Música

Mario Andrade procurava identidade nacional na cultura popular

A Missão Mario de Andrade, de 1938, ainda hoje influencia pesquisadores

José Teles
José Teles
Publicado em 25/02/2015 às 9:39
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Se não tivesse sido o grande escritor que foi, mesmo assim Mário de Andrade teria seu nome preservado em um lugar especial da história da cultura brasileira pelo que pesquisou e escreveu sobre a música popular do país. Além de livros fundamentais que tentam explicar a identidade nacional através de seu folclore, com destaque para a música. Alguns bem específicos, como o que aborda a música da pajelança, catimbó e macumba, com escritos reunidos no livro Música de feitiçaria (originado de uma conferência sobre o tema), por Oneida Alvarenga, que foi assessora, discípula e grande amiga de Mario de Andrade (ela própria importante como folclorista e pesquisadora). Uma das obras fundamentais do autor de Macunaíma é foi a chamada Missão folclórica Mario de Andrade, realizada quando ela era diretor do Departamento de Cultura do Estado de São Paulo, em 1938, idealizando e pondo em prática, uma pesquisa in loco no Norte e Nordeste para registrar a quase ignorada cultura destas regiões.

O material resultante da missão é extremamente valioso e numeroso. Só em música resultou em 115 discos. Coco, carimbó, babassuê, cantigas de chegança, bumba meu boi, embolada. Um material tão extenso que só foi inteiramente organizado e catalogado depois da morte do escritor, há exatos 70 anos. A Missão Mário de Andrade teria desdobramentos. O próprio Mário de Andrade continuaria a pesquisar e a estudar a música do povo do Norte e Nordeste, enquanto a missão serviria de modelo para outras missões semelhantes acontecidas anos depois, por Oneida Alvarenga, responsável pelos seminais Registro Sonoro do Folclore Musical Brasileiro e o Catálogo Ilustrado do Museu Folclórico. 


Em vida ele publicou Os obrigatórios Ensaio sobre a música brasileira, Compêndio de História da Música, Introdução à estética musical, Evolução social da música brasileira. Não apenas da música, mas também das danças dramáticas , dos folguedos. Novamente, não apenas do Norte/Nordeste, mas igualmente que acompanhou de perto, sobretudo no Rio, exatamente na época em que o samba descia do morro para o asfalto. Anos mais tarde, as ideias de Mario de Andrade, ligado à ala nacionalista da música brasileira, seriam adaptadas pelos baianos para u tropicalismo que tinha nome mas faltava um arcabouço em se sustentasse. Muito do que se fez na Tropicália em 1968, já está antecipado no básico Ensaio sobre a música brasileira. O texto abaixo, pinçado da abertura do ensaio, poderia ter sido usado num manifesto tropicalista há 47 anos, e é válido ainda hoje:

 “Nós, modernos, manifestamos dois defeitos grandes: bastante ignorância e leviandade sistematizada. É comum entre nós a rasteira derrubando da jangada nacional não só as obras e autores passados como até os que atualmente empregam a temática brasileira numa orquestra européia ou no quarteto de cordas. Não é brasileiro, se fala. É que os modernos, ciosos da curiosidade exterior de muitos dos documentos populares nossos, confundem o destino dessa coisa séria que é a Musica Brasileira com o prazer deles, coisa diletante, individualista e sem importância nacional nenhuma. O que exigem a golpes duma crítica aparentemente defensora do patrimônio nacional, não é a expressão natural e necessária duma nacionalidade não, em vez é o exotismo, o jamais escutado em música artística, sensações fortes, vatapá, jacaré, vitória-régia. Mas um elemento importante coincide com essa falsificação da entidade brasileira: opinião de europeu. O diletantismo que pede música só nossa está fortificado pelo que é bem nosso e consegue o aplauso estrangeiro. Ora por mais respeitoso que a gente seja da crítica européia carece verificar duma vez por todas que o sucesso na Europa não tem importância nenhuma pra Musica Brasileira.”

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