Ave Sangria

Ave Sangria é mais uma vitima da censura a fim de justiça

Grupo acabou depois que primeiro LP foi proibido em 1974

José Teles
José Teles
Publicado em 16/02/2016 às 2:12
Foto: divulgação/fotógrafo não identificado
Grupo acabou depois que primeiro LP foi proibido em 1974 - FOTO: Foto: divulgação/fotógrafo não identificado
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A página mais infeliz da nossa história, nos versos de Vai Passar, de Chico Buarque/Francis Hime, ainda está longe de ser virada. Um parágrafo importante diz respeito à censura, e nele estão como personagens centenas de intérpretes, bandas e compositores, entre os quais a pernambucana Ave Sangria. Em 1974, o grupo lançou o primeiro e único disco de estúdio, Ave Sangria, pela extinta gravadora Continental, que investia na época no novo rock nacional, lançando bandas como Secos & Molhados, Moto Perpétuo e Bixo da Seda.

O Ave Sangria não chegou a alçar vôo. Teve as asas cortadas pela censura, que proibiu a faixa Seu Waldir (Marco Polo), com menos de um mês do lançamento do álbum, que foi retirado de circulação, e relançado sem a faixa subversiva. O grupo, que estava no início da divulgação, não se refez do golpe. Em 28 e 29 de dezembro, de 1974, apresentou dois concertos no Teatro Santa Isabel, o Perfume y Baratchos, e logo em seguida, desfez-se.

Meio século depois, o advogado brasiliense Fernando Antunes deu entrada com data de 12 de janeiro de 2016, num requerimento de anistia política, com pedido de indenização para os três remanescentes do Ave Sangria: o baixista e compositor Almir de Oliveira, o cantor e compositor Marco Polo, o guitarrista Paulo Rafael, e ainda o, já falecido, percussionista Agrício Noya. Quanto aos outros dois integrantes, também já falecidos ­ o baterista Israel Semente Proibida e o guitarrista Ivson "Ivinho" Wanderley ­ o advogado explica porque não figuram no requerimento: "Os familiares têm direito, sim, tanto que é o caso do Agrício, que faleceu no final do ano passado Mas, pelo que o Almir me disse, os familiares do Israel não demonstraram interesse no requerimento, até o momento. E os familiares do Ivinho não providenciaram a documentação também, por enquanto".

Fernando Antunes entrou na história do Ave Sangria vendo o documentário Ave Sangria: Sons de Gaitas, Violões e Pés, projeto experimental, para conclusão do curso de jornalismo, de Raynaia Uchôa, Rebeca Venice e Thiago Barros, de 2008: "A fala do Almir, quando ele conta que tinha que tocar para a polícia federal, me chamou atenção porque eu não sabia o que estava por trás do fim da banda. O livro Do Frevo ao Manguebeat (editora 34), mostra bem a história da banda. Eu estava na Comissão da Verdade, tivemos umas reuniões com a Comissão Estadual e percebemos como a ação da censura não era muito conhecida, aí, nem pelos membros da comissão local. A gente fez um trabalho de buscar documentos, de conversar com o pessoal, pesquisar".

Ele então entrou em contato com Marco Polo e com Almir de Oliveira, que falaram com os outros ­ Paulo Rafael e parentes dos integrantes falecidos. "Eu nem sei quanto ele está pedindo de indenização, mas o que a gente deseja, na realidade, é mais uma questão de conforto moral. Quero que o Estado brasileiro reconheça que cometeu uma injustiça", comenta Marco Polo. Ele não sabe se o parecer será favorável à banda, mas não tem dúvidas de que a ação da censura retirando o disco das lojas foi fundamental para o fim da Ave Sangria. 

(leia matéria na íntegra na edição impressa do Jornal do Comercio)

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