São João 2015

Genival, rei do duplo sentido, é também a história viva do forró

Ele cantou e conviveu com Luiz Gonzaga, Marinês, e Jackson do Pandeiro

José Teles
José Teles
Publicado em 21/06/2015 às 1:54
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Ele cantou e conviveu com Luiz Gonzaga, Marinês, e Jackson do Pandeiro - FOTO: JC Imagem
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O Senador do Rojão, seu Cazuza, Seu Vavá, O Rei da Munganga ­ são todos heterônimos de Genival Lacerda. A cada um, ele designou um papel na sua obra. Seu Cazuza, por exemplo, foi personagem de programa humorístico de TV, que fez em dupla com o ator Lúcio Mauro (o Seu Barbalho), e com Luiz Gonzaga, Seu Vavá foi apresentador de programa de rádio. No entanto, os resumos biográficos feitos para um dos homenageados deste São João do Recife, dão a ideia que ele só começou a carreira em 1975, quando lançou Severina Xique Xique, seu maior sucesso.

"João Gonçalves chegou lá em casa, num domingo de manhã, me dizendo que trazia uma música que era a minha cara. Contou que tinha oferecido a Jackson e a Messias Holanda, mas eles não quiseram. Como é a história? Se estes cobrões não quiseram, sou eu que vou querer?", rememora Genival. A música que ele recebeu naquela manhã de domingo foi Severina Xique Xique. O autor, João Gonçalves, assim com ele, havia nascido em Campina Grande. "Disse a ele que ia ficar com a música, mas antes ia dar uma arrumada, botar uma meia sola nela," conta. "Fui ao programa de Adelzon Alves, na Rádio Globo, todo mundo estava lá: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Abdias, Ary Lobo, Os Três do Nordeste. Cantei Severina. Depois, Adelzon olhou pra mim e falou: Caboco, este vai ser o seu maior sucesso."

Tem mais: "Ozeás Lopes me levou pra gravadora Copacabana, mas o pessoal de lá não acreditou muito na música. Em 15 dias, vendeu 35 mil discos. Em dois meses, 600 mil. E desembestou", ele revela. "Fui na gravadora pedir um adiantamento. Cheguei lá e vi Paulo Sérgio recebendo o que pediu. Pedi 50 mil, o homem disse que eu voltasse uma semana mais tarde. Falei que não. Se Paulo Sérgio recebeu, por que eu não receberia também? Se não me der, rescindo o contrato, e vou embora". O "homem" da Copacabana pagou o que ele pediu: "Era muito dinheiro. Comprei uma casa em Campina Grande, que só de quarto tinha onze, uma piscina enorme".

SETE DÉCADAS

Hoje aos 84 anos, Genival Lacerda estava com 25 de carreira quando gravou Severina Xique Xique. Lá se vão 70 de profissão, se contarmos o tempo em que disputava com Marinês prêmios em programa de calouros, em Campina Grande. Ele costuma contar sobre um primeiro lugar que tirou com Marinês, em 1948, na Rádio Cariri de Campina Grande: "A gente ganhou junto, ela recebeu o dinheiro, ficou de dar minha parte e nunca deu. Brincava comigo dizendo que, até o fim da vida, ia ficar me devendo". Com Marinês e Abdias, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e Zito Borborema, Genival Lacerda fez parte da segunda geração do forró, surgida logo depois ­ e por influência ­ de Luiz Gonzaga.

É dos últimos desta geração, a história viva da música do povo Nordestino: "Um dia, em 1948, RCavalcanti sentou lá na sala de casa, com um violão, e ensinou a Jackson do Pandeiro umas músicas que tinha feito: Sebastiana, Compadre João". Genival Lacerda é cantor da escola de Jackson do Pandeiro, das divisões impecáveis e imprevisíveis. Foram contraparentes. Severina, irmã de Jackson, foi casada um irmão dele. Enviuvou e se casou com outro irmão. José Melchíades, o primeiro, foi cantor e um dos primeiros parceiros de Jackson. Em 1950, Genival Lacerda foi contratado pela Rádio Borborema, de Campina Grande: "Em 1953, vim cantar no Recife, no aniversário da Rádio Tamandaré. Ganhava 700 cruzeiros lá, aqui me ofereceram 5 mil", diz Genival.

"Eu estava em Campina Grande, quando encontrei Ary Barroso, que foi se apresentar lá, e me aconselhou a ir para o Rio de Janeiro. Fui embora. Chego lá no dia 1º de abril de 1964, no dia da revolução (sic). Jackson e Almira foram me apanhar no Santos Dumont e perguntei se a gente estava em guerra. Pra todo canto era homem fardado de verde, tanques", conta. "Jackson, com aquele jeito dele, disse baixinho que tinham botado o homem pra fora. Perguntei que homem. E ele: o homem, Jango. Mas a gente só fala destas coisas em casa". Genival Lacerda foi sempre mais da munganga do que de política. Mas, nos anos 1950, chegou a participar de caravanas políticas, quando F. Pessoa de Queiroz, então dono do Sistema Jornal do Commercio, contratou­o para animar comícios pelo Sertão: "Fomos eu e Nerize Paiva (recentemente falecida), pelo Sertão todo, cantado para doutor Pessoa. Quando voltamos, foi a vez de Luiz Gonzaga". Embora a política passasse por longe de sua música, na época da ditadura, ele teve problemas com a censura:

"Quando eu fazia o Programa do Seu Vavá, em Campina Grande, uma delegada lá implicou porque falei "dou um chute no saco de levar fumo" no ar, e queria me enquadrar. Outra vez, no Rio, por causa da música Vendedor de Jumento, não gostaram de uma coisas da música", revela. "Aleguei que só cantava ­ a música era composta por Aguinaldo Batista, um humorista no Recife (em parceria com Elias Alves)." Um trechos dos versos do Vendedor de Jumento: "Tô vendendo um jumento de quatro patas/ninguém me empaca de fazer a promoção/o meu jumento tem farol na dianteira/tem rabicho na traseira/só não tem freio de mão".

(leia matéria n íntegra na edição impressa do Jornal do Commercio de hoje)

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