazer outras coisas, talvez porque não me ligo muito na rotina. A forma como sempre toco diferente minhas músicas é bem um exemplo disto”.  Revela que não é muito de festejar aniversário, mas abre exceção para esta data redonda, e simbólica: “70 anos, chegaram muito rápido, talvez porque vivo muito o presente, e o passado acaba se cobrindo de poeira. É preciso que as pessoas cheguem e tirem o pó deste passado, para que seja conhecido e lembrado”.

 

 

Nos arquivos da gravadora que herdou o acervo da antiga Chantecler ou, talvez, com um técnico de som da época, que se esqueceu o que há nela, repousa a caixa amarelecida de uma fita com dez músicas de um conjunto de samba jazz chamado Alfa Trio. Ivan Lins, com 20 anos, o pianista. O contrabaixista lembra , rindo, era também massagista: ”Achava que por ter as mãos grandes podia tocar, e copiava os gestos de Luís Chaves, do Zimbo Trion o braço do instrumento; Não tocava nada, mas fazia aquele movimento todo no contrabaixo e o pessoal acreditava que ele sabia. Depois foi substituído por Roberto Thalma, que depois viraria produtor de TV”.

 O Alfa Trio era um dos muitos grupos semelhantes que, há meio século, existiam na Tijuca, Zona Norte carioca, onde Ivan Lins morava: “Um produtor convidou para gente ir a um estúdio no Centro. Em uma hora, gravamos dez músicas. Tinha Borandá, de Edu, Influência do jazz, de Carlinhos Lyra. O disco não foi lançado, e nunca mais ouvi aquelas gravações”, conta Ivan, que prefere estabelecer como marco inicial da carreira, Madalena, de 1970, o primeiro sucesso na voz de Elis Regina, de quem seria um dos autores preferidos.

 Elis, que liderou passeata contra a guitarra elétrica, converteu-se aos novos tempos, e dividiu com Ivan Lins a apresentação do programa Som Livre Exportação, produzido pela TV Globo. Com um formato inovador, o SLE era abrangente nos estilos musicais, indo dos Mutantes a Mario Lago. Teve participação de Caetano Veloso, quando o baiano ainda amargava a temporada forçada em Londres, e por ele passou uma turma que se rotulou de a “geração do sufoco”. Dela faziam parte, entre outros, Gonzaguinha, Aldir Blanc,  Ruy Maurity, César Costa Filho, autores de classe média da Zona Norte do Rio.

 Estes novos compositores agruparam-se sob a sigla de MAU (Movimento Artístico Universitário), costumavam-se reunir, na casa do advogado Porto Carreiro, futuro sogro de Gonzaguinha, e destacaram-se pelas boas classificações nos festivais de música popular: “Aquele novo grupo foi muito importante, porque nos possibilitou o não ter que precisar bater de porta em porta de gravadora a fim de uma chance, para que as pessoas nos conhecessem”, comenta Ivan Lins. O MAU inspirou a criação do Som Livre Exportação, e marcou negativamente Ivan. Além de não fazer a linha engajada, numa época de maniqueísmos, o sucesso, de festival, O amor é meu país (com Ronaldo Monteiro de Souza) foi visto pela esquerda, como um alinhamento com a ideia de Brasil Grande do regime militar: “Quem me defendeu bastante foi Elis. Pra mim foi uma irmã maravilhosa. Tinha um temperamento que rendeu muitos inimigos, e inimigas, mas comigo sempre foi grande amiga, me abriu muitas portas”, elogia Ivan Lins, que conta como Madalena chegou à Elis.

 “Ronaldo Monteiro me mandou a letra e disse que era um samba. Fiz o samba e guardei a fita. Na minha formação tinha jazz, bossa, Beatles, portanto Madalena tem umas harmonias diferenciadas. A música passou um ano na gaveta, até que um dia Nelson Motta (um dos produtores do Som Livre Exportação) me pediu músicas para um disco que estava fazendo para Elis. Mandei algumas. Quando ela ouviu Madalena disse: é esta. Costumo dizer que Madalena foi o meu abre-alas”. Madalena seria a primeira das nove composições dele gravadas por Elis Regina.

 Ivan Lins também não fazia MPB nos moldes dos anos 60. Suas canções eram geralmente românticas, e ele foi precursor do soul brasileiro, o que poucos lembram, e que lhe rendeu patrulhamento da esquerda nacionalista, sobretudo a que militava no influente O Pasquim: “A exportação do programa era apenas uma alegoria. Tinham pretensão de mandar música para o exterior, mas nunca conseguiram nada. Mas eu entrei 1971, com dois sucessos estourados, vendendo mais do que Roberto Carlos, pois é, botei o Rei para segundo lugar. O problema foi que não tinha experiência. Tornei-me logo um sucesso, sem precisar fazer o que outros fizeram. Nada de shows mambembes em subúrbios, coisas assim; Enfim, não estava nem um pouco preparado e me alienei. A TV estava me sugando, e eu não tinha discernimento de nada. Foi aí que o vento parou de soprar em minha direção. Deixei o programa, que acabaria em seguida”.

 Uma parada que o tirou da mídia, os discos passaram a vender pouco, e  passou aganhar o sustento com shows, inclusive viajando com frequência ao Nordeste onde ganhou um público cativo, que só lhe cobrava música: “Nesta época de vacas magras, até para garantir a sobrevivência, fiz muito show na região, onde se trata muito bem o artista, cantava muito ao Recife. Curioso é que as minhas influências de música regional não vêm dai. Vitor Martins, meu parceiro, durante um tempo trabalhou na Continental, e me mostrava muitos discos de música caipira, forró, e fui curtindo e assimilando aquilo. Só nunca me arrisquei a fazer um frevo”, comenta tentando criar um frevo, solfejando o que poderá se tornar sua primeira incursão no gênero.

(leia matéria na íntegra na edição impressa do Jornal do Commercio)

 

 

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