BIOGRAFIA

HQ mostra a vida e o jazz de John Coltrane

O italiano Paolo Parisi conta e celebra em imagens e palavras a história do saxofonista, um dos maiores nomes do jazz

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 03/03/2016 às 5:31
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O italiano Paolo Parisi conta e celebra em imagens e palavras a história do saxofonista, um dos maiores nomes do jazz - FOTO: Reprodução
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A música era mais do que só música para John Coltrane, que faria 90 anos neste ano: era transcendência. O som começava antes, era o início de tudo, e parecia ser mais do uma mera gravação encerrava. “Palavras, sons, fala, homens, memória, pensamentos, medos e emoções – tempo –, tudo se relaciona... tudo vem de um só lugar”, escreveu no poema que aparece na contracapa da sua obra-prima, A Love Supreme. Aliás, não é à toa que um amor supremo é uma forma perfeita de descrever sua ligação profunda com a criação artística.

Coltrane (Veneta), espécie de biografia em quadrinhos do saxofonista americano, não é só um relato direto de uma vida dedicada à música e – como todas – contaminada pelo mundo que a cerca. É uma espécie de composição feita pelo quadrinista italiano Paolo Parisi, em uma montagem poética e sintética do que moveu, transformou e criou aquele homem sério (“Você é aquele que nunca sorri?”, pergunta sua primeira mulher, Naima, quando o conhece), que parecia tocar como se sentisse raiva, quando, na verdade, era uma pessoa gentil e doce.

A paixão do saxofonista pela música é resumida em uma frase: “É verdade: estou louco. Mas só quando não toco como quero”. Paolo abre mão das análises e descrições cansativas no quadrinho: escolhe falar de momentos específicos, como a morte dos avós e do pai, as sessões de gravação icônicas, os amores, o problema com as drogas, o interesse na luta contra o racismo.

A beleza do seu trabalho é fazer uma homenagem silenciosa justamente a um músico. As palavras e os diálogos são leves e concisos; o autor parece acreditar que boa parte da beleza do mestre do jazz está representada em imagens – como, por exemplo, na concentração de Coltrane enquanto toca. No posfácio, Paolo ainda conta que pensou a HQ para ser lida com A Love Supreme ao fundo. “Em certo sentido, a ideia é conectar a leitura com a audição”, diz.

Outro belo momento surge da fala de Miles Davis – um dos mentores do saxofonista, junto com Thelonious Monk – para Coltrane. “Mesmo que houvesse uma mulher nua na tua frente, você não tiraria a boca do sax. Primeiro, essa história das percussões, depois você inventa de tocar esses sets de quarenta minutos. Entra na heroína e consegue sair, o público europeu te vaia, mas a Downbeat te elege o saxofonista do ano. Eu não entendo”, afirma o autor de Kind of Blue.

Se o jazz pode ser visto como uma religião musical, Coltrane seguia um caminho próprio para a espiritualidade. Mesmo canonizado pela Igreja Ortodoxa Africana após sua morte, sempre reiterou que falava em Deus sem se referir a uma religião específica. “Eu acredito em todas as religiões”, chegou a afirmar em 1965. A música era a forma de Trane falar, de uma só vez, para pessoas de várias crenças, linguagens e contextos. Ou, como ressalta Paolo, era a forma de mostrar que, no princípio, tudo era o som: Coltrane simplesmente queria recuperar esse momento primordial.

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